‘Trying’: por que a melhor comédia da Apple TV+ passa despercebida

‘Trying Apple TV+’ é a alternativa subestimada para quem sente falta de ‘Falando a Real’. O artigo mostra como a série usa adoção e família encontrada para rir sem suavizar a dor.

A pior coisa no streaming hoje talvez nem seja a quantidade de séries canceladas sem final. É o abismo entre temporadas. Quem acompanha ‘Falando a Real’ conhece essa abstinência: a série de Jason Segel mantém um ritmo mais generoso que ‘Ruptura’, mas ainda deixa aquele intervalo incômodo entre uma leva de episódios e outra. É nesse espaço que ‘Trying’, da Apple TV+, deveria entrar na conversa com mais força. A comédia britânica tem o mesmo talento para dividir riso e aperto no peito, mas segue escondida no catálogo como se fosse uma nota de rodapé.

O elo mais forte entre ‘Falando a Real’ e ‘Trying’ não é apenas o tom agridoce. É a ideia de família encontrada. Nas duas séries, ninguém se salva sozinho: personagens quebrados, frustrados ou enlutados aprendem a sobreviver porque outras pessoas escolhem permanecer por perto. A diferença é que ‘Falando a Real’ parte do luto, enquanto ‘Trying’ começa na infertilidade e no processo de adoção. Dois caminhos distintos para a mesma pergunta: o que faz uma família existir?

Por que ‘Trying’ é a melhor ponte enquanto ‘Falando a Real’ não volta

Por que 'Trying' é a melhor ponte enquanto 'Falando a Real' não volta

Em ‘Falando a Real’, Jimmy tenta reconstruir a própria vida e a relação com a filha depois da morte da esposa. A casa dele vira uma espécie de campo de batalha emocional, cercada por colegas terapeutas, vizinhos e amigos que se metem onde não foram chamados — e, justamente por isso, ajudam. Em ‘Trying’, Nikki e Jason, vividos por Esther Smith e Rafe Spall, enfrentam outro tipo de luto: o da família biológica que eles imaginavam ter e que talvez nunca exista.

A série começa no ponto em que muitas comédias românticas terminariam: um casal estável, apaixonado e engraçado, mas atravessado por uma notícia que muda o projeto de vida dos dois. A adoção não aparece como solução mágica. Ela surge como processo, entrevista, avaliação, ansiedade, espera, frustração e esperança administrada em doses pequenas demais. Uma das melhores escolhas da série é transformar a burocracia em dramaturgia: cada reunião com assistentes sociais, cada visita e cada pergunta aparentemente protocolar cutuca uma insegurança real de Nikki e Jason.

É aí que a comparação com ‘Falando a Real’ fica mais interessante. As duas séries entendem que comédia não precisa interromper a dor; ela pode nascer da tentativa desajeitada de continuar funcionando apesar dela. Quando Jason faz uma piada ruim num momento em que deveria parecer adulto e confiável, a graça não vem só do constrangimento. Vem do medo de que ele e Nikki nunca sejam considerados bons o bastante para cuidar de uma criança. O riso tem consequência.

Adoção sem discurso pronto: o mérito silencioso da série

‘Trying’ poderia cair facilmente no sentimentalismo. A premissa praticamente convida a isso. Mas a série evita transformar adoção em atalho lacrimoso porque presta atenção no desgaste cotidiano do processo. O roteiro de Andy Wolton trabalha melhor quando observa pequenos colapsos: Nikki tentando parecer controlada demais diante de quem vai avaliá-la, Jason usando humor como mecanismo de defesa, os dois recalculando expectativas depois de cada avanço e recuo.

Também há cuidado em não reduzir as crianças do sistema a símbolos da redenção adulta. A série sabe que Nikki e Jason querem ser pais, mas não trata esse desejo como direito automático. Esse detalhe muda tudo. A câmera quase sempre permanece próxima dos personagens, com uma fotografia luminosa e doméstica de Londres que contrasta com o peso das decisões. O mundo visual de ‘Trying’ é cheio de apartamentos apertados, pubs, ruas comuns e salas de reunião nada cinematográficas. Essa falta de glamour é parte da força da série: ela parece acontecer a duas quadras da sua casa.

A montagem também ajuda. Os episódios têm cerca de meia hora, mas raramente soam apressados. As cenas respiram o suficiente para que uma piada desconfortável vire silêncio, e para que esse silêncio vire informação sobre o casal. É uma comédia de ritmo britânico no melhor sentido: menos dependente de punchline, mais interessada no constrangimento acumulado.

Esther Smith e Rafe Spall vendem um casamento em três olhares

Esther Smith e Rafe Spall vendem um casamento em três olhares

Falar de ‘Trying’ é falar da química entre Esther Smith e Rafe Spall. Nikki e Jason não parecem um casal escrito para ser adorável; parecem duas pessoas que já discutiram sobre dinheiro, louça, família, sexo, futuro e ainda assim escolhem dividir o sofá no fim do dia. O detalhe de Smith e Spall serem um casal na vida real ajuda, mas não explica tudo. O que sustenta a série é a precisão com que os dois modulam intimidade.

