Em Arcane Ella Purnell, a atuação de voz como Jinx troca a fantasia pelo peso da tragédia: pausas, quebras e hesitações viram personagem. O artigo destrincha as escolhas vocais que fazem a série funcionar mesmo para quem nunca jogou League of Legends.
Existem adaptações de jogos que funcionam como tradução: pegam o que você reconhece no monitor e transferem para a TV, apostando que o fan service basta. Arcane Ella Purnell é o oposto disso. É alquimia — o tipo de trabalho em que uma voz pega um arquétipo “funcional” e o converte em tragédia. A série da Netflix poderia ter sido só mais um produto de marca. Não foi. E uma fatia grande dessa diferença está na garganta de Ella Purnell, que dá à Jinx um tipo de humanidade ferida que animação ocidental raramente banca com tanta frontalidade.
No League of Legends, Jinx sempre funcionou como um emblema de caos: estética forte, energia explosiva, zero obrigação de coerência psicológica. Em Arcane, esse caos não some — mas ganha causa, consequência e cicatriz. O que Purnell faz não é “dublar bem”. É decidir, a cada frase, se Jinx está atacando, implorando ou se defendendo de algo que a própria personagem não consegue nomear. E aí o que era fantasia vira tragédia.
O truque de Purnell: Jinx não é “maníaca”, é alguém tentando não desabar
A escolha mais inteligente da performance é também a mais difícil de perceber de primeira: Purnell recusa a leitura óbvia. Seria fácil transformar Jinx numa metralhadora de tiques — risada alta, frase rápida, volume constante. Mas ela trabalha com variação e, principalmente, com controle. A instabilidade não vira “característica cool”; vira sintoma.
Repare como a voz muda de densidade quando a personagem alterna entre bravata e colapso: as palavras ganham uma pressa quase infantil, mas o final de algumas frases cai — como se faltasse ar, como se a coragem acabasse um segundo antes da fala terminar. Quando Jinx ameaça, você ouve fragilidade por baixo, não como “contraste dramático”, e sim como fundação. A série inteira depende disso: se Jinx vira só uma doida carismática, o arco desaba. Com Purnell, cada explosão tem lastro emocional.
A cena que prova tudo (e por que o silêncio é a grande atuação)
O melhor trabalho de Purnell aparece quando ela quase não atua — ou melhor: quando ela segura a atuação. Há um momento-chave na série em que Jinx precisa processar uma perda e, em vez de entregar um choro “bonito”, Purnell faz a voz travar em microquebras, como se cada palavra fosse um objeto cortante na boca. Não é melodrama. É corpo reagindo.
Isso importa porque a série é visualmente exuberante; seria fácil a voz virar apenas trilha de emoção. Aqui acontece o contrário: a voz cria um centro de gravidade. Você sente a personagem tentando se manter inteira e falhando em tempo real — e é essa tentativa (não o surto em si) que coloca Arcane no território da tragédia.
Jinx e Vi: a química vocal com Hailee Steinfeld é o coração escondido da série
Hailee Steinfeld (Vi) funciona como uma rocha: frase mais reta, energia mais direta, a dor jogada para fora. Purnell trabalha no sentido inverso: a dor implode e depois vaza. Quando essas duas linhas se encontram, o que você escuta não é “duas atrizes boas” — é um relacionamento inteiro em fricção.
Nos confrontos entre as irmãs, Purnell faz algo raro: deixa a vulnerabilidade escapar mesmo quando Jinx está ofensiva. Quando Vi a chama de “Powder”, a resposta vocal não vem como raiva performática; vem como uma ferida reaberta, um reflexo. A série escreve bem esses encontros, mas é a entonação que dá a eles a sensação de passado compartilhado. O subtexto não está no que elas dizem — está no que a voz denuncia quando tenta parecer dura.
