Em “Come, Let’s Away”, ‘Academia da Frota Estelar’ transforma Tales from the Frontier Star Trek em peça narrativa (não só easter egg) e abre debate: os uniformes coloridos da TOS voltaram no século 31 ou é licença artística do gibi dentro do universo?
‘Star Trek’ sempre teve um certo esnobismo cultural embutido. Durante décadas, a franquia preferiu mostrar oficiais recitando Shakespeare, ouvindo jazz “de coleção” e preservando livros raros — como se, no futuro, a cultura pop tivesse sido superada. Em ‘Star Trek: Academia da Frota Estelar’, isso muda de tom. No episódio 6, “Come, Let’s Away”, um cadete vulcano obcecado por gibis não é piada: ele é a ponte para algo maior. O roteiro faz de Tales from the Frontier Star Trek um objeto diegético com peso emocional e função prática — e ainda abre uma porta curiosa para os uniformes coloridos da Série Original voltarem a existir (de verdade) no século 31/32.
A cena-chave é simples e, justamente por isso, potente: B’Avi (Alexander Eling), cadete vulcano vindo do War College, coloca uma edição física de Tales from the Frontier sobre o caixão de um companheiro. Ele descreve aquelas histórias — sobre a tripulação condenada da USS Miyazaki — como “um farol de esperança em tempos mais escuros”. O detalhe que importa: a série não trata o gosto dele como “inferior”. Não há piscadela cínica. Pela primeira vez, ‘Star Trek’ assume, dentro do próprio universo, que quadrinhos sobre a Frota existem e podem ser relevantes para gente da Frota.
O momento em que ‘Academia da Frota Estelar’ canoniza (de verdade) um gibi
Na vida real, ‘Star Trek’ tem décadas de quadrinhos: Gold Key, DC, WildStorm, IDW — cada era com sua continuidade, sua liberdade e suas contradições. A regra tácita sempre foi: quadrinho é “extra” até a TV/filme apontar o dedo e validar. “Come, Let’s Away” não resolve toda a bagunça de continuidade, mas faz algo mais inteligente: não “cita” um quadrinho como easter egg — ele faz a história depender dele.
O gibi que B’Avi carrega não é só adereço de caracterização; é chave narrativa. A edição física se torna crucial para reativar/recuperar acesso ao computador da USS Miyazaki, permitindo que os cadetes assumam controle de uma nave abandonada. É um detalhe técnico com implicação temática: num século 32 dominado por PADDs e interfaces “limpas”, o episódio escolhe o papel — não como fetiche, mas como instrumento e símbolo. A série já tinha brincado com esse respeito ritual por objetos analógicos (pense no tipo de devoção que colecionadores dentro da Frota demonstram por “livros reais”); aqui, o quadrinho recebe o mesmo tratamento. A mensagem é clara: significado não é monopólio da “alta cultura”.
Os uniformes TOS no século 31: arte do quadrinho ou retorno canônico?
A segunda provocação é visual e, para fãs de continuidade, inevitável: nas páginas de Tales from the Frontier exibidas na tela, a tripulação da USS Miyazaki — comandada pelo Capitão Chi no século 31 — aparece usando as cores primárias clássicas (amarelo, azul, vermelho) associadas a ‘Star Trek: The Original Series’ e revalorizadas por ‘Star Trek: Strange New Worlds’. Não é só a paleta: o episódio reforça a ideia com produção/encenação ao filmar sequências na ponte da Miyazaki no mesmo set que evoca a Enterprise de Strange New Worlds, criando uma sensação de “continuidade física” imediata.
Mas o que está valendo aqui? Existem duas leituras, e o episódio parece desenhado para sustentar as duas:
- Licença artística diegética: como é um quadrinho “dentro do universo”, as imagens podem ser estilização do artista — um jeito de romantizar uma tripulação heroica com um visual “clássico”.
- Retorno canônico (por função): a alternativa mais interessante é a Frota do século 31 ter readotado um design do século 23 por motivos institucionais — cerimonial, unidade histórica, navio-museu, ou mesmo uma tradição específica de classe/missão. ‘Star Trek’ já normalizou a ideia de variações de uniforme por posto, época e teatro de operações.
