Como ‘Peaky Blinders’ reviveu o chapéu newsboy e mudou a moda

Analisamos como o Estilo Peaky Blinders reviveu o chapéu newsboy na moda masculina, diferenciando-o do ‘paddy cap’ e expondo a ironia de sua apropriação pela estética ‘alpha’ — que copiou a armadura de Tommy Shelby, mas ignorou o soldado sangrando por baixo.

Anna Wintour, a infame editora da Vogue e inspiração para Miranda Priestly em ‘O Diabo Veste Prada’, recentemente deu uma entrevista ao deixar o cargo após décadas. Perguntaram a ela por que a moda ainda importa num mundo caótico. A resposta foi cirúrgica: moda é sobre autoexpressão, uma declaração pessoal. E completou com um jabrá nos homens: ‘Quão chato seria se todos usassem apenas um terno escuro e uma camisa branca o tempo todo’. Pois é, Srta. Wintour. Os homens de ‘Peaky Blinders: Sangue, Apostas e Navalhas’ usaram exatamente o mesmo uniforme por 13 anos na tela — e, ainda assim, mudaram a moda masculina global. Quando analisamos o Estilo Peaky Blinders, não estamos apenas olhando para um figurino de época; estamos dissecando como uma estética de subclasse violenta virou o desejo de consumo de uma geração inteira.

A série que começou em 2013 e acabou de ganhar seu epílogo cinematográfico no filme ‘Peaky Blinders: The Immortal Man’ (2026), não apenas popularizou Birmingham no mapa cultural. Ela provou que a rigidez de um terno sob medida, combinada com o bruto de um chapéu de trabalhador, cria um contraste visual hipnótico. O figurino deixou de ser coadjuvante para se tornar personagem. E no centro disso tudo está um acessório que a maioria dos homens modernos jamais pensaria em usar: o chapéu newsboy.

Newsboy cap vs Paddy cap: a precisão histórica que faz toda a diferença

Newsboy cap vs Paddy cap: a precisão histórica que faz toda a diferença

A maioria das pessoas que compra o chapéu do Tommy Shelby na internet não faz ideia de que está, provavelmente, comprando o modelo errado. Existe uma diferença crucial que o departamento de figurino de ‘Peaky Blinders’ respeitou religiosamente — e que separa o visual da série do de um motorista de Uber europeu.

O chapéu que os Shelbys usam é o newsboy cap, ou boné eight-paneled. Ele é volumoso, fofo, composto por oito painéis de tecido costurados até o topoço (aquele botão no topo) e tem uma aba mais macia. É estruturalmente parente do tradicional tam o’shanter escocês e até dos bonés gigantes dos astros pop dos anos 90. Já o paddy cap (ou Irish cap, ou flat cap) é aquele modelo rígido, de aba dura e mais curta, que desce num ângulo severo da parte de trás para a frente. É o chapéu do homem comum irlandês-americano em Nova York. O da série não é esse.

O historiador de Birmingham, Carl Chinn, confirmou que a gangue real que inspirou a série usava os chapéus de aba plana. Mas o figurino da série escolheu o newsboy por um motivo puramente cinematográfico: o volume extra na copa do chapéu cria sombra sobre os olhos do ator. Repare como Cillian Murphy usa isso a favor da personagem. A aba do newsboy cobre o olhar de Tommy Shelby, escondendo suas intenções, enquanto o volume do tecido dá a ele uma silhueta imponente. Não é apenas precisão histórica (o modelo era popular de 1880 a 1930, exatamente o período da série); é direção de arte inteligente.

Como o Estilo Peaky Blinders transformou figurino em poder

O impacto do Estilo Peaky Blinders não está na sofisticação das peças, mas na subversão delas. Os homens da família Shelby vestem ternos de corte impecável, coletes abotoados, casacos de lapela e relógios de bolso. É o guarda-roupa da burguesia londrina. No entanto, eles usam essas roupas enquanto estão cobertos de fuligem de carvão, sangue seco e cinzas de cigarro. O casaco de lã grossa não é um item de luxo, é uma armadura contra o inverno de Birmingham e contra o mundo que os oprime.

