O roteirista Rhett Reese reage ao vídeo IA Tom Cruise Brad Pitt e, em 24 horas, muda do pânico ao diagnóstico: a IA pode derrubar o gatekeeping de Hollywood. Analisamos por que o choque não é o deepfake — é a encenação e a consistência.
Quando Ruairi Robinson publicou aquele vídeo IA Tom Cruise Brad Pitt no X, a reação imediata foi um misto de fascínio técnico e arrepio existencial. A cena mostra os dois astros em um telhado desolado, trocando socos e queixadas com uma hiperrealidade perturbadora — movimentos de câmera fluidos, iluminação de “filme grande”, expressões faciais que beiram o reconhecível. O que tornou o clipe viral, porém, não foi só a qualidade visual: foi o comentário seco de Rhett Reese, roteirista de ‘Deadpool & Wolverine’: “Odeio dizer isso. Provavelmente acabou para nós.”
Reese não estava sendo dramático por esporte. Ele estava verbalizando um pânico que corre Los Angeles desde que ferramentas generativas passaram a comprimir semanas de pós em horas. Só que a parte mais interessante do episódio não é o “acabou” — é o que veio depois: a percepção de que a tecnologia que ameaça demitir gente também pode destravar o acesso ao cinema, derrubando os muros que Hollywood ergueu por um século.
O vídeo que parou a timeline: não é o deepfake — é a encenação
Robinson, cineasta de ‘The Last Days on Mars’, não soltou um único take “de demonstração”. Ele publicou variações da mesma ideia — mesmo telhado cinzento, mesma dinâmica de confronto — mudando ângulos, ritmo de corte, timing de reações e até trechos de fala com sincronização labial. É esse detalhe que muda o jogo: não é um rosto colado num corpo; é uma cena com escolhas de mise-en-scène.
O que assusta profissionais como Reese é a consistência. Não é mais a IA “de 2022” que derretia dentes e mãos a cada 10 segundos. Aqui há continuidade de ação, sensação de peso nos movimentos e, principalmente, a ilusão de presença — Cruise e Pitt não estão apenas “parecidos”; eles performam. Para quem trabalha com imagem, o choque vem da soma de pequenas coisas: microexpressões, respiração, olhar que “procura” o parceiro de cena, câmera que parece saber onde está o impacto antes dele acontecer. É justamente esse pacote — performance + câmera + luz + continuidade — que sempre justificou equipes gigantescas e orçamentos absurdos.
De “acabou para nós” ao “Nolan de um homem só”: o que Reese realmente disse
O arco emocional de Reese nas 24 horas seguintes é o centro da notícia. Depois do post inicial (o lamento clássico de quem vê uma indústria evaporar), ele voltou com uma correção de curso: “Em pouquíssimo tempo, uma pessoa vai poder sentar em um computador e criar um filme indistinguível do que Hollywood lança hoje.” E aí veio a cláusula que define a conversa: “Se essa pessoa não for boa, vai ser ruim. Mas se possuir o talento e o gosto de Christopher Nolan — e alguém assim surgirá rapidamente — será tremendo.”
Há um ponto objetivo aí que vale separar do apocalipse: a ferramenta pode baratear o como, mas não cria automaticamente o porquê. Nolan não é “bom” por ter IMAX: ele é bom por escolher onde colocar informação, quando negar catarse, quando transformar exposição em suspense. Se a IA está prestes a reduzir o custo de produção, o diferencial volta a ser aquilo que sempre foi raro: discernimento. Reese não está prevendo um mundo sem diretores; está prevendo um mundo com diretores sem estúdio.
O subtexto das greves: por que esse debate volta com força
As frases de Reese aterrissam num terreno já inflamado desde 2023, quando WGA e SAG-AFTRA colocaram a IA no centro do conflito. Roteiristas pediam limites para “texto gerado”; atores exigiam salvaguardas contra a replicação digital de suas imagens sem consentimento e compensação. O vídeo IA Tom Cruise Brad Pitt, apesar de curto, materializa o pesadelo em forma de clipe: estrelas “atuando” sem set, sem contrato e — dependendo do caminho jurídico — sem controle real sobre o próprio rosto.
Mas existe uma ironia amarga: as mesmas ferramentas que ameaçam empregos do set são as que podem libertar criadores fora do eixo. Um cineasta brasileiro que jamais teria acesso a Cruise ou Pitt (nem ao orçamento para simular um telhado de Los Angeles) consegue, em tese, prototipar uma cena com escala de blockbuster e testar ritmo, enquadramento, tom. O debate deixa de ser “IA é boa ou ruim” e vira outra pergunta, mais incômoda: quem controla a imagem e para onde o valor escorre?