Spall interpreta Jason como um homem que usa a piada antes que alguém perceba sua insegurança. Smith faz o movimento oposto: Nikki tenta organizar o caos pela força da vontade, até que o rosto entrega o cansaço. Há uma cena recorrente na dinâmica dos dois que resume a série: eles entram em alguma situação adulta tentando parecer preparados, percebem que estão improvisando, brigam baixinho, se protegem em público e desabam em privado. Poucas comédias atuais filmam parceria com essa clareza.

O elenco de apoio amplia essa sensação de comunidade. Imelda Staunton, como Penny, dá ao processo de adoção um misto de firmeza institucional e calor humano. Siân Brooke e Darren Boyd, como Karen e Scott, funcionam como o espelho deformado de uma vida aparentemente mais sofisticada, mas tão quebradiça quanto a de Nikki e Jason. E Phil Davis, como Vic, pai de Jason, é um prazer particular: ele transforma uma reclamação banal no pub em monólogo sobre o declínio moral do país, e a graça está em ele soar meio absurdo e meio correto ao mesmo tempo.

Por que a Apple TV+ deixou sua comédia mais humana no canto da vitrine

Parte do motivo pelo qual ‘Trying’ passa despercebida é fácil de entender. Ela não tem a premissa de alto conceito de ‘Ruptura’, o verniz de prestígio imediato de ‘The Morning Show’ ou o carisma viral de ‘Ted Lasso’. Também não tem um astro americano no centro para puxar manchetes. É uma comédia sobre adoção, casamento, amizade e medo de fracassar. Em termos de marketing, não parece barulhenta. Em termos de experiência, é uma das séries mais consistentes da Apple TV+.

O paradoxo é que essa discrição combina com a própria série. ‘Trying’ não tenta vencer o espectador pela grandiosidade. Ela vence pela repetição de gestos pequenos: alguém aparece quando prometeu aparecer, alguém pede desculpa sem transformar isso em cena heroica, alguém segura a mão de outra pessoa antes de uma notícia difícil. Se ‘Falando a Real’ usa a terapia para falar de como a dor bagunça nossas relações, ‘Trying’ usa a adoção para mostrar como o amor precisa ser praticado antes de ser declarado.

A quinta temporada tem estreia marcada para 8 de julho de 2026, o que torna este um bom momento para alcançar a série. As quatro primeiras temporadas são curtas, com oito episódios cada, e funcionam bem em maratona sem aquela sensação de estar cumprindo tarefa. Melhor ainda: cada temporada fecha um arco emocional próprio. A série avança, mas não depende de cliffhangers artificiais para manter você refém.

Para quem ‘Trying’ funciona — e para quem talvez não funcione

Se você gosta de ‘Falando a Real’ pelo equilíbrio entre piada seca e vulnerabilidade, ‘Trying’ é a recomendação mais natural dentro da Apple TV+. Ela entrega outra variação da mesma busca por família encontrada, menos terapêutica no texto e mais cotidiana na forma. É uma série para quem aceita ritmo de observação, personagens falhos e humor que às vezes vem do desconforto, não da tirada perfeita.

Agora, se você espera viradas constantes, piadas a cada trinta segundos ou uma comédia que trate adoção apenas como pano de fundo fofo, talvez a experiência pareça lenta. ‘Trying’ não é passiva, mas é paciente. Ela acredita que ver duas pessoas tentando ser boas para quem amam já é drama suficiente.

É por isso que chamá-la de subestimada não parece exagero. No catálogo da Apple TV+, poucas séries entendem tão bem que família não é apenas origem, sangue ou assinatura em documento. Família, em ‘Trying’, é uma prática diária — e quase sempre imperfeita. Talvez seja justamente essa modéstia que a tenha deixado fora do centro da conversa. Mas também é o que a torna tão difícil de abandonar depois que você entra no ritmo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Trying’, da Apple TV+

Onde assistir ‘Trying’?

‘Trying’ está disponível exclusivamente no Apple TV+. A série é uma produção original da plataforma, então não faz parte do catálogo de outros streamings por assinatura.

Quantas temporadas de ‘Trying’ existem?

Até o momento, ‘Trying’ tem quatro temporadas disponíveis no Apple TV+, com oito episódios por temporada. A quinta temporada tem estreia marcada para 8 de julho de 2026.

Preciso assistir ‘Falando a Real’ antes de ver ‘Trying’?

Não. ‘Trying’ e ‘Falando a Real’ são séries independentes. A comparação faz sentido pelo tom agridoce e pelo tema da família encontrada, mas uma não tem ligação narrativa com a outra.

‘Trying’ é baseada em uma história real?

Não há indicação de que ‘Trying’ adapte uma história real específica. A série é uma criação de Andy Wolton, mas usa elementos reconhecíveis do processo de adoção para construir situações emocionalmente verossímeis.

‘Trying’ é uma boa série para maratonar?

Sim. Os episódios têm cerca de 30 minutos e as temporadas são curtas, o que torna a maratona leve. Ainda assim, a série funciona melhor para quem gosta de comédias de personagem, não de tramas aceleradas.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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