‘Apex’ na Netflix: Taron Egerton eleva o thriller de sobrevivência com Theron

Analisamos a dissonância entre a nota do Rotten Tomatoes e os problemas de roteiro em ‘Apex Netflix’. Descubra como Taron Egerton salva o thriller de Baltasar Kormákur com um vilão perturbador e por que a premissa de sobrevivência naufraga nos diálogos.

A matemática do Rotten Tomatoes pode ser traiçoeira. Quando Apex Netflix estreou com uma respeitável nota de 71% na agregadora de críticas, o número sugeria um thriller de sobrevivência coeso e eficaz. A realidade, porém, é mais árida do que as paredes de pedra que a personagem de Charlize Theron tenta escalar para não morrer. Esse percentual inicial esconde uma dissonância enorme entre o apreciável ofício técnico do filme e a fragilidade de um roteiro que parece tirado de uma máquina de escrever travada nos anos 90. É o tipo de obra que levanta uma questão incômoda: como um filme com premissa tão batida consegue atrair um elenco desse calibre?

A resposta está na força bruta da atuação. ‘Apex’ funciona quase como um experimento de laboratório: o quanto um elenco carismático pode salvar um material genérico? Bastante, como prova o filme, mas não o suficiente para fazer esquecer que a estrutura da história é oca. O longa se beneficia de uma estética de sofrimento bem executada, mas tropeça feio quando tenta ser algo mais do que uma caçada implacável.

A dissonância dos 71% e o perigo do roteiro de ‘Uma Noite de Crime’

A dissonância dos 71% e o perigo do roteiro de 'Uma Noite de Crime'

Para entender o porquê da nota inicial relativamente alta, é preciso olhar para o que funciona na tela. A crítica que elogiou o filme acertou no alvo ao destacar a fisicalidade da ação e a fotografia de montanha. A natureza aqui não é cenário de fundo, é antagonista ativa — o frio corta, a neve cega, a falta de ar é quase palpável. Porém, quando o filme tenta respirar nos momentos de ‘calmaria’ para desenvolver seus personagens, o edifício desmorona. O roteiro de Jeremy Robbins, o mesmo da franquia ‘Uma Noite de Crime’, sofre de um problema crônico: confunde silêncio com profundidade.

Os batimentos emocionais são tão rasos que beiram o constrangedor. As tentativas de gerar empatia soam artificiais, com a profundidade de um cartão de aniversário genérico. Sasha (Theron) e seu marido Tommy (Eric Bana) não conversam; eles recitam melodrama de manual. Essa falta de carne nos diálogos cria um ritmo claudicante, onde a tensão construída com suor nas cenas de ação evapora assim que os personagens abrem a boca para qualquer coisa que não seja ofegar de cansaço.

Taron Egerton: o horror necessário que salva ‘Apex Netflix’

Se o roteiro é a rachadura estrutural, Taron Egerton é o contraforte que impede o filme de desabar. O ator que encantou em ‘Rocketman’ e arrasou nas bilheterias da Netflix com ‘Bagagem de Risco’, faz aqui uma metamorfose perturbadora. Seu Ben não é apenas um caçador com uma besta; ele é um predador no topo da cadeia alimentar, operando com um olhar vazio que denuncia ausência total de humanidade.

Há uma cena específica, logo após sua primeira grande emboscada na neblina, que justifica o preço do ingresso. Egerton se aproxima da presa ferida não com fúria, mas com a curiosidade fria de um cirurgião examinando um corpo na mesa. É ali que o filme ganha vida. A dinâmica de gato e rato só funciona de verdade quando a câmera foca na caça implacável de Ben. Quando o foco muda para o casal em apuros, a tensão esvai. Theron entrega a fisicalidade de sempre — ela carrega o peso da sobrevivência nos ombros e na expressão cansada, uma marca registrada desde ‘The Old Guard’. A atriz opõe o cansaço físico crônico à letalidade estática de Egerton, mas até uma lutadora imortal precisa de um roteiro que dê contorno ao seu sofrimento, e Robbins não oferece isso.

O currículo de Baltasar Kormákur e a estética do sofrimento

Dirigir ‘Apex’ era, no papel, um ajuste perfeito para Baltasar Kormákur. O cineasta islandês construiu uma carreira sólida especializado em colocar humanos contra a fúria da natureza em filmes como ‘Evereste’, ‘Vidas à Deriva’ e ‘A Fera’. Ele sabe como filmar o frio cortante, a falta de ar, o desespero de quem está à mercê dos elementos. E essa expertise salva muitas cenas do novo thriller, especialmente na primazia com que usa locações reais em vez de telas verdes.

O problema é que Kormákur parece refém da própria fórmula. Em seus melhores trabalhos, a natureza era uma força indiferente e assustadora. Em ‘Apex’, ao adicionar um caçador humano intencionalmente cruel à equação, o diretor perde o tom. O terror existencial do homem contra o inverno dá lugar a um espetáculo mais barato de perseguição. Há um momento em que o som ensurdecedor do vento — até então o grande trunfo do design de som do filme — dá lugar a uma trilha genérica de suspense. É a metáfora perfeita para o longa: um diretor competente operando no piloto automático, entregando um produto bem acabado, mas desprovido da urgência visceral que marcou sua filmografia.

No fim das contas, ‘Apex’ é um filme que sobrevive apenas pela pele dos dentes — e pelo talento de quem está na tela. Se você curte um thriller de perseguição bem filmado e consegue ignorar diálogos planos e ritmo irregular, a dupla Theron e Egerton entrega diversão suficiente. Agora, se você busca um roteiro à altura da bela fotografia de montanha, vai acabar ficando com frio. Fica a pergunta: quantos filmes genéricos um elenco de peso ainda precisará salvar antes de a plataforma investir em roteiros no mesmo nível dos seus orçamentos?

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Perguntas Frequentes sobre ‘Apex’

Onde assistir ao filme ‘Apex’?

‘Apex’ está disponível exclusivamente na Netflix desde sua estreia em 2024. Por ser um original da plataforma, não deve migrar para outros serviços de streaming.

‘Apex’ na Netflix é baseado em alguma história real?

Não. O filme é uma obra de ficção com roteiro original de Jeremy Robbins, o mesmo escritor da franquia ‘Uma Noite de Crime’. A trama segue um casal perseguido por um caçador em ambiente hostil.

Quem é o vilão de ‘Apex’?

O vilão é Ben, interpretado por Taron Egerton (‘Rocketman’). Diferente dos papéis carismáticos que o tornaram famoso, Egerton faz um caçador serial killer frio e metódico, considerado o grande destaque do filme.

Quem dirigiu ‘Apex’ na Netflix?

O diretor é o islandês Baltasar Kormákur, conhecido por especializar-se em thrillers de sobrevivência e homens contra a natureza, como ‘Evereste’, ‘Vidas à Deriva’ e ‘A Fera’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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