De ‘Alchemy of Souls’ a ‘Lovely Runner’: o melhor da romantasia coreana

Enquanto o Ocidente descobriu a romantasia pelo BookTok, os K-dramas romantasia já usavam folclore asiático para criar apostas existenciais. Veja como gumiho e reencarnação em séries como ‘Alchemy of Souls’ superam os reinos faéricos.

O Ocidente acha que inventou a romantasia. Entre o frenesi do BookTok por ‘mates’ e cortes faéricos, adaptações grandiosas como ‘Outlander’ ou o lirismo premiado de ‘A Forma da Água’, parece que misturar fantasia e paixão é a última novidade. Não é. A indústria sul-coreana faz isso há mais de uma década com uma diferença crucial: enquanto o Ocidente foca em política de cortes e reinos imortais, os K-dramas romantasia usam o folclore asiático para criar apostas existenciais. Aqui, o amor não é apenas proibido por regras da monarquia; ele desafia o destino, a morte e a linearidade do tempo.

A anatomia dos K-dramas romantasia: muito além das fadas de BookTok

A anatomia dos <strong data-srcset=K-dramas romantasia: muito além das fadas de BookTok”/>

O tropo da criatura mítica ocidental geralmente orbita vampiros brilhantes ou fadas autoritárias. A Coreia tem o gumiho, a raposa de nove caudas, e ela carrega um peso melancólico que a torna mais complexa. ‘Tale of the Nine Tailed’ leva isso ao extremo. O personagem de Lee Dong-wook não é um garoto propaganda de fantasia leve; ele é um espírito centenário carregando o luto de todas as pessoas que amou. A série pega um conceito folclórico e injeta suspense urbano, usando a oposição entre a modernidade de Seul e o passado mitológico para criar um vilão de tirar o sono.

O peso do destino e o romantismo apocalíptico

Se tem algo que o drama coreano faz melhor do que ninguém é transformar fatalismo em combustível para a paixão. Em ‘While You Were Sleeping’, ver o futuro através de sonhos proféticos não é um presente, é uma armadilha. Bae Suzy e Lee Jong-suk tentam reescrever o destino, e a tensão não está no ‘será que eles ficam juntos?’, mas no ‘será que eles sobrevivem ao que o universo preparou?’.

Mas se você quer falar em desafiar o divino, ‘Doom at Your Service’ é o ápice. Park Bo-young, ao receber um diagnóstico de câncer terminal, amaldiçoa o mundo em um monólogo de desespero — e Seo In-guk, como a própria personificação do fim, escuta. O que segue é um romance que nasce do apocalipse. A série constrói sua tensão na imagem recorrente de uma árvore morrendo, espelhando a decrepitude do mundo e da protagonista. É uma história que questiona se vale a pena salvar a si mesmo quando tudo desmorona, entregando um desfecho amargo e inevitável.

Reencarnação e viagem no tempo: o amor refazendo a linha temporal

Reencarnação e viagem no tempo: o amor refazendo a linha temporal

A reencarnação no Ocidente costuma ser uma desculpa para mistério de vidas passadas. Na Coreia, é uma sentença. ‘See You in My 19th Life’ faz de Ban Ji-eum (Shin Hye-sun) uma mulher com milênios de memórias, determinada a reconquistar o amor trágico de sua vida anterior. A carga emocional não vem da premissa, mas da atuação de Shin Hye-sun, que traduz o cansaço de quem viveu demais sem perder a urgência do amor presente.

‘The Beauty Inside’ usa realismo mágico de forma brilhante: a atriz Han Se-gye muda de corpo inteiramente uma vez por mês, enquanto o executivo Seo Do-jae esconde uma prosopagnosia. A série normaliza o bizarro até que o espectador aceita a troca de corpos como um detalhe de personagem, não como um choque barato. Duas almas marginalizadas encontram lógica uma na outra.

No entanto, o assunto central aqui é ‘Lovely Runner’. Lançada em 2024, já é um clássico moderno e a melhor execução de viagem no tempo da TV recente. Quando Im Sol volta magicamente a 2008 e descobre que seu ídolo pop era seu vizinho, a série não brinca de nostalgia; ela brinca de efeito borboleta. Sob a direção de Kim Tae-woo, cada mudança no passado é filmada com uma urgência que gera ansiedade genuína sobre o que foi apagado no presente. A química entre Byeon Woo-seok e Kim Hye-yoon é tão magnética que o roteiro precisa distorcer o tempo apenas para mantê-los juntos.

