Tom Blyth À Paisana revela o ator longe do molde “romance Netflix”: um drama queer que transforma vigilância em linguagem cinematográfica. A análise mostra como o filme filma o desejo como risco — e por que essa é a performance mais incômoda (e reveladora) da carreira dele.
Antes de Tom Blyth virar o rosto “seguro” dos romances da Netflix em ‘De Férias com Você’, ele já tinha feito o trabalho que explica por que ele não deveria ficar preso a esse rótulo. Tom Blyth em ‘À Paisana’ é menos sobre charme e mais sobre fricção: um desempenho construído em negação, culpa e autocontrole — e, por isso mesmo, um dos retratos mais desconfortáveis do cinema queer recente. O problema é simples: no circuito barulhento do streaming, esse tipo de filme costuma passar pela fresta.
Dirigido por Carmen Emmi, ‘À Paisana’ volta à Nova York dos anos 1990 e às operações policiais em que agentes “à paisana” atraíam homens gays em espaços públicos para então prendê-los por “exposição indecente”. Lucas Brennan (Blyth) é um desses policiais: eficiente, disciplinado, e tão treinado para vigiar que parece ter desaprendido a própria vida interior. A premissa poderia virar um drama de denúncia previsível — mas o filme prefere algo mais corrosivo: mostrar como a vigilância não destrói só quem é observado; ela contamina quem observa, até o olhar virar hábito e o hábito virar identidade.
Por que ‘À Paisana’ é o teste de fogo de Tom Blyth
Se ‘Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes’ provou que Blyth sustenta uma narrativa com carisma sombrio e ‘De Férias com Você’ exibiu seu timing rom-com, ‘À Paisana’ é onde ele deixa de “funcionar” e começa a se expor. Lucas não é um protagonista desenhado para empatia imediata: ele ganha a vida prendendo pessoas como ele mesmo — e o filme não oferece atalhos para nos fazer passar pano.
A força da performance está no método: Blyth interpreta Lucas como alguém que vive um segundo atrás do próprio desejo. Nos primeiros blocos, ele parece um policial frio, organizado, que canaliza luto e frustrações pessoais para uma devoção quase religiosa ao trabalho. Só que Emmi filma o corpo dele como se fosse um alarme sempre prestes a disparar. Repare na hesitação mínima antes de entrar em um banheiro público, na tensão que sobe para os ombros quando um “suspeito” devolve um flerte, no piscar acelerado quando Lucas percebe que virou alvo do mesmo tipo de olhar que ele treinou para usar. É atuação feita de microvazamentos: uma mandíbula que trava, um copo de café apertado com força demais, um reflexo evitado como se encarar a própria imagem fosse confessar um crime.
Quando a forma vira denúncia: a estética da vigilância
Carmen Emmi toma uma decisão que dá unidade e ousadia ao filme: ele não apenas conta uma história sobre vigilância — ele filma como vigilância. Quando entram as câmeras escondidas usadas para “registrar evidências”, a imagem abraça a gramática do aparato policial: zooms nervosos, granulação, distância, cortes que parecem extraídos de material burocrático. É uma escolha que incomoda porque nos transforma em cúmplices do dispositivo: não estamos só assistindo; estamos “observando”.
Isso explode numa cena-chave (sem precisar entregá-la em detalhe): no momento em que Lucas quase alcança uma intimidade “cinematográfica”, o filme recusa o conforto do close romântico e da luz acolhedora. A câmera mantém o afastamento, como se intimidade também fosse prova — e desejo, um item de arquivo. O efeito é devastador: Emmi mostra que, para Lucas, ser visto desejando é tão perigoso quanto ser pego infringindo uma lei. Não é estilo como enfeite; é forma como ética.
Um filme queer que não confunde dor com destino
Há um vício recorrente em parte do cinema queer: tratar tragédia como certificado de “seriedade”. ‘À Paisana’ evita essa armadilha com firmeza. Sim, ele encara a brutalidade institucional da época, mas não reduz seus personagens a “casos” nem transforma sofrimento em espetáculo pedagógico.
