As batalhas aéreas de ‘The Mandalorian & Grogu’ fazem mais do que funcionar no filme: elas ensaiam a linguagem que Star Wars Starfighter vai precisar dominar. Analisamos como o longa preenche a lacuna deixada por ‘Rogue Squadron’ com ação espacial mais física, clara e cinematográfica.
Sete anos depois de ‘The Rise of Skywalker’, Star Wars finalmente voltou aos cinemas com ‘The Mandalorian & Grogu’. Mas a maior surpresa do filme de Jon Favreau não está na dinâmica entre Din Djarin e Grogu, nem nos gangsters Hutt ou nas arenas de gladiadores. Está no cheiro de combustível, no rugido dos motores e na forma como a câmera se comporta durante as cenas de voo. É aí que o longa encontra sua ideia mais interessante: funcionar, intencionalmente ou não, como um protótipo visual para Star Wars Starfighter.
Star Wars nasceu nas nuvens e no espaço profundo. A trincheira da Estrela da Morte em ‘Guerra nas Estrelas: O Filme’ continua sendo a matriz de quase toda batalha espacial blockbuster que veio depois. Só que a franquia, nas últimas décadas, se refugiou demais no misticismo Jedi e de menos na cultura dos pilotos. ‘The Mandalorian & Grogu’ corrige parte dessa ausência ao devolver peso, rotina e risco às naves. Mais importante: faz isso com uma clareza espacial que o cinema recente da saga nem sempre conseguiu manter.
Como o Esquadrão Adelphi devolve peso físico ao voo em ‘Star Wars’
A abertura do filme já aponta para esse caminho. Inspirada na iconografia de ‘Top Gun – Ases Indomáveis’, a sequência mostra X-Wings e Y-Wings do Esquadrão Adelphi retornando à base ao amanhecer. O acerto não está apenas na referência, mas na tradução dela para o universo de Star Wars. A câmera não observa as naves como miniaturas distantes num fundo digital; ela se aproxima dos cockpits, acompanha procedimentos de pouso, registra equipes de solo preparando cada máquina para a próxima patrulha na Outer Rim. Há uma textura operacional ali. O voo deixa de ser abstração heroica e volta a parecer trabalho.
Esse detalhe importa porque muda a percepção de escala. Quando Ludwig Göransson entra com a trilha, a música não está apenas inflando a imagem; está sublinhando um ambiente militar com rotina, disciplina e desgaste. O desenho de som ajuda muito nesse efeito. Em vez de depender só do impacto dos disparos, a cena valoriza motores, desaceleração, vibração de metal e a sensação de massa das naves. É uma escolha técnica simples, mas decisiva: faz a ação parecer menos etérea e mais mecânica.
No terceiro ato, essa gramática se transforma em espetáculo. Quando Din Djarin, Grogu e Rotta the Hutt ficam encurralados em Nal Hutta, a entrada da cavalaria sob o comando da Coronel Ward confirma que Favreau entendeu algo básico e frequentemente negligenciado em blockbusters atuais: batalha aérea precisa de geografia. Os vetores dos ataques são legíveis, os enquadramentos deixam claro de onde vem o perigo e para onde cada piloto precisa fugir. Em vez de lasers cruzando a tela em caos indistinto, há progressão dramática plano a plano. É coreografia aérea, não poluição visual.
Essa legibilidade aproxima a sequência mais de ‘O Retorno de Jedi’ do que das batalhas digitais superlotadas de parte da trilogia sequel. E não é um elogio pequeno. O que fazia Endor funcionar não era apenas escala, mas orientação: o espectador sempre sabia quem estava vencendo, quem estava encurralado e qual era o objetivo imediato da manobra. ‘The Mandalorian & Grogu’ recupera esse princípio.
Por que o cancelamento de ‘Rogue Squadron’ deixou um buraco que a saga ainda não preencheu
É difícil ver essas cenas e não lembrar de ‘Rogue Squadron’. Quando Patty Jenkins anunciou o projeto em 2020, a promessa parecia clara: um filme sobre a cultura dos pilotos, a pressão do esquadrão, a adrenalina e a técnica por trás do combate aéreo em Star Wars. Não era só uma questão de trama. Era uma promessa estética. Meio década depois, o projeto afundou num limbo tão prolongado que o cancelamento nunca oficializado passou a soar como fato consumado.
O problema é que a ausência de ‘Rogue Squadron’ deixou mais do que um filme perdido no calendário. Deixou uma lacuna de linguagem. A saga continuou produzindo boas sequências espaciais aqui e ali, mas raramente com um olhar centrado no piloto como corpo dentro da máquina. ‘Ahsoka’ teve combates eficientes. ‘Andor’ foi brilhante ao tratar de burocracia imperial, logística rebelde e opressão sistêmica, mas esse nunca foi o projeto da série. Faltava o prazer cinematográfico do dogfight construído para a sala escura.
‘The Mandalorian & Grogu’ acaba ocupando esse espaço de maneira quase involuntária. Como o filme não precisa se vender como um drama de esquadrão, ele pode testar essa linguagem sem ficar prisioneiro dela. O resultado é curioso: o longa do Mando oferece, em fragmentos, aquilo que ‘Rogue Squadron’ prometia como conceito central. Nesse sentido, ele não substitui o projeto abortado, mas revela com nitidez o que a franquia perdeu ao deixá-lo morrer.
