O 3º ator de ‘Star Trek’ que você não notou em ‘The Boys’ 5

Daveed Diggs é o terceiro elo de The Boys temporada 5 com Star Trek, ao lado de Karl Urban e Jack Quaid. O artigo mostra por que esse crossover de elenco revela um contraste maior: o cinismo de Vought contra o idealismo da Frota Estelar.

Existe uma ironia deliciosa — e nada acidental — no elenco de The Boys temporada 5. Enquanto a série empurra seu universo para um ponto de quase irreversível cinismo, três rostos ligados a Star Trek aparecem como lembrete de um futuro oposto: Karl Urban, Jack Quaid e, agora, Daveed Diggs. Não é só uma curiosidade de casting. É um contraste temático claro entre duas franquias que imaginam o poder de formas radicalmente diferentes.

De um lado, Star Trek foi construída sobre a ideia de que a humanidade pode amadurecer, organizar seus impulsos e usar tecnologia para explorar, não dominar. Do outro, The Boys insiste que qualquer estrutura de poder — política, religiosa, corporativa ou super-humana — tende a apodrecer. Quando a temporada coloca Homelander cada vez mais perto de uma figura divina, a presença desses atores vindos do universo de Gene Roddenberry deixa de ser detalhe e vira comentário.

Daveed Diggs é o terceiro nome de ‘Star Trek’ em ‘The Boys temporada 5’

Daveed Diggs é o terceiro nome de 'Star Trek' em 'The Boys temporada 5'

O gancho do episódio 6 ajuda a explicar por que essa conexão chama atenção. Na reta final de ‘Though the Heavens Fall’, a série dobra sua aposta na lógica da adoração cega, transformando Homelander em algo ainda mais próximo de um messias fabricado. É nesse ambiente que entra Daveed Diggs como Oh Father, um líder religioso que legitima a farsa porque sabe lucrar com ela. A escolha do ator já seria forte por si só, mas ganha outra dimensão quando lembramos de sua trajetória em Star Trek.

Diggs dubla o Comandante Tysess em Star Trek: Prodigy, um andoriano que funciona como extensão da disciplina moral da Frota Estelar. Tysess pode ser pragmático, mas opera dentro de uma instituição que, em sua melhor forma, pressupõe responsabilidade, dever e limites éticos. Em The Boys, Diggs vai para o extremo inverso: interpreta alguém que usa linguagem espiritual para dar verniz sagrado a um projeto autoritário. O contraste entre os dois papéis é o ponto. Num universo, a autoridade responde a princípios; no outro, ela performa princípios para capturar fiéis.

Isso também ajuda a entender por que muita gente não notou a conexão de imediato. Diggs não veio do braço live-action mais popular de Star Trek, e sim da animação. Só que isso não diminui o elo; pelo contrário. Prodigy é uma das séries mais claramente alinhadas ao ideal clássico da franquia, com foco em aprendizado, cooperação e descoberta. Trazer um ator dessa vertente para viver um falso profeta em The Boys é uma ironia editorialmente precisa.

Karl Urban saiu de Bones para Butcher — e isso diz muito sobre as duas franquias

Karl Urban é a ponte mais óbvia entre os dois universos, mas ainda vale olhar para ela com mais cuidado. Em Star Trek, seu Leonard ‘Bones’ McCoy carrega o ceticismo típico do personagem, só que sempre orientado por uma ética de cuidado. Ele resmunga, provoca e questiona, mas seu centro moral é firme: salvar vidas vem antes de qualquer vaidade. É uma figura humanista num universo que acredita em progresso.

Já Billy Butcher é praticamente a corrosão dessa mesma energia. Ele também é um homem de reação rápida, língua afiada e impulsos fortes, só que inserido num mundo em que a desconfiança deixou de ser traço de personalidade e virou método de sobrevivência. Urban faz Butcher funcionar porque não o interpreta só como brutalidade. Em várias cenas, especialmente nas interações com Ryan, ele deixa aparecer um resto de humanidade que impede o personagem de virar caricatura.

Esse detalhe importa porque The Boys costuma operar no limite da hipérbole. Se Urban jogasse Butcher apenas no registro da ferocidade, o personagem viraria uma máquina de frase de efeito. O que sustenta a performance é justamente a fricção entre afeto e veneno. A comparação com Bones ajuda a iluminar isso: nos dois casos, Urban interpreta homens que não confiam facilmente no sistema. A diferença é que, em Star Trek, essa desconfiança corrige a instituição; em The Boys, ela nasce da certeza de que a instituição já foi corrompida.

Jack Quaid leva para Hughie a ingenuidade ferida que ele já tinha em ‘Lower Decks’

Jack Quaid leva para Hughie a ingenuidade ferida que ele já tinha em 'Lower Decks'

Jack Quaid é o elo mais interessante quando pensamos em tom. Em Star Trek: Lower Decks, ele dubla Brad Boimler, personagem desenhado para encarnar a fé quase constrangedora na Frota Estelar: disciplinado, ansioso, idealista e genuinamente convencido de que seguir as regras pode levar a um bem maior. Boimler é engraçado justamente porque acredita demais — e Star Trek permite que essa crença não seja ridicularizada o tempo todo.

