‘Twisted Metal’ acerta ao misturar a ação de Mad Max e o humor de Fallout

A ‘Twisted Metal série’ acerta ao equilibrar a violência estilizada de Mad Max com o absurdo cômico de Fallout. Analisamos como a produção usa a herança de ‘Deadpool’ no roteiro e cenas específicas para fugir do drama sombrio e criar o melhor pós-apocalipse divertido da TV.

‘Twisted Metal’ é aquele tipo de série que parece ter nascido de uma conversa de bar entre fãs de ficção científica: ‘E se a gente pegasse a violência veicular de Mad Max e misturasse com o absurdo divertido de Fallout?’ O resultado, surpreendentemente, funciona — e funciona bem.

A produção não tenta ser uma coisa ou outra. Em vez disso, abraça ambas as influências com confiança, criando algo que se sente único justamente porque não tem medo de ser contraditório. John Doe (Anthony Mackie) precisa entregar um pacote através de um país devastado enquanto enfrenta maníacos pilotando carros modificados em demolições letais. É um conceito tão absurdo que poderia desabar a qualquer momento — mas não desaba. E é nesse equilíbrio precário que a Twisted Metal série encontra sua força.

De ‘Fury Road’ ao asfalto: a ação veicular com personalidade

Se você já viu Fury Road ou Furiosa, sabe exatamente o que Mad Max oferece: ação veicular brutal, paisagens desérticas desoladas e uma estética que celebra a destruição como arte. ‘Twisted Metal’ absorve tudo isso e ampla. Os carros não são apenas modificados — são avatares. Cada um deles carrega a loucura de seu piloto: rodas de serra, chamas que explodem do escapamento, metralhadoras acopladas.

As sequências de combate veicular aqui são mais longas e viscerais do que qualquer coisa nos primeiros filmes de Mad Max. No episódio piloto, a perseguição inicial já deixa claro o vocabulário visual da série: você sente o peso dos impactos, a física dos destroços, o caos tátil da destruição. Mas — e aqui está o diferencial — ‘Twisted Metal’ recusa a solenidade épica de George Miller. Não há aquela sensação de que estamos presenciando uma tragédia grandiosa.

O antagonista principal, Sweet Tooth (com o lutador Samoa Joe no corpo e Will Arnett na voz), é claramente inspirado em Lord Humungus de Mad Max 2: The Road Warrior — homem massivo, máscara aterradora, completa falta de empatia. Mas enquanto Humungus é uma ameaça pura, Sweet Tooth é ameaça com timing cômico. Ele é diabolicamente engraçado. Assustador, sim, mas também absurdamente carismático de um jeito que o torna mais memorável que seu predecessor.

O DNA de Fallout e a herança de Deadpool no roteiro

Agora, se ‘Twisted Metal’ fosse apenas Mad Max com mais piadas, seria uma cópia rasa. O que a torna especial é como ela abraça a filosofia de Fallout: a ideia de que um apocalipse pode ser engraçado.

Fallout — tanto os games quanto a série recente da Prime Video — entende algo que Mad Max não prioriza: o absurdo é uma ferramenta narrativa válida. Um mundo destruído por guerra nuclear não precisa ser uniformemente sombrio. Pode ter Nuka-Cola em garrafas brilhantes, robôs vintage, fações ridículas lutando por poder. A seriedade convive com a frivolidade.

‘Twisted Metal’ adota essa mesma filosofia, e não é por acaso. A série tem no DNA os roteiristas de Deadpool, Rhett Reese e Paul Wernick. A mesma capacidade de equilibrar violência gráfica com humor ácido está aqui. Sim, as pessoas morrem. Sim, há traição e desespero. Mas também há momentos em que a série para e diz: ‘Olha, isso é ridículo, e tudo bem ser ridículo.’ Um personagem pode estar em perigo genuíno e ainda assim a cena pode ser engraçada. Não são piadas que desmentem a tensão — são piadas que coexistem com ela.

O cassino de Sweet Tooth: onde o terror encontra o slapstick

O cassino de Sweet Tooth: onde o terror encontra o slapstick

O grande risco de tentar misturar esses dois tons é cair no vazio do meio. Ou você faz uma série de ação com piadas fracas, ou uma comédia que tira a tensão dos momentos que importam. ‘Twisted Metal’ evita ambas as armadilhas porque entende que o humor serve a ação, não compete com ela.

