A ousadia desperdiçada de ‘Hamlet’ com Riz Ahmed: fusão de Ophelia e Horatio

A versão de ‘Hamlet’ com Riz Ahmed tem uma ideia brilhante — fundir Ophelia e Horatio — mas abandona a proposta antes de explorá-la. Analisamos por que essa hesitação revela um problema maior em adaptações modernas de clássicos.

Existem adaptações que fazem mudanças por pragmatismo — cortar personagens, condensar cenas, atualizar cenários. E existem aquelas que fazem mudanças que prometem uma releitura radical, mas recuam no momento decisivo. A versão de ‘Hamlet’ estrelada por Riz Ahmed, dirigida por Aneil Karia, pertence a este segundo grupo. A fusão de Ophelia e Horatio é a ideia mais brilhante do filme — e o roteiro a trata como uma nota de rodapé.

Transplantada para a Londres contemporânea e filtrada por uma lente cultural hindu, a adaptação mantém a estrutura geral da peça de Shakespeare. Temos os rituais fúnebres reimaginados, a encenação ‘peça dentro da peça’ atualizada, o confronto final com o tio. Até aí, competente. Mas a decisão de fundir dois personagens fundamentais — a amada Ophelia e o confidente Horatio — em uma única figura interpretada por Morfydd Clark é o tipo de escolha que poderia redefinir completamente a obra.

A promessa de uma Ophelia que não é apenas vítima

A promessa de uma Ophelia que não é apenas vítima

Nos primeiros momentos em que Clark aparece em cena, algo diferente acontece. Esta Ophelia não é a figura passiva e etérea que a tradição nos acostumou a esperar. Ela troca farpas com Hamlet. Há uma intimidade de velhos conhecidos, de alguém que conhece o príncipe o suficiente para desafiá-lo. A química não é de um romance em flor, mas de uma amizade que sobreviveu a um término — algo mais complexo e interessante.

Ao transferir para ela elementos de Horatio, o filme cria uma Ophelia que é, simultaneamente, o interesse romântico e a única pessoa em quem Hamlet poderia confiar. Isso muda tudo. No texto original, Horatio é a testemunha, a âncora moral, o único sobrevivente do massacre final. Ele é, em muitos sentidos, o substituto do público no palco. Dar essa função a Ophelia significaria elevar uma personagem historicamente marginalizada ao centro narrativo.

O momento em que o roteiro abandona sua melhor ideia

O problema surge quando o roteiro precisa seguir o mapa da peça original. A fusão dos personagens, que poderia ser o coração de uma releitura ousada, é abandonada assim que o enredo ‘precisa’ acontecer. Ophelia volta à sua trajetória tradicional: é rejeitada, enlouquece, morre fora de tela. A decisão de fazer dela uma versão de Horatio — alguém que poderia testemunhar o fantasma do pai de Hamlet, que poderia acreditar nele quando todos duvidam, que poderia ser dividida entre lealdade ao príncipe e à própria família — simplesmente evapora.

Pense no que foi perdido. Uma Ophelia-Horatio poderia ver o fantasma do pai de Hamlet, como Horatio faz no texto original. Isso lhe daria razão para acreditar na ‘loucura’ do príncipe como performance, complicando dramaticamente sua posição. Ela estaria dividida entre o irmão Laertes e Hamlet não apenas por laços familiares e românticos, mas por uma amizade intelectual. Sua morte não seria apenas mais uma vítima colateral da vingança — seria o colapso da última conexão genuína de Hamlet com a humanidade.

Mais radical ainda: o filme poderia ter deixado Ophelia viver. Como a única sobrevivente, como Horatio é na peça, ela carregaria o peso de ser a testemunha final, a última conexão com Hamlet, assombrada mas perdurando. Isso subverteria uma das mortes mais icônicas da literatura ocidental.

Por que a fusão importa mais do que a fidelidade

Por que a fusão importa mais do que a fidelidade

Entendo o argumento do pragmatismo. Cortar Horatio enxuta o elenco. Transferir suas falas para Ophelia dá a uma atriz do calibre de Clark mais o que fazer. Mas adaptar Shakespeare não é apenas preservar — é recontextualizar. Cada geração que volta a ‘Hamlet’ precisa encontrar algo novo, e a fusão destes dois personagens era exatamente isso: uma maneira de dizer algo sobre intimidade, confiança e isolamento que a peça original não conseguia.

No texto de Shakespeare, Ophelia é definida pelos homens ao seu redor — filha, irmã, amante. Dar a ela a função de Horatio seria dar a ela uma identidade própria, como a pessoa que Hamlet escolhe ter ao seu lado. O príncipe que corta essa conexão não está apenas sendo cruel com uma ex-namorada; está destruindo sua última amizade verdadeira. O peso emocional seria avassalador.

Uma tendência preocupante em adaptações modernas

O que acontece com esta versão de ‘Hamlet’ reflete um problema maior em adaptações contemporâneas de clássicos. Há uma hesitação em comprometer-se com mudanças estruturais reais. É como se os criadores tivessem medo de afastar o público que conhece a obra original, mantendo o esqueleto da história mesmo quando suas próprias inovações pedem algo diferente.

O filme faz outras escolhas interessantes — Fortinbras reimaginado como líder de deslocados na cidade é um toque que fala ao momento atual. Mas essas são camadas superficiais. A fusão Ophelia-Horatio ia ao osso da narrativa, questionando quem tem o direito de sobreviver, de testemunhar, de importar.

Clark faz o que pode com o material. Há cenas em que você vê a Ophelia que poderia ter sido — afiada, leal, complexa. Mas o roteiro a empurra de volta para o caminho conhecido, e a atriz acaba presa entre a personagem que está interpretando e a que foi prometida.

No fim, a adaptação de Karia é uma experiência frustrante precisamente porque mostra o que poderia ter sido. A fusão de Ophelia e Horatio não é apenas uma ‘mudança engenhosa’ — é o tipo de revisão que justifica fazer outra versão de ‘Hamlet’. Sem explorá-la completamente, o filme se torna mais uma adaptação competente que não justifica sua própria existência. E isso, para quem ama cinema e Shakespeare, é uma tragédia à parte.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Hamlet’ com Riz Ahmed

Onde assistir ‘Hamlet’ com Riz Ahmed?

O filme foi exibido em festivais e tem distribuição limitada. Verifique plataformas de streaming regionais ou serviços de aluguel digital como Amazon Prime Video e Apple TV para disponibilidade atualizada.

Quem interpreta Ophelia nesta versão de ‘Hamlet’?

Morfydd Clark, conhecida por ‘Saint Maud’ e ‘The Lord of the Rings: The Rings of Power’, interpreta uma versão fundida de Ophelia e Horatio.

Esta versão de ‘Hamlet’ é fiel à peça original?

Transplanta a história para a Londres contemporânea com elementos culturais hindus, mantendo a estrutura geral mas fazendo alterações no elenco — a mais notável sendo a fusão dos personagens Ophelia e Horatio.

Quanto tempo dura ‘Hamlet’ com Riz Ahmed?

A adaptação tem aproximadamente 2 horas de duração, condensando significativamente o texto original de Shakespeare, que na íntegra pode ultrapassar 4 horas.

Preciso conhecer a peça original para entender este filme?

Não é essencial, mas ajuda. O filme assume familiaridade com os beats principais da trama. Quem não conhece ‘Hamlet’ pode perder nuances das escolhas adaptativas, mas consegue acompanhar a narrativa.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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