Hughie Campbell parece um experimento cruel com esse mesmo tipo de personalidade. No começo de The Boys, ele também parte da ingenuidade: acredita em justiça institucional, vê os super-heróis como símbolos de proteção e reage ao trauma com perplexidade, não com cinismo imediato. A diferença é o ecossistema. Onde Boimler encontra uma estrutura que, apesar das falhas, ainda tenta merecer sua devoção, Hughie encontra Vought, propaganda e abuso.

Quaid tem um mérito específico aqui: ele preserva no rosto e no tempo de reação de Hughie algo de infantilmente esperançoso, mesmo depois de temporadas de humilhação e violência. Isso aparece quando o personagem hesita diante de decisões moralmente irreversíveis, ou quando a série o coloca entre o pragmatismo brutal de Butcher e a necessidade de continuar humano. Não é coincidência que o ator funcione tão bem nos dois universos. Ele sabe interpretar homens que ainda querem acreditar — só que, em The Boys, essa vontade custa muito mais caro.

O contraste entre ‘Star Trek’ e ‘The Boys’ fica mais forte quando o tema é poder

O que une Urban, Quaid e Diggs não é apenas crédito em franquias famosas. É o fato de que seus personagens, somados, ajudam a dramatizar uma pergunta central: o que acontece quando o poder deixa de responder a um ideal coletivo? Star Trek imagina tecnologia, comando e exploração como ferramentas de organização moral. Há conflitos, vaidade e erro, claro, mas existe um horizonte civilizatório. The Boys parte da hipótese oposta: se o poder puder ser monetizado, televisionado ou divinizado, ele será.

A diferença aparece até no desenho de autoridade. A Frota Estelar é frequentemente filmada e escrita como instituição imperfeita, porém aspiracional. Já a Vought é uma máquina de captura simbólica: vende heroísmo como marca e transforma fé pública em produto. Quando Diggs interpreta um homem que abençoa a ascensão de Homelander, a série encosta de propósito em imagens de culto e liturgia. E aí a memória de Star Trek pesa ainda mais, porque o espectador reconhece no ator o rosto de um universo em que liderança ainda significava serviço.

Por isso o texto não deve tratar a conexão como simples caça a easter egg. O interesse real está no atrito entre visões de mundo. Ver três atores associados a uma ficção científica idealista habitando a máquina de moer cinismo de The Boys é quase uma tese em forma de casting: as mesmas presenças que, em um universo, apontam para cooperação e curiosidade, no outro servem para expor manipulação, trauma e culto à força.

Há também uma conexão nos bastidores, mas ela importa menos como trivia do que como sintoma

Há também uma conexão nos bastidores, mas ela importa menos como trivia do que como sintoma

O envolvimento de nomes criativos com passagens por séries de Star Trek ajuda a reforçar essa leitura, embora o essencial continue sendo o que está na tela. Quando roteiristas transitam entre uma franquia que aposta em imaginação ética e outra que desmonta mitos heroicos, o resultado tende a ganhar mais precisão. Satirizar bem exige conhecer o objeto satirizado por dentro.

Isso explica por que The Boys, mesmo quando exagera, raramente parece arbitrária em sua crítica à adoração de figuras superpoderosas. A série entende o apelo da fantasia messiânica antes de destruí-la. E esse entendimento conversa, por contraste, com o legado de Star Trek, que sempre tratou autoridade e descoberta como responsabilidades, não como licença para transcendência narcisista.

O detalhe que parecia só curioso acaba revelando o coração do artigo

Então, sim: o terceiro ator de Star Trek que muita gente talvez não tenha notado em The Boys temporada 5 é Daveed Diggs. Mas a informação, sozinha, vale pouco. O que realmente torna essa conexão interessante é perceber como Diggs, Urban e Quaid formam um pequeno mapa do choque entre dois imaginários de ficção científica. Um acredita que o futuro pode disciplinar nossos piores impulsos. O outro aposta que esses impulsos só ganham novas ferramentas.

Se The Boys continuar levando Homelander para o campo da divindade política, esse contraste tende a ficar ainda mais forte. E talvez esse seja o ponto mais instigante desse cruzamento improvável: em volta do falso deus de Vought, circulam atores que carregam a memória de um universo em que poder sem ética nunca foi sinal de evolução, mas de fracasso.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Boys’ temporada 5

Quem é o terceiro ator de ‘Star Trek’ em ‘The Boys’ temporada 5?

É Daveed Diggs. Além de Karl Urban e Jack Quaid, ele se junta à lista de nomes ligados a Star Trek ao aparecer na 5ª temporada de The Boys como Oh Father.

Qual personagem de ‘Star Trek’ Daveed Diggs faz?

Daveed Diggs dá voz ao Comandante Tysess em Star Trek: Prodigy. O personagem é um andoriano ligado à USS Dauntless e à USS Voyager-A.

Quais atores de ‘The Boys’ também passaram por ‘Star Trek’?

Os três nomes mais claros são Karl Urban, que viveu Bones nos filmes de J.J. Abrams; Jack Quaid, voz de Brad Boimler em Star Trek: Lower Decks; e Daveed Diggs, voz de Tysess em Star Trek: Prodigy.

Preciso assistir ‘Star Trek’ para entender ‘The Boys’ temporada 5?

Não. A conexão com Star Trek funciona como camada extra de leitura, mas The Boys explica seus personagens e conflitos sem depender de outra franquia.

Onde assistir ‘The Boys’ temporada 5?

The Boys é uma série original do Prime Video. A 5ª temporada deve ser acompanhada pela plataforma da Amazon, onde as temporadas anteriores também estão disponíveis.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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