Quando você assiste a uma cena de negociação entre Tommy e um político de Londres, o figurino funciona como arma retórica. O político usa um terno impecável, mas mole. Tommy usa um terno sob medida, mas com a postura de quem pode enfiar uma navalha no seu pescoço a qualquer momento. A elegância aqui não é sinônimo de classe social; é sinônimo de ameaça. A moda masculina contemporânea costuma ser assexuada ou excessivamente limpa. A série trouxe de volta o perigo. E o público sentiu o cheiro de sangue no ar.

A estética ‘alpha’ e o sequestro do visual pela internet

A estética 'alpha' e o sequestro do visual pela internet

A influência da série foi além do armário. Invadiu a internet de uma forma que distorce completamente a obra. A chamada ‘manosfera’ — aquele submundo da internet obcecado por hierarquia, masculinidade tóxica e comportamento ‘alpha’ — adotou o visual dos Peaky Blinders como se fosse um uniforme. Você vê caras em fóruns de autoajuda masculina usando o chapéu newsboy e o colete, falando sobre ‘dominar o ambiente’ como se fossem Tommy Shelby.

A ironia é colossal. Tommy Shelby é, no fundo, um homem destroçado. Ele sofre de TEPT severo da Primeira Guerra Mundial, tem ataques de pânico constantes, alucinações e é refém de suas próprias manipulações. O figurino dele não é a roupa de um macho alfa imbatível; é o escudo de um homem apavorado tentando não desmoronar em público. Os caras que copiam o visual buscando projeção de poder não entenderam o personagem. Eles viram a armadura e ignoraram o soldado sangrando por baixo. A moda foi apropriada, mas o subtexto foi completamente perdido.

Das passarelas ao asfalto: o legado real de 13 anos

É raro que uma série de TV tenha o poder de ressuscitar uma tendência de moda real e influenciar as passarelas. Mas 13 anos depois de estrear, com o lançamento de ‘Peaky Blinders: The Immortal Man’, o impacto é inegável. O newsboy cap voltou às ruas, mas também ganhou os armários de celebridades como David Beckham, que não só adotou o visual como ajudou a popularizar marcas como Kent & Curwen, que ressuscitaram o colete esportivo e o overcheck. O ‘working-class dandy’ — o dândi da classe trabalhadora — virou trend em alfaiataria.

As barbearias modernas se encheram de coletes e pomadas de cabelo. Birmingham, uma cidade que o próprio cinema britânico ignorava, virou cenário de peregrinação. Anna Wintour tinha razão sobre a moda ser uma declaração. Mas ela talvez subestimasse o poder de um terno escuro quando usado com a atitude certa — e com uma navalha escondida na aba do chapéu. O fenômeno dos Peaky Blinders provou que a audiência contemporânea não quer apenas fantasias; quer o peso, a gravidade e a narrativa que as roupas podem contar. E que, às vezes, a verdadeira elegância está na ameaça contida.

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Perguntas Frequentes sobre o Estilo Peaky Blinders

Qual a diferença entre o chapéu newsboy e o paddy cap?

O newsboy cap (usado na série) é volumoso, composto por oito painéis costurados até um botão no topo, com aba macia. O paddy cap (ou flat cap) é mais rígido, tem apenas um painel e uma aba dura e curta, com caimento severo.

Os Peaky Blinders realmente colocavam lâminas nos chapéus?

Historiadores como Carl Chinn apontam que não há evidências de que a gangue real de Birmingham costurava navalhas nas abas dos chapéus. Isso é um mito popular e um recurso dramático criado pela série para explicar o nome da gangue.

Onde assistir ‘Peaky Blinders’ e o filme ‘The Immortal Man’?

A série completa de seis temporadas está disponível na Netflix. O filme epílogo ‘Peaky Blinders: The Immortal Man’ (2026) também chegou ao catálogo da plataforma após seu lançamento nos cinemas.

Por que a estética de Tommy Shelby foi adotada pela ‘manosfera’?

Grupos focados em masculinidade ‘alpha’ veem no figurino de Tommy um símbolo de poder e dominação. A ironia é que o visual na série é a armadura de um homem com TEPT severo, e não a roupa de um líder imbatível.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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