‘Monstro’: Por que Lizzie Borden é o maior desafio de Ryan Murphy

Monstro Lizzie Borden pode ser a temporada mais arriscada de Ryan Murphy porque, ao contrário de Dahmer e Gein, sua protagonista foi absolvida. Analisamos como essa ambiguidade histórica obriga a série a trocar culpa evidente por dúvida, julgamento e disputa de narrativa.

Ryan Murphy tem um problema — e, pela primeira vez em ‘Monstro’, é um problema bom. Depois de temporadas construídas sobre culpa conhecida, confissões e imaginário criminal já sedimentado, ‘Monstro: Lizzie Borden’ chega com uma fissura no método da série: Lizzie foi julgada e absolvida. Isso muda não só o assunto, mas a própria lógica dramática. Em vez de partir da pergunta ‘como esse monstro agiu?’, Murphy agora precisa enfrentar outra, bem mais difícil: o que fazer quando a História nunca fechou o caso?

É essa quebra de paradigma que torna Monstro Lizzie Borden um teste real para a antologia. Dahmer, Menendez e Gein permitiam encenação com eixo definido, ainda que moralmente controverso. Borden obriga a série a operar no terreno da suspeita, da percepção pública e das distorções do sistema judiciário. Se Murphy acertar, pode entregar a temporada mais complexa da franquia. Se errar, corre o risco de parecer apenas indeciso.

Por que Lizzie Borden desmonta a fórmula que sustentava ‘Monstro’

Nas temporadas anteriores, a série sempre tinha um chão firme. Em ‘Dahmer’, a culpa não era questão aberta; o centro estava na violência, no aparato institucional que falhou e na forma como Murphy transformava horror factual em espetáculo de prestígio. Em ‘Monstros: Irmãos Menendez’, mesmo com camadas de trauma e disputa de versões, havia um crime assumido e uma estrutura dramática mais reconhecível. A série podia discutir contexto, mas não precisava negociar a dúvida básica.

Com Lizzie Borden, isso desaparece. O caso de 1892 segue cercado por indícios, contradições e leituras históricas incompatíveis entre si. O ponto não é apenas que faltam provas conclusivas; é que a absolvição faz parte inseparável do legado do caso. Murphy não pode tratá-la como simples detalhe burocrático para então voltar ao modelo habitual. Se fizer isso, trai justamente o que torna Borden interessante.

É aqui que o projeto ganha força. Pela primeira vez, ‘Monstro’ não pode depender apenas da iconografia do assassino, do close calculado ou da reconstrução de cenas de crime como peça de vitrines sombrias. Precisa encenar versões, silêncios, lacunas. Precisa lidar com o fato de que a Justiça disse uma coisa e a memória popular, por mais de um século, insistiu em outra.

A absolvição não complica a série — ela é a série

Em 4 de agosto de 1892, Andrew Borden e Abby Borden foram encontrados mortos a golpes em Fall River, Massachusetts. Lizzie foi acusada, julgada e absolvida no ano seguinte. Desde então, o caso virou lenda americana: cantiga popular, adaptação de palco, livro, telefilme, estudo criminal. O curioso é que quase toda releitura parte da mesma tensão: a figura histórica foi inocentada, mas nunca deixou de ser tratada como culpada em imaginação pública.

Esse é o coração dramático da temporada. Não se trata apenas de perguntar se ela matou ou não; trata-se de observar como uma mulher absolvida continuou socialmente condenada. Há uma diferença crucial aí. A série pode explorar menos o crime em si e mais o mecanismo que transforma suspeita em identidade permanente.

Também existe um componente de classe e gênero impossível de ignorar. Lizzie era mulher, branca, de família respeitável e inserida num contexto social em que a ideia de uma ‘moça decente’ cometer tal brutalidade colidia com expectativas culturais do fim do século 19. O júri formado só por homens pesou nisso? Quase certamente, ao menos como contexto histórico. Se ‘Monstro’ quiser ir além do sensacionalismo, é por esse caminho que a temporada precisa avançar: menos resposta definitiva, mais exame de como o sistema escolhe em quem acreditar.

O risco para Ryan Murphy é abandonar a dúvida cedo demais

O risco para Ryan Murphy é abandonar a dúvida cedo demais

Murphy adora excesso controlado: produção lustrosa, atuação em alta voltagem, enquadramentos que sublinham trauma e espetáculo ao mesmo tempo. Quando o material parte de culpa amplamente estabelecida, essa abordagem pode soar calculada, mas encontra apoio na própria clareza factual. Com Lizzie Borden, o mesmo método pode virar armadilha.

Se a série decidir desde cedo filmá-la como assassina inequívoca, transforma ambiguidade histórica em decoração. Se decidir protegê-la demais, corre para o melodrama de absolvição retroativa. O equilíbrio exige algo mais difícil: sustentar duas leituras sem parecer covarde. Isso depende menos de reviravolta e mais de construção formal.

Uma cena de julgamento, por exemplo, não deveria funcionar apenas como clímax de tribunal. Ela precisa mostrar como performance social, linguagem corporal e expectativa de gênero moldam a leitura de culpa. Num caso como esse, um olhar, uma pausa antes de responder, um testemunho hesitante ou um enquadramento que recuse ponto de vista absoluto podem dizer mais do que qualquer explicação em voz alta. É nesse tipo de detalhe que ‘Monstro’ terá de provar maturidade.

Também há uma questão de montagem. Nas temporadas mais conhecidas da antologia, Murphy frequentemente organiza a narrativa para conduzir o espectador emocionalmente a uma conclusão. Aqui, a montagem ideal talvez faça o contrário: preserve fricção entre versões, exponha contradições e resista à tentação de transformar incerteza em mistério barato.

