De ‘Cassino’ a ‘The Roman’: a trilogia secreta de Scorsese

‘The Roman Scorsese’ pode ser mais do que uma nova série da Netflix. Neste artigo, mostramos como ela fecha um ciclo temático iniciado em ‘Cassino’ e aprofundado por ‘O Contador de Cartas’, unindo Vegas, vício e ilusão de controle.

A filmografia de Martin Scorsese costuma ser organizada em prateleiras óbvias: máfia, culpa católica, masculinidade em combustão. Faz sentido, mas não explica tudo. Há um outro mapa possível, menos vistoso e mais preciso, que passa pelo cassino, pela aposta e pela fantasia de controlar variáveis que nunca obedecem. É por esse caminho que The Roman Scorsese, nova série da Netflix, ganha interesse real: não como projeto isolado, mas como a peça que fecha um ciclo iniciado com ‘Cassino’ em 1995 e reprocessado, em chave mais íntima, em ‘O Contador de Cartas’.

Chamar isso de trilogia secreta não é apenas um truque de formulação. Nos três casos, o foco está menos no glamour de Vegas do que na arquitetura mental do jogo. O dinheiro importa, claro, mas como sintoma. O assunto de fundo é outro: homens que confundem disciplina com domínio e sistema com salvação.

Em ‘Cassino’, Scorsese filma Vegas como máquina antes de filmá-la como mito

Em 'Cassino', Scorsese filma Vegas como máquina antes de filmá-la como mito

‘Cassino’ nunca foi só um épico criminal de superfície luxuosa. O que Scorsese faz ali é dissecar o funcionamento de uma engrenagem. Logo no início, antes que a tragédia íntima se imponha, o filme insiste na logística: contagem de fichas, circulação de dinheiro, vigilância, hierarquia, o trabalho invisível que sustenta a ilusão do brilho. Sam Rothstein, vivido por Robert De Niro, é menos um mafioso clássico do que um gerente obcecado pela perfeição operacional.

Essa ênfase faz diferença. Quando Scorsese acompanha Rothstein pelo cassino, a mise-en-scène não celebra apenas excesso; ela mostra método. A montagem acelerada, os travellings fluidos e a narração em off transformam o cassino num organismo que respira cálculo. A famosa ideia de que ‘a casa sempre vence’ deixa de ser slogan e vira princípio dramático. O personagem acredita que, conhecendo cada peça do mecanismo, conseguirá neutralizar o imprevisto. É aí que o filme o desmente.

A queda de Rothstein não vem de uma falha matemática, mas de um erro humano insolúvel: ele sabe administrar risco financeiro melhor do que afeto, ego e lealdade. Essa é a chave que torna ‘Cassino’ o ponto de partida ideal para essa leitura. O jogo, em Scorsese, não é apenas ambiente. É um modelo de mundo.

‘O Contador de Cartas’ vira a mesa e mostra o custo psicológico do cálculo

A segunda peça desse percurso é menos óbvia, mas faz sentido justamente por isso. ‘O Contador de Cartas’ não é dirigido por Scorsese, e sim por Paul Schrader, mas a produção do cineasta importa aqui porque o filme conversa frontalmente com temas caros à sua obra: culpa, repetição, autopenitência e homens que tentam transformar rotina em redenção.

William Tell, o personagem de Oscar Isaac, é quase o negativo fotográfico de Sam Rothstein. Se Rothstein administra a casa, Tell circula por ela como alguém que quer passar despercebido. Ele joga para reduzir variância, para controlar danos, para manter o caos à distância por mais algumas horas. Não há sedução em seu método; há austeridade. O gesto repetido de cobrir móveis de quartos de motel com lençóis brancos já diz muito sobre esse universo: é um homem tentando esterilizar o mundo porque sabe que por dentro ele está contaminado.

Também esteticamente o filme se afasta de ‘Cassino’. Em vez do neon expansivo e da vertigem coreografada, Schrader trabalha com espaços impessoais, luzes frias e uma monotonia quase clínica. O som ambiente dos cassinos, a padronização dos interiores e o ritmo deliberadamente contido ajudam a esvaziar qualquer fantasia de glamour. O que sobra é a mecânica seca da sobrevivência. Se ‘Cassino’ filma o sistema por dentro, ‘O Contador de Cartas’ filma o sujeito esmagado por ele, mesmo quando parece lucrar.

Por que ‘The Roman’ parece o fechamento natural dessa trilogia secreta

É nesse ponto que The Roman Scorsese deixa de parecer apenas mais uma série sobre poder em Vegas. Pela premissa anunciada, Oscar Isaac interpreta Robert ‘Bobby Red’ Redman, presidente do hotel-cassino mais popular da cidade, pressionado a defender posição e ampliar território. A escolha do personagem importa mais do que a sinopse promocional: depois de viver, em ‘O Contador de Cartas’, um homem que tenta sobreviver ao sistema sem jamais pertencer a ele, Isaac agora encarna alguém instalado no centro da engrenagem.

A simetria é forte demais para ser ignorada. ‘Cassino’ nos deu o arquiteto operacional. ‘O Contador de Cartas’, o homem que transforma cálculo em penitência. ‘The Roman’, ao que tudo indica, oferece o gestor soberano num momento em que soberania já soa frágil. O tema não muda: muda a posição de observação. E é justamente isso que dá à série um peso maior dentro dessa constelação.

Se Scorsese sempre se interessou por instituições que vendem ordem enquanto escondem violência, Vegas é um cenário perfeito. Cassinos prometem chance, mas vivem de previsibilidade. Vendem fantasia individual, mas dependem de controle total do ambiente. Nesse sentido, Bobby Red pode funcionar como a síntese desse universo: alguém que parece mandar no jogo, embora também esteja preso à lógica que sustenta o império.

