Além de ‘Reacher’: séries de ação que elevam o patamar do gênero

Analisamos como séries de ação como ‘Barry’, ’24 Horas’ e ‘Daredevil’ vão além do conforto pulp de ‘Reacher’. Veja como a violência na TV pode ser tensão psicológica, realismo perturbador e subversão de gênero, não apenas espetáculo.

‘Reacher’ é um dos grandes sucessos da TV atual. Alan Ritchson encarna um Batman sem capa, e a estrutura dos livros de Lee Child sustenta um thriller policial pulp eficiente. A violência é brutal, mas sempre moralmente justificada. É o ápice da ‘dad TV’: o herói é imbatível, os vilões são unidimensionais e a gente sai de cada episódio com a sensação de que a justiça foi feita a socos. Mas, por mais funcional que seja esse conforto, as séries de ação podem ir muito além do poder catártico de ver um grandalhão quebrar ossos de criminosos genéricos. O formato televisivo permite riscos que o cinema blockbuster, refém da bilheteria internacional e da classificação PG-13, não assume. E quando criadores usam essa liberdade não para exibir mais sangue, mas para propor tensão psicológica, realismo perturbador ou a desconstrução do próprio gênero, a ação deixa de ser espetáculo e vira experiência.

O conforto da ‘Dad TV’ e o peso da violência real

O conforto da 'Dad TV' e o peso da violência real

O sucesso de ‘Reacher’ reside na sua honestidade. Ele não promete profundidade existencial; promete porrada bem coreografada e investigação direta. O problema é quando o público e a crítica confundem essa eficiência com o ápice do gênero. A violência em ‘Reacher’ é asséptica em sua moralidade: o herói sempre tem razão, os ossos quebrados são apenas obstáculos superados. É um parque de diversões. Contrastando com isso, as grandes obras do gênero na TV usam a violência não como recompensa para o espectador, mas como um agente de corrosão. A porrada deixa de ser solução e passa a ser o problema. É essa subversão que separa o entretenimento efêmero da obra que fica marcando.

De ‘Banshee’ a ‘Justificado’: o pulp que encontra a humanidade

Antes de se tornar o assustador Homelander em ‘The Boys’, Antony Starr mostrou que sabia fazer ação de forma magistral em ‘Banshee’. A premissa é pura pulp fiction de classe B: um ex-presidiário assume a identidade de um xerife morto em uma cidade pequena. A série é um prazer visceral, com lutas coreografadas que exigem um preparo físico absurdo do elenco e exibem uma brutalidade rara na TV. Mas o que eleva ‘Banshee’ acima do pulp comum é que a violência ali tem consequências psicológicas terríveis para o protagonista. Ele não é um herói moral; é um homem quebrado tentando sobreviver aos próprios erros.

Essa mesma lógica de que as armas pesam no bolso aplica-se a ‘Justificado’. Baseada em um conto de Elmore Leonard, a série trouxe o cowboy do velho oeste para o Kentucky contemporâneo nas botas do delegado Raylan Givens (um Timothy Olyphant com um carisma letal que faz você torcer por um xerife que age como um pistoleiro). ‘Justificado’ começou como um procedural comum, caso da semana resolvido a tiros. Mas quando percebeu que a dinâmica entre Raylan e o vilão Boyd Crowder (Walton Goggins) era o coração da obra, mudou para um formato serializado. Os tiroteios deixaram de ser o foco e passaram a ser o estopim de uma relação de respeito e desgosto mútuos que define a série.

O relógio que esmaga: a tensão em tempo real redefine as séries de ação

Se ‘Justificado’ briga com as consequências da violência no longo prazo, ’24 Horas’ faz o oposto: ela comprime o terror até o ponto de ruptura. Criada no calor do trauma pós-11 de setembro, a série entregou o James Bond da era da Guerra ao Terror. Jack Bauer não tinha tempo para reflexões morais; ele precisava torturar e atirar porque o relógio corria. O acerto de ’24 Horas’ não está na plausibilidade de seus roteiros, mas no seu formato radical. Cada episódio acontecendo em tempo real, compondo um dia inteiro por temporada, criava uma tensão asfixiante. O uso constante de telas divididas ampliava essa paranoia, mostrando ameaças simultâneas que o protagonista não conseguia acompanhar. A ação aqui não é coreografada para parecer bonita; ela é desesperada, suada e feia, empurrada pelo puro pânico do tempo acabando.

