Guia da trilha sonora de ‘Supergirl’: o punk rock de Kara Zor-El

A trilha sonora Supergirl usa punk indie e cantoras femininas para traduzir a fase rebelde e caótica de Kara Zor-El. Analisamos como cada escolha musical reflete o luto, a ressaca moral e a anarquia da personagem no DCU de James Gunn.

Existe uma diferença fundamental entre a abordagem de James Gunn para o Superman e a versão de Kara Zor-El que conhecemos em ‘Supergirl’ (2026). Enquanto Clark Kent é o escoteiro do espaço, a prima kryptoniana chega ao DCU como uma adolescente que perdeu a casa, pegou a nave e foi fazer um intercâmbio destrutivo no inferno. E o elemento que melhor traduz essa diferença não está nos efeitos especiais ou nos punhos que ela desfere, mas na trilha sonora Supergirl. Gunn entendeu algo que muitos diretores de blockbuster esquecem: a música de um filme não é apenas tapete emocional, é a voz interna da personagem.

A escolha por empilhar bandas de indie punk lideradas por mulheres e cantoras autorais não é acidente estético. É a tradução sonora de uma deusa com ressaca moral, processando um luto planetário através de brigas de bar e viagens caóticas pela galáxia. A música aqui funciona como arma, defesa e terapia ao mesmo tempo.

A trilha sonora Supergirl como espelho de uma heroína de ressaca

A trilha sonora Supergirl como espelho de uma heroína de ressaca

O filme já abre longe da Metrópole limpinha. Quando Krypto acidentalmente toca ‘This Summer’ do Sleigh Bells na nave caótica de Kara, não é apenas uma piada visual. É a declaração de princípios do longa. O ruído, a distorção e a batida agressiva anunciam que estamos no território de alguém que não está nem um pouco preocupada em ser um símbolo de esperança.

A sequência no bar alienígena é o ápice dessa construção. Kara bebe shots em chamas ao som de ‘Le Temps De L’Amour’ de Françoise Hardy — uma melancolia yé-yé francesa que logo é interrompida por ‘Catch These Fists’ do Wet Leg quando ela coloca o disco na jukebox. Hardy representa a saudade da Krypton que ela perdeu; Wet Leg é a atitude bruta da Kara que ela se tornou. E quando acordamos de ressaca no dia seguinte, com ‘Silver Lining’ do Rilo Kiley tocando ao fundo, o filme nos diz que a música funciona como a trilha interna de uma garota que ainda não sabe onde encaixar seu poder.

Violência espacial e batidas indie: a anarquia sonora de Kara

Se em um filme tradicional de super-herói esperaríamos fanfarras épicas para a jornada interestelar, a Prima Kal-El viaja num ônibus espacial ao som de banjo. A inclusão de ‘Satin In A Coffin’ do Modest Mouse quando Kara embarca no transporte coletivo é uma das escolhas mais estranhas e brilhantes do longa. Tem aquele ritmo saltitante e quase country que contrasta absurdamente com a gravidade do assassinato que Ruthye quer vingar. O desconforto que a música causa no espectador é exatamente o desconforto de Kara em ter que lidar com os problemas de outra pessoa enquanto o próprio universo parece um lugar sem sentido.

Quando os piratas espaciais atacam, o diretor puxa ‘Smile’ do Wolf Alice. O score orquestral belíssimo de Claudia Sarne cede espaço para o rock sujo e psicodélico. A transição para ‘(I’ve Got) Trouble In Mind’ do The Limiñanas quando Kara recupera os poderes e se impõe diante da nave inimiga é um exemplo perfeito de como a compilação aqui não é enfeite, é gramática cinematográfica. A estética garage rock francesa da banda casa perfeitamente com a figura de uma heroína que resolve problemas no automático, meio anestesiada.

