O Robin Hood de Hugh Jackman e a sombra impossível de ‘Logan’

Em A Morte de Robin Hood, Hugh Jackman reencontra o arquétipo do herói crepuscular de ‘Logan’, mas a sombra do filme de Mangold é um obstáculo gigante. Analisamos por que a virada para o terror e o horror psicológico podem ser a salvação do projeto da A24.

2026 está se revelando um ano de contrastes para Hugh Jackman. De um lado, ele empresta sua voz para um pastor assassinado que conversa com ovelhas detetives em As Ovelhas Detetives. Do outro, ele surge como um ladrão envelhecido e apodrecido pela culpa em A Morte de Robin Hood. Ao ver os primeiros frames desse novo projeto da A24, a sensação imediata não foi de novidade, mas de um déja vu pesado. Nós já vimos essa história. Nós já vimos Jackman fazendo esse exato papel. E o fantasma que assombra a floresta de Sherwood não é o Rei João, mas o próprio Logan.

O perigo de repetir a desconstrução que consagrou

O perigo de repetir a desconstrução que consagrou

Os paralelos entre Logan e o novo filme são impossíveis de ignorar, e o marketing da A24 certamente não vai tentar esconder isso. Em ambos, Jackman interpreta um herói mítico no fim da linha, carregando o peso físico e psicológico de uma vida inteira de violência. Ambos pegam figuras da cultura pop — um mutante, um ladrão de folclore — e os despem de sua grandiosidade para mostrar a carne viva e o osso fraturado por baixo da lenda. O problema é que Logan não foi apenas um grande filme de quadrinhos; é um dos melhores filmes do século 21.

Quando James Mangold fez Logan, ele puxou o gênero para o chão com a mesma violência cirúrgica com que Tony Gilroy operou Andor na televisão. Nenhum dos dois queria fazer um blockbuster que apaziguasse os fãs com referências e espetáculo vazio. Eles usaram a estrutura do universo expandido para contar histórias íntimas, politicamente conscientes e tematicamente densas. Mangold encontrou o tom perfeito de elegia crepuscular. Sarnoski, agora, tenta assobiar a mesma música, mas a partitura já foi tocada de forma tão definitiva que a mera repetição soa como cálculo de estúdio, não como urgência artística.

O bicho-papão de Nottingham e o terror de A Morte de Robin Hood

Felizmente, o filme tem um trunfo na manga que o diferencia do western de Mangold: a reconfiguração do mito como figura de terror. Nas histórias tradicionais, Robin Hood é o galante outlaw que rouba dos ricos para dar aos pobres, amado pelo povo de Nottingham. Aqui, ele é reimaginado como um bicho-papão. Uma lenda urbana assustadora que espreita nas sombras, muito mais próximo do ‘Baba Yaga’ de John Wick – De Volta ao Jogo do que do herói de Errol Flynn. O povo não o saúda; ele o teme.

Essa mudança de paradigma é o que salva o projeto de ser apenas uma cópia carimbada. E a escolha de Michael Sarnoski na direção reforça isso. Se você viu Pig: A Vingança, sabe que Sarnoski não tem nenhuma paciência com a estética do cinema de ação tradicional. O filme do Nicolas Cage era um estudo sobre o luto disfarçado de thriller, onde a violência era suja, pesada e sem glória. Em Um Lugar Silencioso: Dia Um, ele provou que sabe construir tensão a partir do que não é mostrado. A gramática de horror silencioso e físico de Sarnoski se encaixa como uma luva na Idade Média. O Robin Hood de Jackman não vai saltar graciosamente entre as árvores; ele vai arrastar o corpo cansado pelo lodo, ofegante, sendo a encarnação do trauma que ele mesmo causou.

O eco de Os Brutos Também Amam e o fardo da carne

A premissa de A Morte de Robin Hood espelha-se no clássico de Don Siegel, Os Brutos Também Amam. É o tropo do pistoleiro envelhecido que precisa confrontar um mundo que já não tem lugar para ele, e que descobre que sua lenda foi escrita com o sangue de inocentes. A diferença crucial é que John Wayne, em seu último filme, tinha a dignidade do mito; Jackman aqui parece ter apenas as cicatrizes.

Se o filme quiser funcionar, precisa olhar para a violência não como espetáculo, mas como doença. A expectativa é que Sarnoski transforme a ação em algo visceralmente desagradável. Um corpo que não responde mais como antes, flechas que falham o alvo, uma brutalidade desesperada de quem sabe que seu tempo acabou. A sombra de Logan será impossível de escapar se o longa tentar emular a catarse sangrenta do filme da Marvel. O caminho é outro: o do horror psicológico de se tornar o monstro que você jurava combater.

A aposta da A24 e o preço da comparação

Quando estrear em 19 de junho, A Morte de Robin Hood vai inevitavelmente esbarrar na pergunta: ‘Isto é melhor ou pior que Logan?’. É um debate injusto, mas é o preço que se paga por revisitar o mesmo arquétipo com o mesmo ator menos de uma década depois. O longa pode funcionar como um golpe no estômago se Sarnoski conseguir fazer o que fez em Pig: usar a estrutura de um gênero para falar sobre o vazio da alma humana.

Se você espera um filme de aventura medieval com arcos épicos e justiça social romântica, passe longe. Este é um filme sobre o apodrecimento do mito e o preço da violência. A grande questão não é se Jackman consegue repetir a magia de Logan, mas se ele e o diretor têm a coragem de levar a desconstrução até o fundo do poço — onde não há redenção, apenas o silêncio frio de uma lenda que devorou a si mesma.

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Perguntas Frequentes sobre A Morte de Robin Hood

Quando estreia A Morte de Robin Hood?

O filme está confirmado para estrear em 19 de junho de 2026 nos cinemas.

Quem dirige A Morte de Robin Hood?

O filme é dirigido por Michael Sarnoski, conhecido por Pig: A Vingança (2021) e Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024).

A Morte de Robin Hood é um filme de terror?

Não no sentido tradicional do gênero, mas a abordagem reconfigura a figura do herói como um elemento de terror. Robin Hood é tratado como um bicho-papão temido pelo povo, usando a gramática do horror psicológico em vez da aventura clássica.

Por que o filme é comparado a Logan?

Porque ambos estrelam Hugh Jackman como um herói envelhecido e desgastado pela violência, em uma desconstrução brutal do mito original. A diferença fundamental é que enquanto Logan é uma elegia crepuscular no estilo western, o novo filme aposta no terror e na culpa psicológica.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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