Analisamos como ‘A Grande Inundação’ usa a estrutura clássica dos filmes de desastre para esconder uma reviravolta de ficção científica cerebral. Descubra por que a nova aposta coreana da Netflix é a evolução necessária do gênero após ‘Greenland’.
Existe uma fadiga compreensível com o cinema de desastre: a promessa é sempre o apocalipse, mas a entrega costuma ser uma mera corrida de obstáculos. Já sabemos que o protagonista sobreviverá, que haverá um sacrifício heróico no terceiro ato e que a humanidade encontrará uma saída milagrosa. ‘A Grande Inundação’ (The Great Flood), nova aposta coreana da Netflix, começa exatamente assim — e é justamente por isso que sua subversão funciona tão bem. O diretor Kim Byung-woo construiu uma armadilha narrativa disfarçada de blockbuster genérico.
A armadilha do primeiro ato: por que o clichê é necessário
Nos primeiros quarenta minutos, o filme segue o manual de Roland Emmerich ao pé da letra. Um asteroide atinge a Antártida, o nível do mar sobe e Seul está prestes a ser engolida. Gu An-na (Kim Da-mi), uma pesquisadora, tenta salvar seu filho Ja-in (Kwon Eun-seong) em meio ao caos. Se você parar a exibição aqui, terá apenas uma versão coreana de ‘Destruição Final: O Último Refúgio’.
Mas Kim Byung-woo, que já havia mostrado domínio de espaços confinados em ‘The Terror Live’, usa essa familiaridade para baixar a guarda do espectador. As cenas de destruição são tecnicamente impecáveis, mas há uma escolha de sound design específica: o som da água não é o rugido cinematográfico usual, mas um ruído branco constante e sufocante que preenche o espectador de uma ansiedade física, preparando o terreno para a mudança de tom que virá a seguir.
O ‘anti-Sang-woo’: a contenção necessária de Park Hae-soo
Para quem ainda associa Park Hae-soo ao calculista Cho Sang-woo de ‘Squid Game’, sua performance aqui é um exercício de desconstrução. Son Hee-jo, seu personagem, surge como uma força de auxílio pragmática, mas sem o brilho do herói de ação tradicional. Hae-soo traz uma fisicalidade pesada, quase exausta, que contrasta com a agilidade de Kim Da-mi.
A química entre os dois não se baseia em diálogos expositivos, mas em trocas de olhares durante momentos de crise. É uma atuação que exige silêncio, algo raro em filmes onde o grito costuma ser a regra. Quando a trama gira para a ficção científica, essa contenção de Hae-soo se revela essencial para manter o filme ancorado na realidade, por mais absurda que a premissa se torne.
A virada que transforma o desastre em metáfora
Sem entregar o spoiler que muda tudo na metade da projeção, basta dizer que ‘A Grande Inundação’ abandona a sobrevivência física para explorar uma sobrevivência existencial. Aqueles desenhos obsessivos do pequeno Ja-in e a doença não especificada do garoto deixam de ser conveniências de roteiro para se tornarem as peças centrais de um quebra-cabeça de ficção científica cerebral.
Diferente de ‘2012’, onde os humanos são apenas formigas diante de ondas gigantes, aqui a catástrofe se torna pessoal. A inundação deixa de ser um evento externo e passa a ser uma manifestação física do trauma e da memória da protagonista. O filme consegue a proeza de transformar escala global em intimidade claustrofóbica.
Veredito: o gênero de desastre ganhou um novo fôlego?
O filme não é isento de falhas. O primeiro terço, embora deliberadamente convencional, pode testar a paciência de quem busca originalidade imediata. Além disso, a exposição científica no clímax beira o didatismo, tentando garantir que ninguém se perca na complexidade da nova premissa. No entanto, esses são preços pequenos a pagar por um filme que respeita a inteligência do público.
‘A Grande Inundação’ é para quem aceita um contrato diferente: suporte os clichês iniciais e receba em troca uma das propostas mais ambiciosas da Netflix nos últimos anos. Kim Byung-woo não apenas entregou um bom filme de desastre; ele provou que o gênero ainda tem espaço para o intelecto, e não apenas para o CGI.
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Perguntas Frequentes sobre ‘A Grande Inundação’
Qual é a história de ‘A Grande Inundação’ na Netflix?
O filme acompanha uma pesquisadora e seu filho tentando sobreviver a uma inundação catastrófica em Seul após um asteroide atingir a Terra. No entanto, a trama esconde um segredo de ficção científica que altera toda a percepção do desastre.
‘A Grande Inundação’ é uma sequência de algum filme?
Não, é um filme original coreano dirigido por Kim Byung-woo. Embora compartilhe temas com outros filmes de desastre, sua história é independente e autoral.
Quem está no elenco principal de ‘The Great Flood’?
O filme é estrelado por Kim Da-mi (‘The Witch’, ‘Our Beloved Summer’) e Park Hae-soo (‘Squid Game’, ‘La Casa de Papel: Coreia’).
O filme tem cenas pós-créditos?
Não há cenas pós-créditos em ‘A Grande Inundação’. A conclusão da história acontece antes do início dos créditos finais.
Vale a pena assistir se eu não gosto de filmes de ficção científica?
Sim, pois o elemento de ficção científica é introduzido de forma orgânica ao drama humano. Se você gosta de thrillers de sobrevivência como ‘Greenland’, encontrará muito valor na tensão do filme.