Veja a sequência no cassino no episódio 2. Sweet Tooth faz um refém, a tensão é real, mas a coreografia da cena — envolvendo apostas absurdas e violência cartunesca — transforma o terror em algo bizarro e irresistível. O humor emerge organicamente do contexto e da personalidade do palega, não de uma piada forçada pelo roteirista para aliviar o clima.

O próprio John Doe não é Max Rockatansky — não é o herói silencioso e impassível. Ele é mais próximo de um sobrevivente acidental, alguém que está tão confuso quanto o espectador. Sua jornada com Quiet (Stephanie Beatriz) tem momentos de tensão genuína, mas também espaço para leveza. Eles brigam, fazem alianças improvisadas, discordam sobre estratégia. É uma camaradagem que nasce do atrito, não da convenção.

Por que a série recusa o drama sombrio pós-apocalíptico

Sendo sincero: essa série poderia ter sido um desastre. Combinar Mad Max com Fallout é juntar duas filosofias diferentes de narrativa. Mad Max é épico e trágico. Fallout é cínico e divertido. São tons que competem naturalmente.

O que salva ‘Twisted Metal’ é que ela não tenta reconciliar essas filosofias — ela as deixa em tensão criativa. Não há uma tentativa de explicar por que o mundo é simultaneamente brutal e engraçado. O mundo simplesmente é assim. É um alívio numa era onde séries pós-apocalípticas como The Walking Dead se afogaram em seu próprio drama sombrio.

A série reconhece que é uma adaptação de um videogame de combate veicular que nunca teve uma narrativa profunda. Isso dá uma liberdade criativa que adaptações mais ‘respeitosas’ não têm. ‘Twisted Metal’ não está tentando satisfazer fãs que exigem fidelidade canônica — está criando uma nova história que captura o espírito dos games. E esse espírito é: ‘Divirta-se com a destruição.’

Para quem é (e para quem não é) essa série

Se Fury Road é seu filme favorito, ‘Twisted Metal’ vai satisfazer sua fome por ação veicular criativa. Se Fallout conquistou você com seu equilíbrio entre seriedade e absurdo, a série oferece a mesma mistura em um contexto diferente.

Mas você não precisa gostar dos dois para apreciar ‘Twisted Metal’. Se você apenas quer uma série de ação divertida sem pretensões épicas, ela funciona. Por outro lado, se você busca um drama denso e desenvolvimento emocional contemplativo, é melhor procurar outro título. A série é generosa para quem quer caos e humor, mas não tem paciência para quem toma o fim do mundo muito a sério.

E é nessa recusa em escolher entre Mad Max e Fallout — abraçando ambos sem medo de parecer inconsistente — que ‘Twisted Metal’ encontra seu próprio caminho. Não é uma cópia de nada. É uma conversa entre duas visões de apocalipse, e essa conversa é muito mais divertida do que qualquer uma delas sozinha.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Twisted Metal’

Onde assistir a série ‘Twisted Metal’?

‘Twisted Metal’ é uma produção original do Peacock nos EUA, mas na América Latina a série está disponível exclusivamente na Netflix desde julho de 2023.

Precisa jogar os jogos de ‘Twisted Metal’ para entender a série?

Não. A série funciona como uma história independente. Ela captura o espírito e a estética dos jogos da PlayStation, incluindo carros e personagens icônicos, mas não exige conhecimento prévio da lore dos games.

‘Twisted Metal’ tem segunda temporada?

Sim. A série foi renovada para uma segunda temporada pouco após o lançamento do primeiro ano, que teve 10 episódios.

Quem é o ator que interpreta Sweet Tooth?

O palhaço assassino Sweet Tooth é interpretado fisicamente pelo lutador de WWE Samoa Joe, enquanto a voz do personagem é fornecida pelo ator Will Arnett, famoso por Arrested Development e por dar voz ao Batman nos filmes do LEGO.

Qual a classificação indicativa de ‘Twisted Metal’?

A série é indicada para maiores de 16 ou 18 anos (dependendo da plataforma/região). Contém violência gráfica estilizada, linguagem impropriada e humor negro, mantendo o tom dos jogos originais.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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