Como ‘The Mandalorian & Grogu’ antecipa a estética de ‘Star Wars Starfighter’
É por isso que a discussão sobre Star Wars Starfighter começa aqui. As cenas do Esquadrão Adelphi funcionam como prova de conceito para o próximo grande filme da franquia. Elas mostram que a tecnologia StageCraft e os volumes de LED, tantas vezes criticados por achatamento visual nas séries do Disney+, não são o problema em si. O problema sempre foi direção. Quando a mise-en-scène impõe profundidade, quando a montagem respeita duração de movimento e quando o som reforça o atrito físico das máquinas, o artifício digital deixa de parecer um fundo de videogame e volta a servir ao cinema.
Isso é especialmente relevante porque ‘Star Wars: Starfighter’, previsto para 2027, chega com uma missão delicada: avançar a cronologia da saga sem depender de Jedi, Skywalkers ou nostalgia imediata como muleta principal. Se o título não for apenas branding, o longa de Shawn Levy precisará encontrar uma identidade audiovisual baseada em velocidade, risco e presença material. E é justamente isso que Favreau ensaia aqui.
A comparação também ajuda a calibrar expectativas. Levy costuma trabalhar ação com apelo popular e ritmo fluido, mas nem sempre com rigor espacial. Em ‘Free Guy’ e ‘The Adam Project’, por exemplo, a energia vem mais do carisma e do timing do que da precisão coreográfica. Se ‘Star Wars Starfighter’ quiser ser mais do que um produto de alto conceito com Ryan Gosling no cockpit, vai precisar absorver a lição do filme de Favreau: voo bom não é o que parece rápido a qualquer custo; é o que faz o espectador entender a manobra e sentir o risco dela.
Há um ponto central aqui. A melhor ação aérea de Star Wars sempre operou em duas frentes ao mesmo tempo: espetáculo e vulnerabilidade. A corrida da Estrela da Morte funciona porque cada curva parece fatal. Endor funciona porque há congestionamento, desespero e colisão iminente. O que ‘The Mandalorian & Grogu’ recupera é exatamente essa sensação de mortalidade mecânica. As naves não são só ícones bonitos cruzando o quadro; são objetos que podem falhar, explodir, despencar.
Esse é o verdadeiro elo com ‘Star Wars Starfighter’. Mais do que antecipar o marketing do próximo filme, ‘The Mandalorian & Grogu’ testa uma forma de filmar batalhas espaciais que devolve concretude à saga. Se ‘Starfighter’ souber expandir esse caminho, poderá finalmente preencher a lacuna deixada por ‘Rogue Squadron’. Se não souber, o risco é repetir o problema recente da franquia: muita iconografia, pouco impacto físico.
Para quem essa leitura faz sentido, e para quem talvez não faça
Se você procura em ‘The Mandalorian & Grogu’ apenas conexões de lore, participações especiais ou pistas para o futuro de Grogu, esse aspecto talvez passe despercebido. Mas para quem sente falta do lado aeronáutico de Star Wars — pilotos, esquadrões, hangares, protocolos, ruído de motor e combate com geografia — o filme oferece um dos sinais mais promissores da franquia nos últimos anos.
Também vale dizer o inverso: quem esperava uma reinvenção radical talvez ache exagerado tratar essas sequências como divisor de águas. Elas não reinventam a gramática da saga do zero. O mérito está em algo mais específico e, por isso mesmo, mais valioso: lembrar a Lucasfilm de que batalha espacial não é preenchimento entre cenas de personagem. É linguagem central de Star Wars.
No fim, a promessa de Star Wars Starfighter fica menos abstrata depois de ‘The Mandalorian & Grogu’. O longa de Favreau não entrega ainda o filme de pilotos que muitos queriam desde ‘Rogue Squadron’, mas mostra um caminho viável para ele existir. E, hoje, isso já não é pouco. Num momento em que a franquia ainda parece testar qual será sua identidade no cinema pós-Skywalker, essas batalhas aéreas dizem algo raro: o futuro talvez esteja menos na Força e mais na cabine.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Star Wars Starfighter’ e ‘The Mandalorian & Grogu’
Quando estreia ‘Star Wars: Starfighter’?
‘Star Wars: Starfighter’ está previsto para estrear em maio de 2027. Até o momento, a Lucasfilm posiciona o filme como o próximo grande passo da franquia no cinema após ‘The Mandalorian & Grogu’.
‘Star Wars: Starfighter’ se passa depois de ‘The Rise of Skywalker’?
Sim. O projeto foi anunciado como uma história situada cinco anos após ‘The Rise of Skywalker’, o que o coloca no ponto mais avançado da cronologia principal de Star Wars no cinema.
‘Star Wars: Starfighter’ vai substituir ‘Rogue Squadron’?
Não exatamente. ‘Rogue Squadron’ era um projeto diferente, ligado diretamente à tradição de esquadrões de pilotos da saga. ‘Star Wars: Starfighter’ pode ocupar parte desse espaço no imaginário do público, mas não é uma continuação nem um reaproveitamento oficial do filme de Patty Jenkins.
Preciso ver ‘The Mandalorian’ para entender ‘The Mandalorian & Grogu’?
Ajuda bastante, porque a relação entre Din Djarin e Grogu já foi construída na série. Ainda assim, o filme tende a funcionar de forma acessível para quem conhece o básico da dupla, especialmente nas sequências de ação e no conflito principal.
Para quem ‘Star Wars: Starfighter’ pode ser mais interessante?
O filme deve interessar mais a quem sente falta de batalhas espaciais com foco em pilotos, esquadrões e combate aéreo dentro de Star Wars. Se a proposta seguir o que ‘The Mandalorian & Grogu’ ensaia, ele pode atrair tanto fãs antigos da trilogia original quanto quem gosta de ação militar com geografia clara.

