Analisamos como a Onipotência em ‘Boruto Two Blue Vortex’ não é um erro de roteiro, mas o limite natural da franquia. Entenda por que o fim do power scaling sela a morte do ninja tático e torna impossível qualquer volta às raízes de ‘Naruto’.
Lembra da névoa no País das Ondas? Lembro do Time 7 exausto, suado, respirando pela boca, mal conseguindo sobreviver ao peso da espada de Zabuza. O Kakashi desmaiava de exaustão após usar o Sharingan. Aquele era o limite do mundo ninja. Pular quase duas décadas adiante e encarar a Onipotência — um poder que reescreve a memória de todos os seres vivos do planeta em um estalar de dedos — é um abismo difícil de processar. A internet adora gritar que a escala de poder descontrolada é o grande defeito da obra, mas vou além: o power scaling quebrado em Boruto Two Blue Vortex não é um problema de roteiro preguiçoso. É o limite lógico e natural de uma franquia que atingiu o teto de sua própria premissa. O ninja tático está morto.
Do kunai à Onipotência: o abismo de Boruto Two Blue Vortex
Para entender o tamanho do colapso, precisamos falar de shinjutsu. No mangá de Boruto: Two Blue Vortex, somos apresentados à Onipotência, uma técnica que faz o Tsukuyomi Infinito de Madara parecer um truque de mágica de rua. Não é um genjutsu que prende você em uma árvore; é uma alteração da realidade em escala global que muda as memórias e a própria história das pessoas. Quando Eida aciona isso sem nem sequer entender a magnitude do que faz, a série sela seu destino: os vilões de Shippuden — Itachi, Pain, o próprio Madara — viraram peões de um tabuleiro que não existe mais.
Esse é o ponto de não retorno. Uma vez que o roteiro introduz deuses que alteram a realidade global como efeito colateral de uma emoção adolescente, qualquer volta para o combate físico baseado em desgaste se torna narrativamente impossível. A escala não subiu; ela colapsou sobre si mesma.
Kaguya e o ponto de não retorno da franquia
A culpa não é de Boruto. O rastro começa no final da Quarta Grande Guerra Ninja. Lembro de assistir ao episódio onde Madara assume a forma do Jinchuuriki dos Dez Caudas e achamos, ingenuamente, que aquele era o ápice do poder shinobi. Ele era a encarnação do chakra, o ápice da luta marcial e tática. Então, Kaguya Otsutsuki cai do céu como um alienígena de filme B e joga Madara fora como lixo reciclável. Aquele foi o momento em que o creme dental saiu do tubo.
A transição foi brutal: passamos de lendas ninja baseadas em estratégia para deuses extraterrestres. E quando Naruto Next Generations decidiu fazer do clã Otsutsuki os antagonistas centrais — colocando o novo Time 7 contra alienígenas antes mesmo de terminarem os exames Chunin —, o contrato com o público foi alterado. O universo não era mais sobre ninjas furtivos; era sobre entidades cósmicas.
Por que Sasuke vs. Deidara é impossível no cenário atual
Aqui está o ponto central que a maioria dos fãs se recusa a aceitar: a escala de poder quebrada não é um defeito da obra, é o limite da franquia. Pense na mecânica de uma luta tática. O que a torna envolvente? O risco, a exaustão, a limitação de recursos. A batalha de Sasuke contra Deidara funciona porque ambos estão operando no limite de suas resistências, usando o terreno, se escondendo, planejando três passos à frente.
Agora, transporte isso para o cenário atual. Quando Boruto usa o Rasengan Uzuhiko, ele canaliza a rotação do próprio planeta planeta como ataque. Não é mais chakra corporal esgotando após dez jutsus; é cinética planetária. Como você constrói tensão com personagens que apagam memórias ou canalizam a força de rotação da Terra? A resposta direta: não constrói. Esconder-se atrás de uma árvore com um selo explosivo contra alguém que manipula a realidade não é estratégia, é comédia. Já vi essa degeneração estrutural em Dragon Ball e Bleach: quando os personagens atingem o nível de deuses, a luta tática morre porque o terreno do conflito muda do físico para o metafísico.
A impossibilidade do recuo e a certidão de óbito do ninja
A escalada de Boruto Two Blue Vortex traz uma consequência brutal para a longevidade da franquia: este precisa ser o fim. O mangá está apenas engrenando, mas o nível de poder já beira o absurdo absoluto. Heróis e vilões já operam em um patamar além do divino. Se tentarem um ‘reset’ mágico para voltar aos tempos de missões rank D e emboscadas na floresta, quem vai comprar essa ideia? Depois de ver a realidade ser reescrita, nenhuma ameaça de um espadachim de aluguel vai gerar tensão.
Como crítica, assumo o risco de dizer: pare de exigir que a série volte às suas raízes táticas. Isso é saudosismo de quem não aceitou o funeral. A premissa original de Naruto foi consumida por sua própria necessidade de escalar. O power scaling quebrado é, na verdade, a liberdade de a franquia ser puramente espetáculo. Aceite que os ninjas morreram e abrace o delírio dos deuses. Se Two Blue Vortex é realmente o limite do que esse universo pode oferecer, só nos resta sentar e aproveitar a destruição do teto em cada quadro. Afinal, não há como lutar de forma furtiva quando o oponente é o próprio tecido da realidade.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Boruto Two Blue Vortex’
O que é a Onipotência em Boruto?
A Onipotência (ou Shinjutsu) é uma habilidade divina introduzida na franquia que permite reescrever a realidade e as memórias de todas as pessoas no planeta simultaneamente. No mangá, Eida aciona esse poder involuntariamente.
O power scaling quebrou em Naruto ou só em Boruto?
O ponto de ruptura ocorreu no final de ‘Naruto Shippuden’ com a introdução de Kaguya Otsutsuki, quando a série trocou combates táticos por entidades cósmicas. ‘Boruto’ apenas levou essa lógica ao extremo.
O que é o Rasengan Uzuhiko?
É uma variação do Rasengan usada por Boruto em ‘Two Blue Vortex’ que canaliza a energia de rotação do próprio planeta, evidenciando como as lutas deixaram de ser baseadas em chakra corporal para operar em escala planetária.
Onde ler Boruto Two Blue Vortex?
O mangá é lançado oficialmente em inglês pela Viz Media no site Shonen Jump e no app MANGA Plus by Shueisha. Os capítulos são lançados mensalmente.

