‘Treta’ 2: como a roda de Samsara explica o final e as gerações

O ‘Treta 2 final’ não coroa vencedores na guerra geracional, mas revela a armadilha budista do Bhavachakra. Analisamos como os três venenos da mente prendem Austin, Ashley e Park na roda de Samsara, enquanto Josh e Lindsay encontram a libertação na separação.

Se você chegou ao fim da nova temporada da Netflix procurando um vencedor na guerra entre Millennials e Geração Z, você fez a pergunta errada. O Treta 2 final não entrega um campeão. Ele entrega um espelho implacável sobre a condição humana. Quando a câmera se afasta no cemitério coreano e revela o Bhavachakra — a roda da vida budista — desenhado no chão, a série deixa de ser apenas uma comédia de erros e chantagens para assumir um peso filosófico. A mensagem é clara: ninguém vence uma briga que acontece dentro de uma armadilha circular.

Como a roda de Samsara engole as gerações em ‘Treta’ 2

A imagem final não é um efeito visual puramente estético. O Bhavachakra, ou roda de Samsara, é a representação gráfica do ciclo de sofrimento no budismo. Preso à beira da roda está Yama, o senhor da morte, mordendo a estrutura para indicar que o tempo devora tudo. Dentro dela, os personagens de ‘Treta’ repetem suas cenas de agressão e falso afeto. O que os mantém girando nessa engrenagem são os três venenos da mente, frequentemente representados por animais no centro da roda: o galo da ignorância, a cobra da aversão e o porco do apego.

A ignorância de Austin e Ashley sobre quem realmente são; o apego doentio de Josh e Lindsay à estrutura de poder do clube e ao casamento falido; a aversão de todos ao conflito direto, preferindo a manipulação covarde. O roteiro constrói isso de forma cirúrgica ao longo dos episódios. Na hora, parecem apenas detalhes de cena, mas no último minuto o sentido se impõe: eles não são indivíduos livres, são operários cegos numa linha de montagem de miséria. Gerações diferentes, mesma dor, mesma inexorabilidade.

O sacrifício de Josh e a libertação pelo karma

O momento em que Josh (Oscar Isaac) assume a culpa pelo desvio de dinheiro e pelo acidente cirúrgico coberto por Chairwoman Park é o ponto de inflexão da temporada. Ele não faz isso por nobreza burguesa. Ele faz porque, pela primeira vez, alguém recusa o jogo. Ao invés de empurrar a culpa para, Josh escolhe parar de girar a roda.

A reação de Lindsay (Carey Mulligan) é o detalhe que separa um roteiro raso de um roteiro que entende de relações humanas. Ela diz que o ama enquanto ele é levado. É genuíno. Mas o fato de eles não continuarem juntos é o maior acerto da série. Ficar juntos seria o velho apego falando mais alto, a tentação de confundir gratidão com romance. Josh entende isso na prisão: ele não procura o endereço dela após sair, e ela não o procura. O verdadeiro ato de amor, aqui, é a separação. Eles quebraram o ciclo, e a liberdade de Lindsay — se casando novamente e tendo o filho que antes parecia impossível — é o karma positivo dessa ruptura.

A repetição de Austin e Ashley: o perigo do apego inseguro

Enquanto Josh e Lindsay encontram paz na distância, a Geração Z entra direto na forca. Austin e Ashley assumem a gestão do clube e, na cena final, estão tão amargos e exaustos quanto seus ex-chefes estavam no episódio 1. O motivo é pura mecânica budista: eles não curaram os venenos.

A cena em que Austin quase rompe o ciclo é reveladora. Ele vai embora, leva o pendrive, tenta começar algo novo com Eunice. Mas quando ela solta um ‘te amo’ vazio e sem convicção no telefone, ele sente o frio da insegurança. Ele volta para Ashley não por amor, mas por medo da solidão. É o apego codependente falando mais alto. Ashley, por sua vez, aceita essa volta porque sua aversão ao abandono é maior que sua ignorância sobre a toxicidade da relação. Eles não são um casal; são um espelho dos Millennials, apenas em um estágio mais precoce da mesma roda de Samsara.

Chairwoman Park e o inferno no centro da roda

No centro do Bhavachakra estão os três venenos. E no centro narrativo de ‘Treta’ está Chairwoman Park. A matriarca da Geração Silenciosa passa a temporada inteira proclamando que o amor altruísta não existe, que tudo é interesse. Ela usa as falhas dos mais jovens como moeda de troca.

Mas a cena no cemitério desconstrói essa aparente vitória. Ela visita o túmulo do primeiro marido, aquele que ela abandonou anos atrás. A mulher que pregava o cinismo absoluto está consumida por um arrependimento que ela julgava impossível. A ignorância sobre suas próprias necessidades emocionais, o apego ao poder financeiro e a aversão à vulnerabilidade a transformaram na figura mais rica e mais miserável da história. Ela não venceu a batalha das gerações; ela é o motor que a mantém girando.

O veredito: não existem vencedores em Samsara

A grande lição do Treta 2 final é que a competição geracional é uma ilusão de ótica. Millennials e Gen Zs podem usar roupas diferentes, ter gírias diferentes e chantagear uns aos outros com tecnologias diferentes, mas estão todos presos à mesma anatomia do sofrimento. A única vitória possível é perceber que a roda existe e dar um passo para fora dela — como Josh fez, mesmo que isso tenha custado sua prisão.

O resto continua girando na engrenagem. Austin e Ashley podem ainda acordar para o ciclo em que se meteram, ou podem envelhecer e se tornar a próxima Chairwoman Park, amargurados em escritórios luxuosos chorando por escolhas do passado. A série não dá respostas fáceis, apenas um espelho. E, sejamos sinceros, é assustador o quanto dessa roda nós reconhecemos na nossa própria rotina.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Treta’ 2

O que significa o desenho no chão no final de ‘Treta’ 2?

O desenho é o Bhavachakra, ou roda de Samsara, um símbolo budista que representa o ciclo infinito de sofrimento, morte e renascimento impulsionado pela ignorância, apego e aversão.

Josh e Lindsay ficam juntos no final de ‘Treta’ 2?

Não. Eles se separaram definitivamente. O roteiro usa essa distância como um ato de libertação: ficar juntos seria ceder ao apego, enquanto a separação permite que ambos quebrem o ciclo tóxico e reconstruam suas vidas.

Por que Austin volta para Ashley no final?

Austin volta por medo da solidão, não por amor. A declaração vazia de Eunice desperta sua insegurança, fazendo-o buscar o conforto codependente de Ashley. Eles repetem os erros dos Millennials por não curarem seus venenos emocionais.

Quem é Chairwoman Park na metáfora budista da série?

Ela representa o centro da roda de Samsara, onde habitam os três venenos (ignorância, apego e aversão). Apesar de ser a ‘vencedora’ aparente do conflito geracional, seu arrependimento no cemitério revela que ela é a mais prisioneira da roda.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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