‘Rivais’ 2ª temporada: como o drama camp garantiu 100% no Rotten Tomatoes

‘Rivais’ 2ª temporada acerta ao abraçar de vez seu lado trashy bonkbuster. Analisamos como os 12 episódios fortalecem o arco de vingança de David Tennant e por que o 100% no Rotten Tomatoes diz mais sobre coerência tonal do que sobre perfeição.

‘Rivais’ 2ª temporada chegou ostentando 100% no Rotten Tomatoes, mas o dado só faz sentido quando se olha para a série sem a condescendência que costuma cercar o camp. O acerto aqui não está em ‘parecer prestigiosa’. Está em fazer o oposto: abraçar o exagero, o desejo, a maldade elegante e a lógica de sabotagem afetiva que sempre esteve no DNA de Jilly Cooper. Quanto mais a adaptação assume seu lado trashy bonkbuster, mais segura ela fica.

É essa segurança que distingue a nova leva de episódios. Em vez de tentar domar o melodrama, ‘Rivais’ o refina. A 2ª temporada entende que sua força não está em imitar um drama de época solene, mas em transformar ciúme, sexo, poder e humilhação em motor narrativo. O resultado é uma série mais coesa, mais cruel e, sobretudo, mais divertida de assistir.

Por que o lado ‘trashy bonkbuster’ finalmente vira vantagem

Por que o lado 'trashy bonkbuster' finalmente vira vantagem

Muita série de época quer ser respeitável antes de ser interessante. ‘Rivais’ escolhe outro caminho. Ela parte do princípio de que gente rica e vaidosa, travando guerras íntimas e profissionais, já oferece material suficiente — desde que a encenação tenha convicção. É aí que o camp deixa de ser ornamento e vira método.

Quando a série aposta em romances impulsivos, confrontos carregados de veneno e alianças que mudam conforme o ego da vez, ela não está se sabotando. Está sendo fiel ao que a torna singular. O termo bonkbuster ajuda a enquadrar isso: trata-se de uma ficção de excessos, de pulsão, de status e de escândalo. A adaptação funciona justamente porque não tenta higienizar esse impulso pulp.

Esse tom aparece não só nos diálogos afiados, mas na maneira como os episódios encadeiam prazer e ameaça. Uma conversa pode começar como flerte e terminar como chantagem. Uma reconciliação pode soar sincera até revelar cálculo. O entretenimento nasce dessa instabilidade. Não é profundidade fingida; é precisão tonal.

David Tennant entende que Tony Baddingham só funciona no excesso

O grande beneficiado por essa confiança é David Tennant. Como Lord Tony Baddingham, ele evita dois riscos comuns: o vilão camp que vira piada e o vilão sofisticado demais para sujar as mãos. Sua interpretação opera no meio-termo mais produtivo possível. Tony é ameaçador porque é pequeno; é fascinante porque sua necessidade de revanche corrói qualquer verniz de autoridade.

A decisão de mantê-lo vivo após os eventos do fim da temporada anterior não é apenas um gancho. É a escolha que reorganiza o eixo dramático da 2ª temporada. Em vez de encerrar a ameaça, a série a transforma em obsessão contínua. Tony volta menos como titã e mais como homem ferido, e isso o torna mais perigoso. Tennant sabe explorar esse tipo de humilhação ativa: o personagem quer recuperar poder, mas também quer infligir constrangimento, punir quem o expôs e reescrever sua própria queda.

Há uma qualidade especialmente boa em sua atuação: ele nunca pede que o público admire Tony. Pede, no máximo, que o observe de perto. O efeito lembra mais o Tennant de Kilgrave em ‘Jessica Jones’ do que qualquer papel mais caloroso de sua filmografia, embora aqui a chave seja menos terror psicológico e mais rancor social. O vilão não domina a sala porque é invencível; domina porque transforma ressentimento em estratégia.

Os 12 episódios resolvem o principal limite da 1ª temporada

Os 12 episódios resolvem o principal limite da 1ª temporada

O aumento de 8 para 12 episódios não é detalhe industrial. É a mudança estrutural que permite à série sustentar melhor seu próprio mundo. A 1ª temporada tinha energia e malícia, mas às vezes parecia correr para encaixar viradas, relações e conflitos em pouco espaço. Agora, ‘Rivais’ respira.

Essa respiração faz diferença sobretudo no arco de vingança de Tony. Em vez de resumir sua volta a uma sucessão de golpes rápidos, a temporada cria etapas, hesitações e contra-ataques. Isso fortalece o suspense, porque o prazer não está apenas na surpresa final, mas no processo de corrosão. A sabotagem deixa de ser nota de rodapé e vira dramaturgia.

Também há ganho no desenho das relações paralelas. Rupert Campbell-Black e Helen, por exemplo, deixam de existir só como polos de atração e nostalgia. Com mais tempo, a série pode observar como história compartilhada vira arma. O que era apenas background emocional ganha textura: ressentimento, hábito, desejo e cálculo coexistem na mesma cena.

É justamente esse espaço extra que ajuda a explicar a recepção crítica inicial. Não porque a série tenha ficado subitamente ‘prestige TV’, mas porque agora ela consegue executar sua proposta sem a sensação de compressão. O exagero continua; a arquitetura ficou melhor.

Uma cena resume o acerto da temporada: desejo e guerra no mesmo enquadramento

O melhor de ‘Rivais’ aparece quando a série recusa separar romance de disputa por poder. Há uma cena entre Rupert e Helen que sintetiza isso com clareza: o encontro é encenado como reconexão íntima, mas o subtexto inteiro é de medição de forças. O diálogo não funciona apenas pelo que dizem; funciona pelo que cada pausa sugere sobre memória, posse e manipulação.