Pactos infernais, maldições e o poder de um bom ‘fake dating’

Às vezes, o sobrenatural precisa de um empurrãozinho das comédias românticas. ‘My Demon’ faz isso com maestria. Jeong Gu-won (Song Kang) é um demônio de 200 anos que perde sua fonte de poder — uma tatuagem — para a CEO fria Do Do-hee (Kim You-jung). O que poderia ser um terror existencial se transforma em um esquema de ‘fake dating’ com herança e justiça vigilante no meio. É o equilíbrio perfeito para quem quer magia sem perder o humor ácido.

‘Destined With You’ pega a mistura de romantasia e mistério a sério. Rowoon como o advogado amaldiçoado e Jo Bo-ah como a funcionária pública destinada a salvá-lo desvendam um livro centenário. O curioso é como a maldição ancestral vai se desfazendo na mesma medida em que os sentimentos crescem, e a série entrega um dos momentos mais tensos da TV coreana recente ao unir alívio sobrenatural e desejo na mesma cena.

O purgatório estilizado e o ápice da magia em ‘Alchemy of Souls’

Antes de chegar ao topo, é preciso mencionar ‘Hotel del Luna’. A série é um tratado de estética fantástica. O guarda-roupa anacrônico e impecável de IU (Jang Man-wol) e a trilha sonora hipnotizante criam um purgatório para fantasmas, mas é a profundidade emocional de uma mulher presa a um hotel por 1.000 anos que sustenta os 16 episódios.

Por fim, chegamos ao pico do gênero: ‘Alchemy of Souls’. A série histórica (sageuk) pega a troca de corpos — a poderosa bruxa Nak-su presa no corpo frágil de Mu-deok — e transforma em uma relação alquímica de mestre e aprendiz com o nobre Jang Uk (Lee Jae-wook). O que diferencia a série é como o diretor Park Joon-hwa encena a magia: a coreografia de luta se funde com os feitiços, dando um peso físico e visceral à bruxaria que o CGI puro jamais conseguiria. Não é apenas romance; é uma dependência simbiótica forjada em meio a intrigas políticas e traições letais. A conexão funciona tão bem que você esquece que eles estão lidando com feitiçaria e começa a torcer como se fosse uma questão de vida ou morte — porque, no fim das contas, é exatamente isso.

Enquanto o Ocidente continua tentando emplacar a romantasia com fadas em castelos de pedra, a Coreia já entendeu que o verdadeiro fantástico está nas apostas existenciais. Gumiho, reencarnação, apocalipse: esses tropos funcionam porque não são apenas cenários decorativos, são armadilhas do destino que o amor precisa desarmar. Se você quer romantasia que funcione como um thriller emocional, esqueça os castelos. Vá para Seul.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre K-dramas de Romantasy

Onde assistir ‘Alchemy of Souls’ e ‘Lovely Runner’?

‘Alchemy of Souls’ está disponível na Netflix. Já ‘Lovely Runner’ pode ser assistida na Viki (Rakuten Viki) na maioria dos países, incluindo o Brasil.

O que significa ‘sageuk’ em K-dramas?

‘Sageuk’ é o termo coreano para dramas históricos. Quando um K-drama de fantasia é sageuk, como ‘Alchemy of Souls’, a história se passa em épocas antigas com roupas, cenários e contextos políticos tradicionais coreanos.

Qual a diferença entre romantasia coreana e ocidental?

Enquanto a romantasia ocidental (como a popularizada pelo BookTok) costuma focar em reinos faéricos e política de cortes, a coreana usa folclore asiático para criar apostas existenciais, onde o amor desafia a morte, o destino e a linearidade do tempo.

O que é um gumiho na mitologia coreana?

Gumiho é uma criatura mitológica coreana, uma raposa de nove caudas que pode se transformar em humana. Diferente de fadas ou vampiros ocidentais, o gumiho carrega um peso melancólico e muitas vezes é retratado como um espírito solitário que anseia por humanidade.

‘Lovely Runner’ é baseado em algum livro?

Sim, a série é adaptação do web novel coreano ‘The Best of Tomorrow’ (Naui Naeilui Neorang-i), escrito por Kim Bbang, que também assina o roteiro da adaptação para a TV.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também