O reboot de Power Rangers no Disney+ precisa abandonar a dependência de footage do Super Sentai para evoluir como drama de prestígio. Analisamos por que a liberdade criativa e o modelo serializado de ‘Cobra Kai’ são a única saída para salvar a franquia.
Power Rangers foi criado para ser consumido em blocos de 22 minutos aos sábados de manhã. Você ligava a TV, via os Rangers lutarem, desligava. Simples. Eficiente. Perfeito para 1993.
Mas estamos em 2026, e o reboot de Power Rangers no Disney+ chega em um mundo completamente diferente. Um mundo onde ‘Stranger Things’ provou que nostalgia + drama serializado = fenômeno cultural. Um mundo onde ‘Cobra Kai’ mostrou que uma franquia aparentemente esgotada pode se reinventar como televisão de prestígio. Desta vez, Power Rangers parece ter entendido a mensagem.
O problema é que a franquia não pode mais se contentar em ser o que sempre foi. Precisa virar algo que nunca tentou ser.
O formato de 22 minutos foi assassinado pelo streaming
Power Rangers Cosmic Fury terminou em 2023. Desde então, silêncio. Para uma máquina que produzia novos episódios religiosamente a cada ano, a pausa é sintomática. O formato original sobrevivia num contexto específico: TV aberta, grade rígida, audiência cativa infantil. Você não escolhia quando assistir — o episódio vinha até você.
O streaming destruiu essa dinâmica. Quando você controla o ritmo de consumo, exige que cada episódio deixe fome pelo próximo. Quer arcos que se estiquem por uma temporada inteira. Quer personagens que sofram e façam escolhas com consequências permanentes.
O filme de 2017 tentou adaptar a franquia para essa nova era e fracassou. Não pelo conceito, mas pela execução: passou 90 minutos forçando um drama teen estilo ‘Breakfast Club’ e espremeu toda a ação e mitologia nos 20 minutos finais. Resultado: nem era filme de formação suficiente, nem era espetáculo suficiente. Um híbrido sem identidade.
O que ‘Cobra Kai’ provou que Power Rangers sempre soube
Existe um padrão em séries que ressuscitaram propriedades mortas: elas não copiaram a fórmula original — a destruíram e reconstruíram.
‘Cobra Kai’ é o caso mais claro. Pegou a premissa simples de um torneio de karatê e a expandiu para um drama sobre trauma geracional, redenção e a forma como o fracasso na juventude assombra a vida adulta. O show não abandona o que ‘Karate Kid’ era, mas usa a violência como consequência psicológica, não como espetáculo vazio.
Power Rangers já teve momentos de drama genuíno — a morte de Zordon, o arco de Tommy Oliver, a temporada RPM, que arriscou um tom pós-apocalíptico e serializado em 2009 e é considerada o pico criativo da franquia. A matéria-prima sempre esteve lá: adolescentes carregando o peso do mundo nas costas. A diferença é que, pela primeira vez, o formato permite explorar isso sem o relógio de 22 minutos apressando a resolução.
A prisão do Super Sentai: por que reciclar footage japava o drama
Vamos ser diretos: o novo reboot não pode depender de footage do Super Sentai japonês. É exatamente isso que Disney e Hasbro estão fazendo ao começar do zero, e essa decisão é a base de toda a esperança para o projeto.
Durante décadas, Power Rangers operava reciclando coreografias e efeitos da série original. Funcionava porque crianças não questionavam as inconsistências visuais. Mas aquele modelo criava um teto narrativo invisível. Você não pode construir uma cenaão emocional silenciosa quando o roteiro é refém de uma cena de perseguição pré-filmada em Tóquio. Você não pode ter um clímax sutil se a footage disponível exige uma explosão gigante.
O novo show precisa de liberdade criativa total. Lutas coreografadas para o momento específico da história. Personagens que evoluem através de seus conflitos, e não apesar deles. A ação precisa servir ao drama, e não o contrário.
O risco calculado do Disney+ e a sombra de Jonathan Entwistle
Disney+ está em uma posição curiosa. Domina o mercado com Marvel e Star Wars, mas fora esses universos bilionários, a plataforma ainda busca uma identidade própria para séries originais. Um Power Rangers de prestígio ofereceria exatamente isso: uma propriedade reconhecível globalmente, mas sem o peso canônico de um MCU.
A escolha de Jonathan Entwistle como showrunner é o maior sinal de intenção. Ele criou The End of the F***ing World, um drama adolescente com tonalidade dark e ritmo de thriller. Não é um acidente. Entwistle sabe fazer jovens sofrerem na tela de forma convincente, e sua contratação indica que a Disney quer o sangue e a angústia adolescente de ‘Stranger Things’, não o paledismo de ‘Mighty Morphin’.
Mas tudo depende da execução. Se tentar ser Power Rangers tradicional com orçamento maior, falha. Se tentar ser ‘Stranger Things’ com uniformes coloridos, falha. O equilíbrio exige roteiros densos, consequências reais e uma mitologia que se desenrole com paciência.
O sucesso não é nostalgia — é consequência
Se o Disney+ acertar a mão, Power Rangers deixa de ser ‘mais um reboot nostálgico’ e vira razão legítima para assinar a plataforma. Não competirá por ter um logo famoso, mas por ser genuinamente bom.
Há fome no mercado por histórias que misturem espetáculo e intimidade emocional. A franquia tem o conceito, a mitologia e a audiência pronta. Falta apenas a coragem de rasgar o manual de instruções que a manteve presa aos sábados de manhã por três décadas. O poder está lá. A questão é se a Disney solta a coleira.
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Perguntas Frequentes sobre o Reboot de Power Rangers
Quando lança o novo reboot de Power Rangers no Disney+?
Ainda não há data de estreia confirmada. O projeto está em desenvolvimento sob o comando do showrunner Jonathan Entwistle, mas o lançamento não deve ocorrer antes de 2027.
O novo Power Rangers vai usar cenas do Super Sentai japonês?
Não. Pela primeira vez na história da franquia, o reboot vai produzir toda a ação e os efeitos visuais de forma original, abandonando a prática de reutilizar gravações da série japonesa.
Quem é o criador do novo Power Rangers?
Jonathan Entwistle, o criador da série crítica The End of the F***ing World. Sua contratação indica que o reboot terá um tom mais dramático e voltado para o público jovem adulto.
Qual temporada de Power Rangers é a mais escura?
Power Rangers RPM (2009) é amplamente considerada a temporada mais densa e bem escrita. Ambientada num cenário pós-apocalíptico, a série apostou em narrativas serializadas e temas maduros, servindo de inspiração para o tom que o reboot busca agora.
O filme de Power Rangers de 2017 tem ligação com o reboot?
Não. O filme de 2017 da Lionsgate era um universo à parte e fracassou em lançar uma franquia cinematográfica. O novo projeto do Disney+ ignora esse filme e recomeçará do zero.

