Artes conceituais da série Lanterna Verde cancelada pela HBO Max revelam um projeto ousado: Guy Gardner em 1984, Alan Scott em 1941 e uma personagem original. Reconstruímos as escolhas criativas e o contraste com ‘Lanternas’ do DCU.
Em outubro de 2022, uma das séries mais ambiciosas da HBO Max morreu antes de filmar um único episódio. A série Lanterna Verde encomendada com dez episódios, roteirizada por Marc Guggenheim e com Finn Wittrock e Jeremy Irvine escalados, foi cancelada na virada para o DCU de James Gunn. Agora, Guggenheim decidiu mostrar o que o público perdeu: três artes conceituais que reconstroem a visão criativa do projeto — e revelam escolhas ousadas demais para a televisão de super-herói atual.
Não são apenas desenhos bonitos. As imagens funcionam como documento histórico de uma linha do tempo alternativa: uma abertura com a Tropa dos Lanternas Verdes em combate, o uniforme de Guy Gardner repensado para os anos 80 e uma personagem original chamada Bree Jarta. Juntas, elas contam a história de uma série que queria tratar o Lanterna Verde como uma franquia de época — algo que nenhuma adaptação tentou antes.
Três artes, três decisões criativas: o que Guggenheim revelou
A primeira arte é a sequência de abertura do piloto: a Tropa dos Lanternas Verdes enfrentando alienígenas no espaço. A intenção era clara — estabelecer a escala cósmica antes de descer para o drama humano. A segunda é o traje de Guy Gardner, desenhado por Gina DeDomenico a partir de um conceito de Laura Jean Shannon. Guggenheim faz questão de notar que o visual seria ajustado para refletir a versão da Liga da Justiça Internacional dos quadrinhos: mais colorido, mais ousado, menos ‘uniforme militar’.
A terceira é a mais curiosa: Bree Jarta, uma personagem original criada para a série. Guggenheim foi enfático ao corrigir comparações: ‘Não, isso não é a Jo Mullein.’ Bree era uma criação de Shannon, sem atriz escalada, e representava a tentativa de expandir o universo para além dos nomes conhecidos. Nenhuma dessas imagens sobreviveu ao cancelamento — mas todas indicam um projeto em estágio avançado, com identidade visual definida e ambição narrativa clara.
Guy Gardner em 1984: o hiper-patriotismo como tese narrativa
O Guy Gardner de Finn Wittrock seria, nas palavras de Guggenheim, ‘uma massa colossal de masculinidade e, como nos quadrinhos, uma personificação do hiper-patriotismo dos anos 1980’. A série ambientava sua história em 1984, no auge da era Reagan, quando o americanismo era quase uma religião visual.
A escolha é mais inteligente do que parece. Guy Gardner foi criado em 1968 por John Broome e Gil Kane, mas foi Keith Giffen e J.M. DeMatteis que o transformaram no personagem arrogante e patriota na Liga da Justiça Internacional dos anos 80. Ao colocar o personagem exatamente nesse período, a série não precisaria explicar seu comportamento — o contexto histórico faria o trabalho. Um Lanterna que materializa águias americanas com o anel, que veste o uniforme como quem veste uma bandeira, que fala com a certeza de quem cresceu achando que a América era o centro moral do universo.
Wittrock, com sua capacidade de habitar personagens magnéticos e levemente deslocados — vista em ‘American Horror Story’ e na Broadway — era a escolha perfeita para esse Guy: alguém que parece saído de um pôster de recrutamento, mas com uma fresta de dúvida por baixo.
Alan Scott em 1941: o agente secreto gay e a dupla vida
Jeremy Irvine havia sido escalado como Alan Scott, o Lanterna Verde da Era de Ouro. A versão da série não era um super-herói genérico: era um homem secretamente gay operando como agente do FBI em 1941.
Essa é uma escolha raríssima em adaptações de super-herói: usar o status quo do personagem como ferramenta de drama. Alan Scott, criado por Martin Nodell em 1940, tinha um anel mágico com fraqueza a madeira. A série não precisaria dessa fraqueza para criar tensão — a própria existência do personagem naquele contexto já era uma armadilha narrativa. Um agente do FBI gay nos anos 40 vive uma dupla vida: não pode revelar a orientação sexual por causa da sociedade, e não pode revelar a identidade de Lanterna por causa do segredo heroico. São duas camadas de ocultamento que se reforçam.
E os vilões da série, os Manhunters, completavam o subtexto. Os Manhunters são androides criados pelos Guardiões do Universo antes da Tropa — uma força policial que falhou por ser implacável demais. Colocar um homem que a lei oficial perseguia lutando contra uma força policial descontrolada é um comentário poderoso sobre justiça e opressão.
O cancelamento e a transição para o DCU: o contexto que explica tudo
A série teve uma gestação atribulada. Encomendada com dez episódios, foi reduzida para oito antes de o showrunner Seth Grahame-Smith deixar o projeto em outubro de 2022. A HBO Max e a Warner Bros. TV tentaram reestruturar a produção com foco em John Stewart. Mas no mesmo mês, James Gunn e Peter Safran foram anunciados como co-CEOs da DC Studios — e o destino do projeto estava selado.
Não foi um cancelamento por falta de qualidade. Foi uma mudança de paradigma. Gunn e Safran chegaram com a missão de unificar cinema, TV e animação em um único universo coeso. Uma série já em desenvolvimento, com showrunner novo e foco alterado, não se encaixava no plano. A decisão foi fria, mas racional: começar do zero dentro da nova estrutura.