O horror por trás do espetáculo em ‘The Boys’ e ‘Daredevil’

A televisão também permitiu que a violência encontrasse seu lado mais grotesco e politicamente afiado. ‘The Boys’ é um caso raro de adaptação que supera a obra original. O quadrinho de Garth Ennis flerta com o choque gratuito, mas a série de Eric Kripke recontextualizou essa selvageria como uma sátira política afiada. A ação aqui é nojenta por uma razão muito clara: superpoderes seriam assim na vida real. Aquele velocista que transforma uma pessoa em polpa de sangue nos primeiros minutos do episódio 1 não é apenas choque barato; é a premissa da obra exposta de forma visceral. A violência é o horror do capitalismo de vigilância sem limites.

Já ‘Daredevil’ encontrou seu nicho ao ser o antídoto para o estilo pasteurizado da Marvel nos cinemas. Colocando o Demônio de Hell’s Kitchen em ruas sujas e corruptas, a série funcionava tanto como um denso drama jurídico quanto como um thriller de ação com classificação para maiores. Os confrontos em corredores da série — especialmente o plano-sequência no final do episódio 2 da primeira temporada — rivalizam com a coreografia de ‘Oldboy’. O cansaço visível do protagonista e o som seco dos impactos tornam a cena desgastante. O herói não sai ileso; ele entra sangrando e sai sangrando mais ainda, sustentado apenas pela convicção moral de que é a única barreira entre os inocentes e o crime organizado.

A desconstrução definitiva: o realismo perturbador de ‘Barry’

Se ‘The Boys’ e ‘Daredevil’ usam a violência para crítica social e tensão física, ‘Barry’ a utiliza para desmontar a própria psicologia do espectador. O que começa com uma premissa cômica de alto conceito — um matador de aluguel que decide largar a carreira para ser ator de teatro em Los Angeles — lentamente se transforma em um dos estudos psicológicos mais perturbadores da TV. Bill Hader, com sua direção cirúrgica, usa o humor não como alívio, mas como isca para o horror.

A força de ‘Barry’ como série de ação está na forma como ela filma a violência. A câmera não embeleza nada. Não há travellings elegantes, não há trilha sonora empolgante. A cinematografia é crua, despida e deliberadamente banal para mostrar o quão bárbaro e desumano aquele ato é. Quando Barry atira, o resultado não é um bando caindo de forma coreografada; é o detalhe gráfico do ferimento e a constatação fria de que aquele homem é um sociopata. É o oposto absoluto da ‘dad TV’. Não há catarse, apenas vazio.

No fim das contas, ‘Reacher’ é o fast-food perfeito: satisfaz a vontade imediata, é produzido com competência e você sabe exatamente o que vai encontrar. Mas a televisão provou que a ação pode ser algo muito mais denso e desafiador. Se você quer apenas ver o bem triunfando de forma contundente, Ritchson está lá para isso. Agora, se você quer sentir o peso de cada soco, a paranoia do tempo esgotando e o desconforto de ver a violência pelo que ela realmente é, o iceberg vai muito mais fundo.

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Perguntas Frequentes sobre séries de ação

O que significa ‘Dad TV’?

‘Dad TV’ é um termo popular para descrever séries de ação ou thriller com protagonista masculino forte, enredos diretos, violência cathártica e moralidade preto no branco. ‘Reacher’ e ‘Jack Ryan’ são exemplos recentes do estilo.

Onde assistir às séries mencionadas no artigo?

‘Reacher’ e ‘The Boys’ estão na Amazon Prime Video. ‘Barry’ e ‘Daredevil’ estão na HBO Max (este último migrará para o Disney+). ‘Justificado’ está no Star+ e ‘Banshee’ na Amazon. ’24 Horas’ está disponível no Star+.

‘Barry’ é uma comédia ou um drama?

‘Barry’ começa como uma comédia de meia hora, mas evolui para um drama psicológico perturbador ao longo das temporadas. O humor permanece, mas serve como contraste para o realismo pesado da violência e a sociopatia do protagonista.

Qual série de ação tem as melhores cenas de luta corporal?

Para lutas corporais brutais e coreografadas, ‘Banshee’ e ‘Daredevil’ são as referências. ‘Banshee’ aposta no impacto físico realista, enquanto ‘Daredevil’ usa planos-sequência longos que destacam o desgaste do protagonista durante o combate.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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