‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’ lidera Apple TV e supera ‘Ted Lasso’

A 2ª temporada de ‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’ alcançou o topo global na Apple TV, superando ‘Ted Lasso’ mesmo com 43% de aprovação crítica. Analisamos por que o thriller doméstico com Jennifer Garner e Nikolaj Coster-Waldau ressoa mais com o público do que com os críticos.

Os números não mentem, mas às vezes contam uma história diferente da que os críticos esperavam. A Última Coisa Que Ele Me Falou estreou sua segunda temporada em 20 de fevereiro e, em questão de dias, alcançou um feito que poucos previram: tornou-se a série mais assistida da Apple TV em nível global, superando ‘Ted Lasso’, ‘Ruptura’ e o recém-retornado ‘Falando a Real’. Os críticos deram de ombros — 43% no Rotten Tomatoes. O público, aparentemente, não liga mínimo.

Esse descompasso entre recepção crítica e sucesso de audiência raramente é tão nítido. A série chegou ao topo em 24 países, apareceu no top 10 de 102 nações. Nos Estados Unidos, só perde para ‘Falando a Real’. Isso não é acaso — é um sinal de que o streaming criou um tipo de consumidor que prioriza conexão emocional sobre refinamento formal.

Thriller doméstico: por que a fórmula funcionou onde a crítica duvidava

Thriller doméstico: por que a fórmula funcionou onde a crítica duvidava

A Apple TV construiu sua reputação com apostas ambiciosas: ‘Fundação’ e sua ficção científica densa, ‘Silo’ e seu mistério claustrofóbico, ‘Ruptura’ e sua premissa high-concept que virou obsessão cultural. Mas ‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’ opera em outro registro — é um thriller doméstico, íntimo, centrado em relações humanas tanto quanto em seu mistério central.

A série vem de um bestseller de 2021 de Laura Dave, adaptado para tela pela própria autora ao lado de Josh Singer — o mesmo roteirista que ganhou o Oscar por ‘Spotlight’ e escreveu ‘Primeiro Homem’. Essa pedigree sugere algo que a crítica técnica frequentemente ignora: histórias sobre família, segredos e identidade ressoam de forma que estruturas narrativas inovadoras nem sempre alcançam. O público não está buscando revolução formal; está buscando identificação.

Quem vem de ‘Game of Thrones’ reconhece Nikolaj Coster-Waldau imediatamente — o ator que transformou Jaime Lannister de vilão em uma das figuras mais complexas da série. Aqui, seu personagem Owen Michaels desaparece nos primeiros minutos, e a trama gira em torno da esposa Hannah (Jennifer Garner) e da enteada Bailey (Angourie Rice) tentando entender quem ele realmente era. É uma premissa clássica de ‘não conhecemos as pessoas que amamos’ — e talvez aí esteja parte do sucesso: universalidade.

Jennifer Garner e a química que carrega a série

Jennifer Garner carrega a série com uma presença que mistura vulnerabilidade e determinação — qualidades que a tornaram acessível desde ‘Alias’. Sua Hannah não é uma detetive profissional, mas uma mulher comum forçada a desvendar a vida de alguém que amava. Essa escolha narrativa é crucial: coloca o espectador no mesmo nível da protagonista. Não temos vantagem sobre ela; descobrimos as verdades junto com ela.

A dinâmica entre Hannah e Bailey merece atenção. Madrasta e enteada unidas pelo desaparecimento de um homem que ambas amavam, mas talvez não conhecessem — há um potencial dramático que a segunda temporada explora com mais profundidade. Angourie Rice, vista em ‘The Nice Guys’ e ‘As Branquelas’, contracena com Garner num registro que evita os clichês de conflito familiar forçado. A química funciona porque o roteiro entende que duas pessoas podem ser aliadas e estranhas ao mesmo tempo.