O que pouca gente percebe é que a série cancelada era um precursor temático de ‘Lanternas’. A ideia de múltiplos Lanternas terrestres em períodos diferentes — que estava no DNA do projeto de Guggenheim — foi reaproveitada, refinada e transformada no que o DCU lançou. A diferença é que Gunn optou por uma abordagem mais contida: Hal Jordan e John Stewart como dupla central, com Guy Gardner como coadjuvante de choque.
‘Lanternas’ do DCU: o que mudou e o que se perdeu
‘Lanternas’, com Kyle Chandler e Aaron Pierre, funciona pela dinâmica entre dois homens muito diferentes forçados a trabalhar juntos. É uma estrutura clássica de buddy cop espacial, com a tensão entre a experiência cansada de Hal e o idealismo estruturado de John. A série de Guggenheim era outra coisa: uma tapeçaria histórica que saltava entre décadas, com um elenco coral.
As duas abordagens têm méritos. A de Gunn é mais televisiva no melhor sentido: permite que o público se apegue a um núcleo pequeno e explore as relações com profundidade. A de Guggenheim era mais ambiciosa em escala, mas corria o risco de se perder na própria complexidade. Imagine uma primeira temporada que precisa estabelecer Guy Gardner nos anos 80, Alan Scott nos anos 40, Bree Jarta, os Manhunters, Sinestro como ameaça futura e ainda apresentar Jessica Cruz, Simon Baz e Kilowog. Isso é muito. Talvez até demais.
O que se perdeu, no entanto, é a ousadia de tratar o Lanterna Verde como uma franquia de época. ‘Watchmen’ da HBO mostrou que super-heróis em contextos históricos podem render uma das melhores temporadas da TV moderna. A série de Guggenheim parecia caminhar nessa direção — com a vantagem de ter uma mitologia inteira para explorar.
O legado de um projeto que nunca existiu
Quando Guggenheim compartilha essas imagens, ele não está apenas alimentando nostalgia. Ele está documentando um momento de transição na história da DC. A série Lanterna Verde cancelada representa o fim de uma era em que os projetos de TV da DC eram desenvolvidos de forma relativamente independente, cada um com sua visão autoral. O Arrowverse de Guggenheim — que começou com ‘Arqueiro’ e se tornou um império de séries interconectadas — era a prova de que esse modelo funcionava.
O DCU de Gunn é o oposto: um universo planejado como uma franquia cinematográfica, com cada peça servindo a um plano maior. Não é melhor nem pior — é diferente. Mas há algo de melancólico em ver o que foi desenhado e nunca construído. A arte de Bree Jarta, o uniforme de Guy Gardner, a abertura com a Tropa em combate: são fósseis de uma linha do tempo alternativa.
O Guy Gardner de Nathan Fillion no DCU é divertido, barulhento e perfeitamente escalado. Mas o Guy Gardner de Finn Wittrock, com seu uniforme da Liga da Justiça Internacional e seu hiper-patriotismo oitentista, era uma ideia que merecia existir. Assim como o Alan Scott de Jeremy Irvine, um herói gay em 1941 vivendo uma dupla vida. Essas não são apenas variações do mesmo personagem — são interpretações que enxergam o Lanterna Verde como um espelho de diferentes eras da América.
Resta a pergunta que nenhuma arte conceitual pode responder: se a série tivesse ido adiante, teria funcionado? A resposta honesta é que talvez não. O escopo era enorme, o tom era arriscado e o público de 2022 não estava necessariamente pedindo uma saga histórica de Lanternas. Mas o simples fato de alguém ter tentado — de uma equipe criativa ter desenhado cada detalhe desse mundo — já é um testemunho do que o personagem pode ser quando os criadores pensam grande.
E se você ficou curioso, consolo-se com o que temos: ‘Lanternas’ está aí, disponível na HBO Max, com uma segunda temporada a caminho e John Stewart ganhando os cinemas em ‘O Homem do Amanhã’. O futuro do personagem está garantido. Mas fica a sensação de que uma parte desse futuro — a parte que olhava para trás, para 1941 e 1984 — foi deixada para trás. E, para quem ama esse universo, isso é motivo suficiente para querer ver cada imagem que Guggenheim decidiu compartilhar.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre a série Lanterna Verde cancelada
A série do Lanterna Verde da HBO Max foi cancelada?
Sim. A série foi cancelada em outubro de 2022, antes de filmar qualquer episódio, durante a transição da DC para o comando de James Gunn e Peter Safran.
Quem estava escalado para a série cancelada do Lanterna Verde?
Finn Wittrock viveria Guy Gardner e Jeremy Irvine interpretaria Alan Scott. Nenhuma atriz chegou a ser escalada para Bree Jarta, personagem original criada para a série.
A série ‘Lanternas’ do DCU é a mesma que foi cancelada?
Não. ‘Lanternas’ é um projeto novo, desenvolvido por James Gunn e Peter Safran para o DCU, com Kyle Chandler como Hal Jordan e Aaron Pierre como John Stewart. A série cancelada era uma produção independente da HBO Max.
O que Marc Guggenheim revelou sobre a série cancelada do Lanterna Verde?
Guggenheim compartilhou três artes conceituais: a abertura do piloto com a Tropa dos Lanternas em combate, o traje de Guy Gardner e a personagem original Bree Jarta.
Onde assistir a série cancelada do Lanterna Verde?
Em lugar nenhum. A série nunca foi filmada e não está disponível em nenhuma plataforma. As únicas imagens públicas são as artes conceituais compartilhadas por Marc Guggenheim.