“Uncanny valley”, alma e o erro de ler o presente como destino
Nos comentários do post, a divisão é previsível: metade vê o apocalipse, metade vê “falhas óbvias”. Há quem aponte expressões um pouco plásticas, física de impacto ligeiramente desconectada, ou a sensação de que falta algo vivo — aquela “alma” difícil de definir. Esses críticos não estão inventando defeitos: eles existem.
O que costuma faltar nessa leitura é a noção de curva. Robinson não publicou um “filme pronto”; publicou um protótipo público que já supera o padrão de muito VFX barato que chega ao streaming. A comparação mais honesta não é com IMAX no auge — é com o que esse tipo de ferramenta era há 18 meses. A revolução aqui não é a perfeição; é a velocidade com que a imperfeição deixa de ser argumento. E é por isso que a frase do Reese sobre “alguém com talento” importa: ele está apostando que o gargalo vai migrar do render para a autoria.
O que sobra quando o set encolhe: autoria, trabalho e a marca “Hollywood”
A pergunta que o vídeo IA Tom Cruise Brad Pitt empurra para o centro não é apenas trabalhista; é estética e política: o que chamamos de “cinema” quando o set some e a filmagem vira interface? Se uma obra feita por um indivíduo num laptop consegue gerar resposta emocional equivalente a um grande estúdio, o que Hollywood ainda oferece além de capital, distribuição e marca registrada?
Historicamente, o cinema já atravessou promessas de fim — som, cor, vídeo, digital, streaming — e sempre incorporou tudo. A diferença é que a IA não pede licença para ser incorporada: ela permite substituição direta de etapas inteiras (pré, produção e pós) e, com isso, desloca poder. O risco é óbvio para ofícios específicos. A oportunidade também: um autor com visão pode testar, errar e refazer sem precisar “convencer” uma sala de executivos a liberar uma verba.
Reese, no fundo, disse duas verdades desconfortáveis em sequência: pode “ter acabado” para um modelo de indústria; e pode estar começando uma era em que o próximo grande cineasta não precisa pedir entrada. Se isso significar que um novo ‘Interestelar’ venha de um quarto em São Paulo, Mumbai ou Lagos — com menos gatekeeping e mais autoria — talvez a pergunta correta não seja “acabou para nós?”, e sim “acabou para quem, exatamente?”
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Perguntas Frequentes sobre o vídeo de IA com Tom Cruise e Brad Pitt
Quem é Ruairi Robinson, criador do vídeo viral de IA com Tom Cruise e Brad Pitt?
Ruairi Robinson é um cineasta (diretor/roteirista) conhecido, entre outros trabalhos, pelo longa ‘The Last Days on Mars’. Ele publicou no X variações do clipe gerado por IA que viralizou.
O que Rhett Reese escreveu sobre o vídeo de IA com Cruise e Pitt?
Ele comentou que “provavelmente acabou para nós”, e depois elaborou que em pouco tempo uma pessoa poderá fazer, no computador, um filme indistinguível do padrão de Hollywood — mas que o resultado ainda dependerá de talento e gosto (ele cita Christopher Nolan como referência).
Tom Cruise e Brad Pitt autorizaram o uso de suas imagens nesse vídeo de IA?
Não há confirmação pública de autorização dos atores apenas pelo fato de o vídeo ter viralizado. Em geral, o uso comercial da imagem e da voz de celebridades envolve direitos e contratos, e é justamente esse tipo de caso que alimenta debates e disputas sobre consentimento e compensação.
Qual é o impacto da IA para roteiristas e atores em Hollywood?
O impacto é duplo: pode reduzir demanda por etapas tradicionais (rascunhos, reescritas, extras, dublês e até captura de performance) e, ao mesmo tempo, baratear prototipagem e produção para independentes. Por isso o tema entrou com força nas negociações do WGA e do SAG-AFTRA, especialmente sobre crédito, consentimento e remuneração por uso de imagem/voz.
Esse tipo de vídeo de IA significa que filmes “sem set” vão substituir blockbusters?
Não necessariamente, mas o clipe sugere que parte do “visual de blockbuster” pode ser reproduzida sem a estrutura tradicional. O limite deixa de ser só técnico e passa a ser criativo (direção, ritmo, dramaturgia) e jurídico (direitos de imagem/voz e regras de crédito e pagamento).