A sacada do episódio é que as duas opções dizem algo sobre o pós-Burn: ou a Frota romantiza o passado (e isso já é um dado emocional), ou ela literalmente veste o passado como projeto de futuro. Em ambos os casos, não é nostalgia vazia: é identidade em reconstrução.
Por que isso funciona: a cultura pop como terapia de um século fragmentado
O episódio tem um subtexto bem calibrado: esses cadetes vivem num tempo de Federação remendada, tentando reerguer o que se quebrou. Consumir mídia sobre uma tripulação “mítica”, com uniformes que remetem a uma era de otimismo, não é acaso — é autoformação. Eles não estão só estudando tática; estão aprendendo a imaginar um futuro melhor usando narrativas do passado.
Há também um toque metalinguístico sem quebra de ilusão. Ver B’Avi — um vulcano, arquétipo de disciplina e suposta superioridade lógica — encontrar conforto em histórias em quadrinhos é o roteiro reconhecendo o fã sem apontar o dedo para o fã. Os gibis que muita gente leu “como material secundário” agora existem, dentro da ficção, como mito e como ferramenta. É uma validação que não parece marketing; parece dramaturgia.
Para quem o episódio acerta em cheio (e para quem pode soar irrelevante)
“Come, Let’s Away” é um prato cheio para quem gosta de caçar fricções de cânone e discutir o que “conta” ou não conta — especialmente por colocar o quadrinho na engrenagem do episódio, não na prateleira de referências. Também funciona para quem só quer gênero puro: a visita à nave abandonada tem clima de thriller de “nave assombrada”, com ameaça dos Furies e uma escalada de tensão bem mais física do que filosófica.
Agora, se você não tem nenhum apego ao debate de continuidade e nem paciência para o meta-comentário, é possível que o impacto pareça pequeno: parte do prazer está justamente em perceber por que o episódio escolhe um gibi e por que escolhe aquelas cores. Para quem cresceu lendo quadrinhos de ‘Star Trek’ como um “lado B” da franquia, a sensação é outra: a série finalmente diz, sem ironia, que essas histórias também têm lugar dentro do universo.
No fim, ‘Academia da Frota Estelar’ mexe num pilar silencioso da franquia: a hierarquia entre “alta cultura” e “cultura pop”. Ao fazer um quadrinho mover a trama — e ao flertar com um retorno visual à fase mais luminosa de ‘Star Trek’ — o episódio aponta um futuro menos cinza, literal e simbolicamente. E isso, para uma Federação que está tentando voltar a acreditar em si mesma, é o tipo de detalhe que vira declaração.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Tales from the Frontier’ e o episódio 6 de ‘Academia da Frota Estelar’
Qual é o título do episódio 6 de ‘Star Trek: Academia da Frota Estelar’?
O episódio 6 se chama “Come, Let’s Away”.
O quadrinho ‘Tales from the Frontier’ virou cânone em ‘Star Trek’?
O episódio trata Tales from the Frontier como um quadrinho que existe dentro do universo e que influencia diretamente a trama, o que é uma forma forte de canonização diegética. Ainda assim, isso não significa automaticamente que todo o conteúdo de décadas de HQs de ‘Star Trek’ passou a ser cânone.
Os uniformes coloridos de TOS são oficialmente canônicos no século 31/32?
O episódio mostra esses uniformes nas páginas do quadrinho exibidas em cena, mas deixa espaço para interpretação: pode ser licença artística do gibi “dentro do universo” ou um indício de que a Frota readotou o visual por razões cerimoniais/históricas. Até a série afirmar em diálogo ou mostrar em live-action de forma inequívoca, a questão fica em aberto.
Preciso assistir outras séries para entender o episódio 6?
Não é obrigatório. O episódio funciona como história de suspense em uma nave abandonada, mas quem já viu ‘Star Trek: Strange New Worlds’ e conhece a iconografia da TOS tende a aproveitar mais as camadas de design, referências e debate de cânone.
Quem é B’Avi em ‘Academia da Frota Estelar’?
B’Avi é um cadete vulcano do War College interpretado por Alexander Eling. No episódio 6, ele é o personagem que conecta a narrativa ao quadrinho Tales from the Frontier, tratando as histórias como inspiração real para a Frota.

