Analisamos a tese central de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ após o primeiro episódio: a mentira de Dunk sobre sua ordenação e como o simbolismo da estrela cadente estabelece um tom de ‘baixa fantasia’ focado em caráter, e não apenas em linhagens reais.
Existe um tipo de mentira que a ficção adora explorar: aquela que o protagonista conta para o mundo, mas que o espectador percebe antes de qualquer outro personagem. Em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ final explicado do primeiro episódio, mergulhamos exatamente nesse abismo moral. A série não começa com uma coroação ou um dragão, mas com a dúvida sobre quem Dunk realmente é — e o que essa farsa significa para o equilíbrio de Westeros.
O episódio de estreia do novo spin-off de ‘Game of Thrones’ termina com uma imagem propositalmente despida de glamour: dois desajustados deitados sob uma árvore, olhando para o céu. Uma estrela cadente cruza a escuridão. Egg vê sorte; Dunk tenta acreditar. Mas para quem conhece a obra de George R.R. Martin, essa cena carrega um peso técnico e simbólico que redefine o que esperamos de uma fantasia medieval.
A mentira de Dunk: ele é realmente um cavaleiro?
O roteiro de Ira Parker é cirúrgico ao sugerir, sem nunca confirmar, que Dunk nunca foi ordenado. A história de que Ser Arlan o sagrou no leito de morte soa como um mecanismo de defesa de um homem que não tem nada além de sua altura e uma espada velha. A ausência de um flashback desse momento crucial é o ‘não-dito’ mais barulhento da série.
Diferente de ‘House of the Dragon’, onde o poder é um direito de primogenitura, aqui o poder é uma performance. Se você tivesse sido ordenado pelo homem que era seu pai substituto, essa seria a memória que o sustentaria no medo. Em vez disso, vemos Dunk (interpretado com uma vulnerabilidade física impressionante por Peter Claffey) hesitando. Ele não age como alguém que recebeu uma honra, mas como alguém que está prestes a aplicar um golpe por necessidade. Ele não quer enganar o sistema; ele quer sobreviver a ele.
A dissonância entre título e caráter
A série estabelece um contraste visual e ético imediato. Vemos Ser Manfred Dondarrion, um cavaleiro de linhagem, tratar Dunk com um desdém que beira a desumanidade. Manfred tem o título, mas não tem a cavalaria. Já Dunk, o suposto impostor, acolhe um garoto desconhecido e promete protegê-lo.
Essa é a tese central de Martin: a diferença entre o que as pessoas são chamadas e o que elas realmente são. Ao mostrar Dunk tendo uma ‘diarreia explosiva’ logo no início, a direção de Owen Harris (Black Mirror) humaniza o mito. É o ‘Westeros do chão’, onde a lama é real e os heróis cheiram a suor e medo, não a incenso e ouro.
O simbolismo da estrela cadente e o destino de Egg
A cena final é uma aula de enquadramento. Enquanto os lordes dormem em pavilhões luxuosos, com tetos de seda que bloqueiam a visão do cosmos, Dunk e Egg estão na lama. É por estarem por baixo que eles são os únicos a ver a estrela cadente. ‘A sorte é só nossa’, diz Dunk.
Para o espectador atento, a estrela cadente não é apenas sorte; é um prenúncio do brasão que Dunk escolherá no futuro (um olmo sob uma estrela cadente). Representa a ascensão de quem vem do nada. A relação com Egg (Dexter Sol Ansell) se solidifica aqui não por um contrato, mas por uma identificação de órfãos. Dunk vê em Egg o que ele mesmo foi nas ruas de Flea Bottom: uma vida que só terá valor se alguém decidir que ela importa.
Um tom de ‘Baixa Fantasia’ necessário
O que torna este início tão refrescante é a escala reduzida. Não precisamos de árvores genealógicas complexas para entender o conflito. O dilema de Dunk é prático: ele precisa de alguém que ateste sua mentira para poder lutar no torneio de Ashford. Ele está tentando validar uma farsa através de homens que ele mal conhece, como o Tempestade Risonha (Ser Lyonel Baratheon).
A fotografia abandona os filtros dourados das outras séries por uma paleta mais naturalista e fria. É uma produção que confia mais no diálogo e na tensão silenciosa do que em efeitos visuais. O primeiro episódio não nos promete uma guerra pelo trono, mas uma jornada de autodescoberta onde a maior ameaça não é um exército, mas a possibilidade de ser descoberto como um ‘cavaleiro de lugar nenhum’.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’
Dunk é realmente um cavaleiro em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’?
Tanto na série quanto no livro, há fortes indícios de que Dunk nunca foi formalmente ordenado por Ser Arlan. Ele assume o título para poder participar do torneio de Ashford e escapar da pobreza, tornando-se um ‘cavaleiro andante’ por necessidade.
Quem é o garoto Egg no primeiro episódio?
Egg é o apelido de Aegon Targaryen, o filho mais novo do Príncipe Maekar. Ele raspa a cabeça para esconder seus traços valirianos (cabelos loiro-platinados) e viaja disfarçado como escudeiro para conhecer o reino fora dos castelos.
O que significa a estrela cadente no final do episódio?
Além de representar a ‘sorte’ dos protagonistas, a estrela cadente é uma referência direta ao futuro brasão de Dunk: um olmo verde sob uma estrela cadente vermelha em campo de pôr do sol.
Onde a série se encaixa na cronologia de Game of Thrones?
A série se passa cerca de 90 anos antes dos eventos de ‘Game of Thrones’ e cerca de 70 anos após ‘House of the Dragon’, durante o auge da dinastia Targaryen, mas após a morte dos dragões.
Preciso ler os livros para entender a série?
Não. A série foi escrita para ser acessível, focando mais na relação entre Dunk e Egg e menos na política complexa das outras produções da franquia.