Alex Hassell interpreta Rupert como alguém acostumado a vencer pelo charme e desconcertado quando esse recurso deixa de bastar. Já Hayley Atwell dá a Helen uma presença firme, sem deixá-la cair no estereótipo da ex-esposa ressentida. Ela parece sempre dois passos à frente, e a cena ganha eletricidade justamente porque nenhum dos dois está falando só de afeto.

Esse é um bom exemplo de como a série converte material potencialmente novelesco em drama eficaz. Não pela contenção, mas pela precisão. O enquadramento isola os personagens sem apagar o mundo de status ao redor; a montagem segura o tempo da reação; e o texto entende que a verdadeira ação está na mudança de hierarquia dentro da conversa.

Camp sem técnica vira bagunça; ‘Rivais’ tem técnica

Camp sem técnica vira bagunça; 'Rivais' tem técnica

Parte do preconceito contra esse tipo de série vem da ideia de que camp basta por si só. Não basta. Sem controle formal, o excesso só se espalha. ‘Rivais’ funciona porque há direção, montagem e desenho visual sustentando o tom.

A fotografia investe em superfícies elegantes, interiores opulentos e uma paleta que reforça a artificialidade sedutora desse universo sem transformar tudo em caricatura. O visual não busca realismo áspero; busca uma sofisticação ligeiramente lustrosa, adequada a uma história em que imagem pública é parte da guerra. Em cenas de confronto, a câmera frequentemente privilegia a reação tardia, o olhar atravessado, o microgesto que sinaliza mudança de poder antes mesmo da fala explicá-la.

O som também ajuda. Em vez de sublinhar cada virada como se fosse clímax absoluto, a trilha sabe quando empurrar o melodrama e quando deixá-lo repousar no desconforto de uma pausa. Esse controle impede que a temporada pareça histérica. Ela é intensa, sim, mas não aleatória.

No contexto do drama britânico recente, isso a coloca num lugar curioso: menos cerimoniosa que ‘The Crown’, menos assumidamente fantasiosa que ‘Bridgerton’ e mais interessada em veneno social do que em respeitabilidade. A comparação serve menos para nivelar prestígio e mais para mostrar como ‘Rivais’ ocupa um espaço próprio dentro das séries de época contemporâneas.

O 100% no Rotten Tomatoes importa, mas não do jeito que parece

É provável que os 100% caiam à medida que mais críticas entrem. Esse tipo de nota inicial quase sempre oscila, e seria ingenuidade tratá-la como selo definitivo de perfeição. O ponto relevante não é a permanência do número; é o que ele revela no recorte atual: a 2ª temporada estreou sem resistência crítica significativa.

Isso sugere uma leitura importante. Os críticos não estão premiando ‘Rivais’ por transcender seu lado trashy, e sim por entendê-lo. A aprovação vem da coerência entre proposta e execução. Uma série sobre poder, tesão, vingança e humilhação social não precisa fingir austeridade para ser bem feita. Precisa apenas saber dosar seus venenos. A nova temporada sabe.

Então, sim, o índice perfeito é frágil como estatística. Mas é útil como sintoma. Ele aponta para uma obra que voltou mais dona de si, mais confortável com sua vulgaridade elegante e mais eficiente em transformar fofoca, trauma e revanche em forma narrativa.

Para quem ‘Rivais’ 2ª temporada funciona — e para quem provavelmente não

Se você gostou da 1ª temporada justamente pelo excesso, a 2ª entrega uma versão mais madura da mesma proposta. Há mais tempo para os personagens respirarem, mais espaço para o vilão contaminar o ambiente e mais confiança para deixar o melodrama render sem vergonha.

Se a temporada anterior já lhe pareceu espalhada ou indulgente, esta dificilmente converterá você. Os 12 episódios melhoram a cadência, mas também reforçam o prazer da série em prolongar tensão, desejo e intriga. Quem busca um drama de época austero ou uma narrativa acelerada a cada minuto talvez a ache ornamental demais.

‘Rivais’ 2ª temporada é recomendada para quem gosta de séries que tratam o escândalo como arte de composição. Não é um prazer culposo; é um prazer assumido. E talvez seja justamente essa falta de culpa que explique por que a temporada começou tão bem com a crítica.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Rivais’ 2ª temporada

Onde assistir ‘Rivais’ 2ª temporada?

‘Rivais’ 2ª temporada estreia com os três primeiros episódios em 15 de maio de 2026 no Hulu, nos Estados Unidos, e no Disney+ em mercados selecionados.

Quantos episódios tem ‘Rivais’ 2ª temporada?

A 2ª temporada tem 12 episódios. São quatro a mais que a primeira, o que amplia o espaço para desenvolver os conflitos amorosos e o arco de vingança de Tony Baddingham.

Preciso ver a 1ª temporada antes de assistir ‘Rivais’ 2ª temporada?

Sim. Embora a série reintroduza personagens e relações, a 2ª temporada depende diretamente dos eventos, alianças e traições estabelecidos na 1ª. Entrar agora reduz bastante o impacto do drama.

‘Rivais’ é baseada em livro?

Sim. A série adapta o romance ‘Rivals’, de Jilly Cooper, publicado em 1988. O livro faz parte das chamadas ‘Rutshire Chronicles’, conhecidas pelo tom satírico, sexual e melodramático.

O 100% no Rotten Tomatoes de ‘Rivais’ 2ª temporada significa que a série é perfeita?

Não. Esse tipo de nota indica que todas as críticas contabilizadas até aquele momento foram positivas, não que a série seja unanimidade absoluta ou livre de falhas. Com mais avaliações, o percentual pode cair.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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