Charlie Hunnam e Ella Purnell foram escalados para um jogo de percepção

Charlie Hunnam, escalado como Andrew Borden, chega com bagagem de presença física e carisma que raramente são neutros. Isso importa. Andrew não precisa surgir como patriarca monstruoso em sentido óbvio para que a série sugira um ambiente doméstico opressivo; basta que Hunnam componha um homem duro, econômico, controlador, talvez incapaz de afeto visível. Num drama de ambiguidade, a vítima também precisa ser legível como força narrativa, não apenas como corpo encontrado.

Ella Purnell, por sua vez, parece escolha mais reveladora do que chamativa. Ela tem uma qualidade útil para esse papel: consegue misturar contenção e cálculo sem entregar imediatamente se está ferida, observando ou manipulando. Lizzie Borden, em tela, só funciona se permanecer ligeiramente fora de alcance. Não basta parecer misteriosa; precisa parecer interpretável demais por todos ao redor, cada um projetando nela culpa, fragilidade ou frieza.

Se a série for inteligente, o confronto entre os dois não será sobre vilania explícita, mas sobre percepção. Quem domina o espaço da casa? Quem parece encurralado? Quem performa respeitabilidade melhor? Em histórias de crime ambíguo, essas perguntas importam mais do que a simples reprodução de violência.

Há uma oportunidade rara de transformar true crime em crítica ao próprio true crime

Há uma oportunidade rara de transformar true crime em crítica ao próprio true crime

O melhor caminho para Monstro Lizzie Borden talvez seja usar o caso para questionar a fome contemporânea por certeza. O true crime moderno acostumou parte do público a uma promessa implícita: no fim, tudo será organizado em narrativa compreensível. Motivo, culpado, trauma, contexto, encerramento. Lizzie Borden resiste a esse conforto.

Por isso, esta pode ser a primeira temporada de ‘Monstro’ em que o tema real não seja apenas o crime, mas a necessidade social de preencher lacunas. Quando faltam provas, a cultura inventa coerência; quando a Justiça absolve, a memória popular às vezes condena; quando a televisão dramatiza, ela escolhe qual ambiguidade merece sobreviver. Murphy tem material para fazer uma série sobre tribunal, gênero, classe e fabricação de culpabilidade pública. Isso é mais ambicioso do que repetir a engrenagem visual de temporadas passadas.

Do ponto de vista técnico, esse tipo de história pede cuidado especial com fotografia e trilha. Se a imagem glamourizar demais a violência, reduz o caso a peça gótica. Se a trilha empurrar suspense toda vez que Lizzie entrar em cena, a série entregará julgamento antes do roteiro. Em compensação, uma mise-en-scène mais contida, com interiores opressivos, silêncio desconfortável e ênfase em espaço doméstico, pode reforçar a sensação correta: não a certeza do horror, mas o incômodo da dúvida.

Para quem essa temporada pode funcionar — e para quem talvez não

Se você espera de ‘Monstro’ a anatomia direta de um assassino já definido, a temporada sobre Lizzie Borden pode frustrar. Tudo indica que ela será menos sobre evidência conclusiva e mais sobre interpretação. Isso tende a agradar quem se interessa por história criminal, representação midiática e pelos pontos em que a Justiça formal não coincide com o imaginário popular.

Também pode ser a temporada mais rica para quem já anda cansado do true crime embalado como catálogo de atrocidades. Borden oferece outra coisa: um caso em que a ausência de fechamento é justamente o motor dramático. Em vez de consumo de horror, existe a chance de uma investigação sobre como narrativas de culpa são fabricadas.

Meu ponto é simples: esta não parece apenas mais uma escolha de personagem para a antologia. Parece o primeiro caso capaz de expor os limites do próprio Ryan Murphy. Monstro Lizzie Borden tem potencial para ser a temporada em que a série amadurece, porque não pode se esconder atrás da certeza. Ou Murphy aprende a trabalhar com ambiguidade histórica, sistema judiciário e construção pública de suspeitos, ou revela que sua fórmula sempre precisou de culpados evidentes para funcionar. De um jeito ou de outro, é o desafio mais interessante que ‘Monstro’ já teve.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Monstro: Lizzie Borden’

‘Monstro: Lizzie Borden’ é baseado em uma história real?

Sim. A temporada parte do caso real de Lizzie Borden, julgada em 1893 pelas mortes do pai e da madrasta em Massachusetts. Ela foi absolvida, e justamente essa incerteza histórica é o que torna o caso tão famoso até hoje.

Lizzie Borden foi condenada na vida real?

Não. Lizzie Borden foi absolvida pelo júri. Mesmo assim, o caso continuou sendo debatido por historiadores, escritores e adaptações de cinema e TV, porque nunca surgiu uma resposta definitiva aceita por todos.

Preciso assistir às temporadas anteriores de ‘Monstro’ para entender a de Lizzie Borden?

Não. ‘Monstro’ funciona como antologia, então cada temporada conta uma história própria. Ver as anteriores ajuda a entender o estilo de Ryan Murphy, mas não é necessário para acompanhar o caso de Lizzie Borden.

Quem está no elenco de ‘Monstro: Lizzie Borden’?

Entre os nomes já associados ao projeto estão Ella Purnell como Lizzie Borden e Charlie Hunnam como Andrew Borden. Como produções desse tipo podem mudar durante o desenvolvimento, vale acompanhar confirmações oficiais do estúdio e da plataforma.

Onde assistir ‘Monstro: Lizzie Borden’ quando estrear?

A expectativa é que a temporada siga o padrão da franquia e seja lançada na Netflix, onde as temporadas anteriores de ‘Monstro’ foram disponibilizadas. Até o anúncio oficial de estreia, a plataforma ainda pode divulgar data e detalhes adicionais.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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