Mais do que máfia, o assunto aqui é a ilusão de controle

O elo mais forte entre os três títulos não está no crime organizado, embora ele apareça em graus diferentes. Está na relação entre disciplina e delírio. Rothstein acredita que competência basta para manter a ordem. William Tell acredita que método basta para conter o passado. Bobby Red, se a série cumprir o que promete, deve encarnar a etapa final desse raciocínio: o homem que confunde comando institucional com invulnerabilidade.

É uma obsessão antiga no cinema de Scorsese. Seus protagonistas frequentemente criam sistemas pessoais para domesticar um mundo caótico — sejam códigos de honra, rotinas de trabalho, impulsos religiosos ou regras de autopreservação. O problema é que esses sistemas sempre racham. Em Vegas, essa rachadura ganha forma especialmente cruel, porque o próprio espaço já é construído sobre a venda da ilusão. Tudo ali parece calculado para que o acaso seja experimentado como espetáculo.

Por isso, ler The Roman como encerramento de um ciclo é mais produtivo do que tratá-la apenas como derivação de ‘Cassino’. A série tem chance de atualizar o tema para a lógica do streaming e da serialidade: menos ascensão e queda concentradas em três horas, mais desgaste prolongado, mais negociação de poder, mais tempo para mostrar como uma estrutura corrói quem a opera.

Oscar Isaac é o ponto de costura entre o filme de Schrader e a série da Netflix

Oscar Isaac é o ponto de costura entre o filme de Schrader e a série da Netflix

Há ainda um detalhe de casting que reforça essa leitura. Oscar Isaac não entra em The Roman apenas como estrela confiável; ele carrega memória temática. Sua presença cria uma ponte quase automática com ‘O Contador de Cartas’. Isso não transforma os projetos em continuação, mas produz um eco útil: o mesmo ator que encarnou a disciplina como punição agora pode encarnar a autoridade como performance.

Isaac é particularmente bom nesse tipo de papel porque trabalha tensão sem recorrer a explosões constantes. Em seus melhores trabalhos, o conflito aparece em pausas, olhares, controle vocal, microvariações de ironia ou ameaça. Para uma história sobre cassino e poder corporativo, isso vale muito. O risco de séries desse tipo é cair no excesso de explicação ou no fetiche do luxo. Um ator com essa capacidade de sugerir desgaste interno pode evitar ambos.

Também ajuda o fato de Scorsese, mesmo como produtor, raramente emprestar seu nome a projetos sem alguma afinidade forte com seu repertório. Isso não garante resultado, mas indica direção. O interesse não está em reproduzir ‘Cassino’ em formato episódico. Está em expandir um conjunto de perguntas que o filme já fazia: quem lucra de verdade, quem paga a conta moral do sistema e quanto tempo um império consegue se sustentar antes de ser consumido pela própria lógica.

Vale a pena comprar essa leitura de ‘The Roman Scorsese’?

Vale, com uma ressalva importante. Ainda estamos falando de uma obra anunciada, não de uma série já vista e avaliada. Portanto, o argumento mais sólido não é dizer que The Roman já conclui essa trilogia, e sim que ela foi posicionada de forma quase perfeita para fazê-lo. A premissa, o cenário, a presença de Oscar Isaac e o histórico temático de Scorsese apontam todos na mesma direção.

Se a série entregar densidade dramática, atenção ao ambiente e alguma observação real sobre como o poder opera em Vegas, a leitura da trilogia deixa de ser provocação crítica e vira chave interpretativa legítima. Se optar apenas por intriga de superfície, continuará sendo um thriller potencialmente interessante, mas perderá a chance de dialogar com ‘Cassino’ e ‘O Contador de Cartas’ em nível mais fundo.

Para quem se interessa por Scorsese além dos títulos mais óbvios, essa hipótese já é estimulante por si só. E para quem espera ação constante ou uma reciclagem direta de ‘Cassino’, convém calibrar as expectativas: o apelo maior de The Roman talvez esteja menos nas fichas sobre a mesa e mais naquilo que elas sempre esconderam no cinema desse universo — medo, controle e a falência lenta do sonho de dominar o acaso.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Roman’

O que é ‘The Roman’ produzido por Scorsese?

‘The Roman’ é uma série da Netflix ambientada em Las Vegas e produzida por Martin Scorsese. A trama acompanha Robert ‘Bobby Red’ Redman, presidente de um grande hotel-cassino, em meio a disputas de poder e expansão de território.

‘The Roman’ é continuação de ‘Cassino’?

Não. ‘The Roman’ não é continuação direta de ‘Cassino’. A relação sugerida é temática: as obras compartilham interesse por Las Vegas, poder, jogo e pela ilusão de controle sobre sistemas desenhados para vencer.

Martin Scorsese dirige ‘The Roman’?

Até o momento, ‘The Roman’ foi anunciada com Scorsese na produção, não necessariamente na direção dos episódios. Esse tipo de participação costuma influenciar tom, equipe e linha criativa, mesmo sem colocá-lo atrás da câmera.

Quem está no elenco de ‘The Roman’?

O nome mais destacado é Oscar Isaac, que interpreta Bobby Red. Também foram anunciados Alec Baldwin, Betty Gilpin e David Costabile.

Preciso ver ‘Cassino’ e ‘O Contador de Cartas’ antes de ‘The Roman’?

Não é obrigatório. ‘The Roman’ deve funcionar de forma independente, mas ver ‘Cassino’ e ‘O Contador de Cartas’ pode enriquecer a experiência se você quiser acompanhar essa leitura de trilogia temática sobre Vegas, apostas e controle.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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