As cenas entre Lucas e Andrew (Russell Tovey) são filmadas com uma mistura rara de risco e cuidado: não são só cenas de sexo; são cenas de linguagem — de alguém aprendendo, em tempo real, que tocar pode ser um ato político quando o Estado te treinou para punir quem toca. A intimidade aqui não serve para “embelezar” o drama; ela serve para expor o tamanho do condicionamento e o custo emocional de quebrá-lo.
O que o filme acerta ao olhar para os anos 1990
Lucas Brennan não precisa ser “baseado em uma pessoa específica” para ser historicamente verdadeiro. As táticas de entrapment e batidas em espaços frequentados por homens gays são amplamente documentadas em diferentes cidades e períodos — e ‘À Paisana’ usa os anos 1990 não por nostalgia de figurino, mas por clareza dramática: é um período próximo o suficiente para soar contemporâneo e distante o bastante para revelar o quanto certas práticas foram normalizadas.
O acerto mais incômodo do filme é escolher a perspectiva de alguém dentro do mecanismo. Em vez de confortar o espectador com a separação fácil entre “vilões” e “vítimas”, Emmi mostra como sistemas de violência dependem de colaboradores que acreditam estar “só fazendo o trabalho”. E como a mudança social, às vezes, começa quando alguém do sistema não consegue mais sustentar a própria máscara.
Além do algoritmo: por que este é o Blyth que importa
O streaming adora transformar atores em “marca” — e a marca de Blyth, para muita gente, passou a ser a do romance leve. Só que ‘À Paisana’ revela outra coisa: um ator capaz de sustentar contradição sem pedir desculpas por ela. É o tipo de papel que não tem trilha pop empurrando emoção, nem cenas desenhadas para viralizar; ele depende de silêncio, de tempo e de desconforto.
Por isso o filme é fácil de ignorar e difícil de esquecer. Ele exige do público o que o algoritmo geralmente desincentiva: atenção prolongada, tolerância ao incômodo e disposição para encarar personagens que não querem ser “agradáveis”.
Veredito: um drama sobre o olhar — e sobre parar de performar
Tom Blyth em ‘À Paisana’ entrega uma das performances mais subestimadas do seu ano não por ser “discreta”, mas por ser arriscada: ela pede que a gente observe um homem se desfazendo sem a recompensa de uma catarse fácil. É um filme sobre a violência do olhar, sobre como a vigilância vira hábito e o hábito vira identidade — e sobre o terror (e a liberdade) de interromper a performance.
Recomendação direta: se você chegou a Blyth por ‘De Férias com Você’, este é o título que explica o alcance dele. Mas também é um aviso: ‘À Paisana’ não é confortável, não é “fofo”, não é pra ver distraído. E justamente por isso merece ser visto.
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Perguntas Frequentes sobre ‘À Paisana’
‘À Paisana’ é o mesmo filme que ‘Plainclothes’?
Sim. ‘Plainclothes’ é o título original em inglês; ‘À Paisana’ é o título usado em português.
‘À Paisana’ é baseado em uma história real?
Não há indicação de que Lucas Brennan seja uma pessoa real específica. O filme se apoia em práticas historicamente documentadas de entrapment e batidas policiais contra homens gays, comuns em diferentes cidades e períodos nos EUA.
‘À Paisana’ tem final triste?
É um drama pesado e desconfortável, mas não depende da “tragédia obrigatória” como única forma de validação. O filme busca um equilíbrio entre violência histórica e afirmação, sem transformar os personagens em mera vitrine de sofrimento.
Preciso ter visto ‘De Férias com Você’ para entender ‘À Paisana’?
Não. Os filmes não têm relação narrativa. A comparação só ajuda a contextualizar a mudança de registro do Tom Blyth (rom-com versus drama psicológico).
Para quem ‘À Paisana’ é recomendado?
Para quem gosta de drama indie, cinema queer com recorte histórico e filmes que usam forma (fotografia/montagem) para comentar o tema. Não é ideal para quem busca romance leve ou narrativa acelerada.