Os 43% no Rotten Tomatoes refletem uma crítica que, historicamente, valoriza inovação sobre execução competente de fórmulas conhecidas. Mas o streaming democratizou o consumo: o espectador médio não está comparando ‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’ com ‘Ruptura’ em termos de ambição narrativa; está avaliando se a história o prendeu, se os personagens o importaram, se valeu seu tempo. E para a maioria, a resposta é sim.

O que superar ‘Ted Lasso’ diz sobre o apetite do público

O que superar 'Ted Lasso' diz sobre o apetite do público

O sucesso global da série — forte na América Latina, presente na Europa, relevante nos Estados Unidos — indica que certas histórias transcendem barreiras culturais. Mistério, família, segredos: esses são temas universais. Enquanto ‘Fundação’ exige conhecimento prévio ou disposição para ficção científica complexa, ‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’ oferece uma porta de entrada mais ampla. Isso não é qualidade menor — é acessibilidade estratégica.

Superar ‘Ted Lasso’ é particularmente significativo. A série de Jason Sudeikis foi o cavalo-gancho da Apple TV por temporadas, um fenômeno cultural que transcendeu a plataforma. Ser ultrapassada por um thriller familiar sugere uma mudança no apetite do público — ou talvez apenas uma confirmação de que diversidade de ofertas é o verdadeiro trunfo dos streamers. Nem todo mundo quer comédia esportiva; nem todo mundo quer thriller. A Apple TV entendeu isso.

Com episódios lançados semanalmente até o finale de oito episódios, a série mantém o modelo tradicional de serialized TV — aquele que cria antecipação, discussão entre episódios, teorias em fóruns. Em uma era de maratonas, há valor na espera. O público que retornou após quase três anos de hiato parece disposto a investir tempo nessa história.

Entre crítica e público: o tribunal que realmente importa

A terceira temporada permanece não confirmada, mas os números atuais tornam a renovação quase uma formalidade. A questão mais interessante não é se continuará, mas como a indústria interpretará esse fenômeno. Por muito tempo, a validação crítica foi o selo de qualidade que impulsionava audiências. Hoje, o streaming inverteu essa lógica: audiência primeiro, crítica depois — ou nunca.

Isso não significa que crítica não importa. Significa que ela ocupa um lugar diferente no ecossistema. Para produções que buscam prestígio, prêmios e reconhecimento da indústria, a recepção crítica permanece crucial. Para produções que buscam entretenimento sólido, identificação emocional e fidelização de assinantes, o tribunal do público é o que conta. ‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’ optou pelo segundo caminho — e está vencendo.

Se você gosta de thrillers que priorizam relações humanas sobre reviravolta por reviravolta, vale dar uma chance. Se busca inovação narrativa ou complexidade estrutural, ‘Ruptura’ é mais sua velocidade. Mas não subestime o poder de uma história bem contada sobre pessoas que você começa a se importar. Os números globais sugerem que essa é uma necessidade que o streaming estava esperando alguém atender.

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Perguntas Frequentes sobre ‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’

Onde assistir ‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’?

A série está disponível exclusivamente na Apple TV+. Ambas as temporadas podem ser assistidas na plataforma.

Quantas temporadas tem ‘A Última Coisa Que Ele Me Falou’?

Atualmente, a série tem 2 temporadas. A primeira estreou em abril de 2023, e a segunda em fevereiro de 2026. A terceira temporada ainda não foi confirmada oficialmente.

A série é baseada em livro?

Sim. A série é adaptação do bestseller de 2021 de Laura Dave, com o mesmo título. A autora co-criou a adaptação para TV ao lado de Josh Singer, vencedor do Oscar por ‘Spotlight’.

Quantos episódios tem cada temporada?

Ambas as temporadas têm 8 episódios cada, com duração média de 40 a 50 minutos por episódio.

Quem está no elenco principal?

O elenco principal inclui Jennifer Garner como Hannah Hall, Nikolaj Coster-Waldau (‘Game of Thrones’) como Owen Michaels, e Angourie Rice (‘The Nice Guys’, ‘As Branquelas’) como Bailey Michaels.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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