‘O Diabo Veste Prada 2’: como o final homenageia ‘Uma Secretária de Futuro’

O final de ‘O Diabo Veste Prada 2’ recupera o plano aberto de ‘Uma Secretária de Futuro’, mas inverte o tom. Analisamos como a leitura de Meryl Streep e a metáfora do diretor transformam a homenagem em um retrato da precariedade corporativa atual.

Sequências adoram nos dar closure. Amarram as pontas soltas, entregam o arco da personagem com um laço bem-feito e mandam o público para casa satisfeito. Mas ‘O Diabo Veste Prada 2’ faz exatamente o oposto. Em vez do sorriso triunfante de Andy Sachs na calçada do primeiro filme, o que temos no desfecho é um vazio vertiginoso. A câmera se afasta, as personagens encolhem no quadro e Nova York engole tudo. É um final que incomoda — e é por isso que ele é a coisa mais inteligente que a continuação poderia ter feito.

O plano aberto que trocou o otimismo yuppie por vertigem

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Quando a câmera de David Frankel executa aquele lento pull-away no desfecho de ‘O Diabo Veste Prada 2’, a referência é imediata para quem conhece o clássico de Mike Nichols. É a assinatura visual de ‘Uma Secretária de Futuro’ (1988). No filme original, o plano aberto final sobre os arranha-céus de Manhattan funcionava como uma promessa ambiciosa: Tess McGill havia conquistado seu espaço, mas a cidade continuava imensa e cheia de possibilidades. Frankel recupera a mesma gramática visual, mas inverte o tom. Se nos anos 80 o plano aberto carregava um otimismo frenético — a era do yuppie, do mercado em ebulição e de Carly Simon cantando ‘Let the River Run’ —, aqui ele opera como uma âncora que afunda.

‘Insetos numa vitrina’: a leitura de Meryl Streep sobre a cidade

A maioria dos espectadores vai ver a homenagem e pensar apenas ‘que legal, lembraram do filme da Melanie Griffith’. Mas a intenção é muito mais amarga. Em entrevista à Entertainment Weekly, Meryl Streep destrói qualquer ilusão de romantismo urbano. Para ela, aquele afastamento da câmera revela que as personagens estão ‘congeladas no tempo’, sem direção real. É a metáfora perfeita para a fragilidade do jogo corporativo. Ao puxar a câmera para cima, vemos ‘pequenas pessoas replicadas em cada prédio’. Todo mundo está na mesma suspensão. Todo mundo é, nas palavras dela, ‘como insetos numa vitrina’.

Não há triunfo nessa imagem. Há apenas a percepção brutal de que, por mais talentosas ou ambiciosas que sejam dentro de um escritório, na escala da cidade, são descartáveis. A homenagem a ‘Uma Secretária de Futuro’ não é um mero easter egg; é um comentário sobre como o otimismo de outrora virou ansiedade de sobrevivência.

A balsa do Titanic: por que a solução do roteiro é o problema

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O diretor David Frankel reforça essa leitura com uma imagem esclarecedora. Segundo ele, aquele plano final mostra que as personagens ‘ainda estão juntas na balsa do Titanic’. Pense na gravidade da metáfora: a balsa não é o porto seguro, é o destroço de um naufrágio. No enredo, Andy (Anne Hathaway) retorna à Runway como editora sênior para estabilizar a revista durante uma crise de relações públicas na era digital, enquanto a influência de Miranda (Streep) despenca. A solução encontrada no terceiro ato é, usando os termos da própria Miranda, um ‘deus ex machina’ — algo tão fantasioso e conveniente que parece caído do espaço.

E a pergunta que o filme se recusa a responder, mas insiste em soprar para a plateia, é: isso vai durar? A solução é precária. Aquele sorriso aliviado no rosto das personagens não é a vitória sobre o sistema, é o alívio de quem escapou do esmagamento por poucos centímetros. Por hoje.

De Tess McGill a Miranda Priestly: como a fantasia corporativa morreu

Faz todo o sentido que ‘O Diabo Veste Prada 2’ dialogue diretamente com ‘Uma Secretária de Futuro’. O filme de 1988, que concorreu a seis Oscars incluindo Melhor Filme e Direção, estabeleceu o arquétipo da mulher tentando hackear o sistema corporativo. Tess McGill rouba a cena da chefe Katherine Parker (Sigourney Weaver) e conquista o investimento de Jack Trainer (Harrison Ford). Era a fantasia da época. Quarenta anos depois, a fantasia acabou. A homenagem estrutural de Frankel funciona como um espelho deformado: o que antes era uma conquista audaciosa, hoje é um remendo desesperado para manter a porta girando. Emily (Emily Blunt) e Nigel (Stanley Tucci) continuam ali, não por lealdade, mas porque não há outro lugar para ir.

A verdade é que o desfecho da sequência é muito mais honesto do que o do filme original. O primeiro nos dava uma Andy jogando o celular na fonte e caminhando contra a luz. A continuação nos dá três mulheres olhando para um abismo que disfarça de arranha-céu. A homenagem a ‘Uma Secretária de Futuro’ é o veículo perfeito para essa mudança de tom: o otimismo deu lugar à consciência da fragilidade. E a pergunta que fica, enquanto a tela escurece e a cidade domina o quadro, não é se elas vão vencer — mas se vão aguentar em pé até a próxima crise.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Diabo Veste Prada 2’

Onde assistir ‘O Diabo Veste Prada 2’?

‘O Diabo Veste Prada 2’ estreou nos cinemas e deve chegar à Disney+ e Hulu em breve, seguindo o padrão de lançamento da Walt Disney Studios. Confira as plataformas de streaming atualizadas para disponibilidade no Brasil.

Precisa ver o primeiro filme para entender a sequência?

Sim, é altamente recomendado. O filme depende do conhecimento prévio da relação entre Andy e Miranda Priestly, além de trazer de volta personagens como Emily e Nigel, cujos arcos continuam diretamente do primeiro longa.

‘O Diabo Veste Prada 2’ tem cena pós-créditos?

Não. O filme termina de partir daquele plano aberto final, sem nenhuma cena extra durante ou após os créditos. O plano final é, inclusive, o foco da análise do desfecho.

Qual é a relação do filme com ‘Uma Secretária de Futuro’?

O final de ‘O Diabo Veste Prada 2’ faz uma homenagem visual direta ao plano aberto de clássico de ‘Uma Secretária de Futuro’ (1988). No entanto, enquanto o filme dos anos 80 usava o plano como símbolo de otimismo e conquista, a sequência o usa para representar a fragilidade e a incerteza na cidade grande.

Anne Hathaway e Meryl Streep retornam nos papéis originais?

Sim, tanto Anne Hathaway quanto Meryl Streep retomam seus papéis como Andy Sachs e Miranda Priestly, respectivamente, ao lado de Emily Blunt e Stanley Tucci também de volta ao elenco.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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