O 100% no Rotten Tomatoes: o número é discutível; o motivo, não
Arcane terminar a segunda temporada com 100% no Rotten Tomatoes diz mais sobre consenso crítico do que sobre “perfeição” (pontuação não mede impacto; mede agregação). Mas o porquê desse consenso é palpável: a série trata fantasia como drama de consequências, e não como estética.
A animação da Fortiche — essa fusão de texturas pictóricas com movimento fluido, quase como pintura a óleo em combustão — seria suficiente para chamar atenção sozinha. Só que a beleza visual não sustenta personagem sem peso. O peso vem do áudio: atuação, respiração, pausa, hesitação. Sem Purnell, Jinx poderia virar só um ícone visual. Com ela, vira uma pessoa em ruínas — e isso dá consequência a cada quadro “bonito”.
Depois de ‘Fallout’, o medo do typecasting faz sentido — mas também revela o tamanho da conquista
É irônico: Purnell virou um dos rostos (e vozes) mais associados a adaptações de jogos justo quando começou a demonstrar incômodo com essa etiqueta. Ela disse à Popverse que teme ser typecast como “a garota dos videogames”. O medo é real — Hollywood ama atalhos.
Mas há um detalhe que esse receio às vezes apaga: em Arcane e Fallout, Purnell não é só “boa dentro do gênero”. Ela é parte do motivo de essas obras funcionarem fora do nicho. Em Yellowjackets, ela já tinha mostrado domínio de horror psicológico; em Sweetpea, o timing cômico prova elasticidade. O ponto não é “ela consegue fazer mais coisas”. É que, quando o material pede, ela consegue encontrar camadas onde a adaptação normalmente entregaria superfície.
Em 2026, ser uma referência de adaptação de jogo não deveria soar como limitação: deveria soar como especialidade rara. Se ela quiser sair dessa caixa, dá. Se decidir ficar, tem chance de definir o padrão do que “atuar um personagem de videogame” significa na TV.
Veredito: ‘Arcane’ exige ser ouvido, não apenas visto
Arcane funciona em camadas: visualmente, é uma aula de estilo; narrativamente, é fantasia política com carne; emocionalmente, é um estudo sobre família e trauma. Mas é na voz — e, em especial, no que Ella Purnell faz com Jinx — que a série encontra seu núcleo trágico.
Você não precisa saber nada de League of Legends. A Jinx de Purnell se sustenta sozinha: uma personagem que tenta transformar dor em performance e acaba engolida por ela. É um trabalho que merece ser citado ao lado de grandes atuações de voz da animação contemporânea não por fidelidade ao jogo, mas por fidelidade à experiência humana.
No fim, a pergunta mais interessante não é se Purnell vai ser “typecast”. É se a indústria vai admitir o que Arcane deixa claro: ela não está traduzindo jogos. Está mostrando o que eles podem virar quando alguém decide tratá-los como drama de verdade.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Arcane’ e Ella Purnell
Ella Purnell dubla a Jinx em ‘Arcane’ em qual idioma?
Ella Purnell é a voz original da Jinx em inglês (versão original de ‘Arcane’). Outras línguas, como o português, têm elencos de dublagem diferentes.
Preciso jogar ‘League of Legends’ para entender ‘Arcane’?
Não. ‘Arcane’ foi escrita para funcionar por conta própria: a história apresenta o mundo, os conflitos e as personagens sem exigir conhecimento do jogo (os easter eggs são bônus).
Onde assistir ‘Arcane’ no Brasil?
‘Arcane’ é uma série original da Netflix e está disponível no catálogo da plataforma no Brasil, com opções de áudio e legendas em português.
Quantas temporadas tem ‘Arcane’?
Até fevereiro de 2026, ‘Arcane’ tem duas temporadas.
‘Arcane’ é indicada para crianças?
Em geral, não é uma série “infantil”: há violência, temas de trauma e situações emocionalmente pesadas. Antes de mostrar para menores, vale checar a classificação indicativa exibida na Netflix na sua região.

