O feminismo inesperado de ‘Agarra-me se Puderes’ no cinema dos anos 70

Muito além das perseguições de carro, ‘Agarra-me se Puderes’ subverteu o cinema paranoico dos anos 70. Analisamos como a personagem de Sally Field transformou um road movie machista em precursor do feminismo na tela, usando a comédia como disfarce para uma revolução narrativa.

Os anos 70 no cinema cheiravam a paranoia e cinismo. A década que nos deu o neo-noir desconfiado de Pakula e os anti-heróis miseráveis de Scorsese e Coppola tinha um pacto não escrito: o mundo estava ferrado, e os homens que o habitavam também. Nesse cenário de cinza e ambiguidade moral, entra um filme sobre contrabando de cerveja, perseguições interestaduais e um sorridente Burt Reynolds. Parece o epítome do cinema machista da era, certo? Errado. Agarra-me se Puderes é, na verdade, uma das subversões mais precisas desse mesmo cinema paranoico, e o grande motor dessa revolução se chama Sally Field.

Por que o crime em ‘Agarra-me se Puderes’ é um jogo, não uma tragédia

Por que o crime em 'Agarra-me se Puderes' é um jogo, não uma tragédia

O cinema de crime dos anos 70 era obcecado por colapsos psicológicos. Os criminosos até eram carismáticos, mas a narrativa exigia que acabassem destruídos pelo sistema ou por si mesmos. A lei era retratada como incompetente e opressora. Era um cenário de desespero urbano e rural, onde a ilegalidade era um caminho sem volta. Contudo, o filme de Hal Needham joga essa cartilha pela janela do Pontiac Trans Am. Aqui, o crime é um jogo. O xerife Buford T. Justice (um Jackie Gleason que transforma o personagem numa força da natureza tão ridícula quanto implacável) não é uma ameaça existencial, é uma piada recorrente. Ao trocar o medo paranoico pela alegria do ‘joyride’, o filme cria um espaço onde a rebeldia não precisa ser punida — e é exatamente nesse espaço seguro que o feminismo de sua protagonista floresce.

A noiva que rejeitou o altar e assumiu o Trans Am

Falemos da cena que muda tudo. Bandit quase bate o carro numa noiva em fuga. Em qualquer outro filme da década, ela seria um fardo, uma donzela chorosa para o herói proteger. Em vez disso, Carrie (apelidada de Frog) entra naquele carro, arranca o vestido de noiva sem cerimônia, elogia as próprias pernas e começa a falar de suas aventuras na Broadway. Sally Field injeta uma energia tão hedonista e segura na personagem que obriga Bandit a sentar e prestar atenção. Ela não pede permissão para existir naquele mundo machista; ela simplesmente toma o volante nas curvas mais apertadas para despistar a polícia e prova que domina o Trans Am tanto quanto ele. A personagem de Field não é um acessório do Bandit; em mais de um momento da operação, é quem salva a pele dele.

O disfarce da comédia: por que o feminismo de Carrie funciona

O disfarce da comédia: por que o feminismo de Carrie funciona

É tentador ignorar o peso de Carrie porque o filme é engraçado. A edição nas cenas de diálogo é proposalmente relaxada, nos dizendo subliminarmente que não há o que temer. Mas repare no truque: se o filme fosse denso e paranoico como seus contemporâneos, a whimsy (aquela leveza caprichosa) de Carrie seria descartada como algo não-sério. O tom leve é o disfarce perfeito para uma revolução. Lançado no mesmo ano de ‘Star Wars’ (1977), Carrie faz pela estrada o que a Princesa Leia fez pelo espaço: transita de aparente donzela em perigo para líder e salvadora da operação em questão de minutos. E se você acha que a comparação é exagerada, pense nisso: as protagonistas de ‘Thelma & Louise’, lançada 14 anos depois, devem muito a essa noiva que decidiu que o casamento não era para ela e que a vida no limite da ilegalidade era mais honesta do que a domesticidade imposta às mulheres da época.

Da câmera estática à perseguição: como o cinema respira ação

Essa dualidade entre a descontração e a competência se reflete diretamente na linguagem cinematográfica. Quando Bandit e Snowman estão apenas conversando, a câmera é estática, quase desinteressada. Mas quando a perseguição começa, Needham muda o registro. Entram os planos de rastreamento nos para-choques, os contra-plongées no para-brisa e os planos over-the-shoulder do banco de trás, cortados com uma velocidade que faz o coração acelerar. A montagem dessas sequências de ação constrói um ritmo que não deve nada a thrillers modernos como ‘Drive’ ou à histeria de ‘Velozes e Furiosos 4’. E quem divide a tela nesses momentos de alta tensão cinematográfica? Carrie. Ela não fica no banco do passageiro gritando de medo; ela está lá, no Trans Am, dominando a mesma gramática visual de ação até então reservada aos homens.

No fim das contas, ‘Agarra-me se Puderes’ é um daqueles raros filmes que envelheceram de forma tão relevante justamente porque traziam uma camada que a própria época talvez não soubesse ver. Sob o viés da comédia pastelão e do ronco do motor, há uma mulher rejeitando o papel de esposa, assumindo o controle da própria narrativa e provando que o cinema de ação não era — e nunca deveria ter sido — território exclusivamente masculino. Se você busca paranoia e cinismo, vá para os neo-noirs da década. Mas se quer ver como a rebeldia e o feminismo podem se disfarçar de puro entretenimento, entre no carro da Sally Field.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Agarra-me se Puderes’

Onde assistir ‘Agarra-me se Puderes’?

Atualmente, ‘Agarra-me se Puderes’ está disponível para locação e compra em plataformas como Apple TV, Amazon Prime Video e Google Play. A disponibilidade em streaming por assinatura costuma variar.

‘Agarra-me se Puderes’ é um filme machista?

À primeira vista, o filme parece um road movie tipicamente machista da década de 70. No entanto, a construção da personagem Carrie (Sally Field) subverte essa expectativa: ela rejeita o casamento, assume o volante e salva o protagonista, funcionando como um ícone feminista precursor disfarçado sob o tom de comédia.

Quem é a protagonista feminina de ‘Agarra-me se Puderes’?

A protagonista feminina é Carrie, apelidada de ‘Frog’ (Sapo), interpretada por Sally Field. Ela é uma noiva fugitiva que entra no carro de Bandit (Burt Reynolds) e se torna peça fundamental na operação de contrabando.

Qual a relação entre ‘Agarra-me se Puderes’ e ‘Thelma & Louise’?

Ambos os filmes usam a fuga de carro como metáfora para a libertação feminina. Carrie, em ‘Agarra-me se Puderes’ (1977), é uma precursora das protagonistas de ‘Thelma & Louise’ (1991) ao decidir que a vida na ilegalidade é mais honesta do que a domesticidade imposta às mulheres.

Quem dirigiu ‘Agarra-me se Puderes’?

O filme foi dirigido por Hal Needham em 1977. Needham era um ex- dublê de Hollywood, o que explica a excelência e a autenticidade das cenas de perseguição e acrobacias automotivas da produção.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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