O jazz, o afrobeat e a caosmologia do universo de James Gunn

O jazz, o afrobeat e a caosmologia do universo de James Gunn

Gunn tem um talento raro para misturar o bizarro com o familiar, criando uma estética de ‘fossa intergaláctica’. Em Bilquis, somos apresentados a uma cantora de lounge alienígena cantando ‘Girl From Ipanema’ de Antônio Carlos Jobim. A piada visual funciona por si só, mas a textura importa. O jazz cria uma falsa sensação de segurança que é violentamente quebrada quando a briga começa e entra ‘Cheek To Cheek’ de Ella Fitzgerald. A elegância do jazz clássico acompanhando socos e destruição é um tropo que já vimos em ‘Shining’ e em vários trabalhos dos irmãos Coen, mas aqui ganha um peso novo ao destacar o absurdo da situação: uma kryptoniana imortal quebrando um bar espacial enquanto uma diva canta sobre paraíso.

Mais adiante, a presença do afrobeat de Fela Kuti em ‘Roforofo Fight’ a bordo da nave dos Brigands mostra que a paleta sonora do filme se recusa a ser engessada em um único gênero. Não é só punk; é um caos organizado que respira diferentes atmosferas, dependendo de quem Kara está enfrentando ou ignorando no momento.

Lobo, covers e o caos controlado de ‘Supergirl’

Se Kara é indie punk, Lobo é puro rock and roll de bar sujo. A entrada de Jason Momoa como o alienígena brutal é trilhada por ‘Don’t Speak (I Came To Make A Bang!)’ do Eagles Of Death Metal. A música grita tanto quanto o personagem. É curioso notar como a briga entre os dois é pontuada por ‘Safeword’ da Halsey, trazendo uma energia industrial e tensa que difere do rock mais cru dos piratas. A música dita as regras do combate.

E o clímax do filme usa um recurso que costuma ser um tiro no pé: um cover. A versão de ‘The Middle’ do Jimmy Eat World, tocada por Kelty Greye e KidMotel, embala a batalha final contra os Brigands. Normalmente, covers em momentos de catarse beiram o constrangimento piegas, mas a versão aqui é tão distorcida e acelerada que se encaixa na estética de ‘tudo está desmoronando, mas vamos rir no meio dos escombros’ que define a personagem. A música original de Jimmy Eat World fala sobre não desistir; a versão de ‘Supergirl’ soa como se não desistir fosse a única opção irritante que te resta.

No fim das contas, a trilha de ‘Supergirl’ não é apenas um produto derivado para vender streams no Spotify. A playlist oficial, que inclui faixas selecionadas pelo elenco para definir os personagens, prova que houve um cuidado obsessivo em construir um perfil psicológico através do som. Kara Zor-El não precisa de um tema heroico tradicional agora. Ela precisa de uma mixtape de garagem, cheia de chiado e atitude, para processar a morte de um planeta inteiro.

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Perguntas Frequentes sobre a trilha sonora Supergirl

Quais são as principais músicas da trilha sonora de ‘Supergirl’?

O filme mistura Sleigh Bells, Wet Leg, Rilo Kiley, Modest Mouse, Wolf Alice, The Limiñanas, Fela Kuti, Eagles Of Death Metal e um cover de Jimmy Eat World. A seleção prioriza indie punk e cantoras autorais.

A trilha sonora de ‘Supergirl’ é só punk rock?

Não. Além do punk e indie, o filme inclui jazz (Ella Fitzgerald), afrobeat (Fela Kuti), yé-yé francês (Françoise Hardy) e rock de bar. O caos de gêneros reflete a personalidade instável de Kara.

Onde ouvir a playlist oficial de ‘Supergirl’?

A playlist oficial está disponível no Spotify e outras plataformas de streaming. O elenco contribuiu com faixas que representam seus personagens, ampliando a experiência além do filme.

‘Supergirl’ tem trilha sonora original ou é compilação?

É uma compilação de músicas preexistentes com score original de Claudia Sarne. O filme alterna entre faixas licenciadas e música incidental para criar contraste emocional.

Por que a trilha sonora usa tantos covers e músicas antigas?

Os covers e faixas antigas reforçam o sentimento de deslocamento de Kara. A versão distorcida de ‘The Middle’ no clímax, por exemplo, transforma uma mensagem de esperança em algo mais desesperado e irritado, alinhado com o tom do filme.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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