Em ‘A Múmia’, Lee Cronin e James Wan trocam a aventura pulp pelo terror doméstico e visceral. Analisamos como a mudança de gênero ressignifica a franquia de 96 anos, por que o estilo de ‘A Morte do Demônio’ foi crucial e o real motivo de Brendan Fraser nunca poder aparecer.
A franquia de ‘A Múmia’ carrega 96 anos de bagagem, e a maioria dela pesa como uma tumba de pedra. Entre o expressionismo gótico de Boris Karloff nos anos 30 e a aventura pulp de Brendan Fraser no fim dos anos 90, a criatura virou sinônimo de escaravelhos voadores, catacumbas armadilhadas e sarcófagos que é melhor não mexer. É exatamente esse conforto de gênero que A Múmia Lee Cronin vem destruir. O novo filme arranca a criatura da areia do deserto e a enfia direto na garganta do terror doméstico.
De pirâmides ao corredor de casa: o funeral da aventura
Quando um estúdio anuncia um reboot, a reação padrão do público é o cansaço. Mas o que Lee Cronin e o produtor James Wan fizeram aqui vai além de refazer a mesma fórmula com atores mais jovens. Eles olharam para o legado da Universal — das raízes de terror puro da era Karloff, passando pelo estilo B da Hammer, até o fracasso do ‘Dark Universe’ de Tom Cruise — e tomaram uma decisão radical: o filme não seria uma aventura, seria um filme de família. Perturbadoramente familiar.
Em entrevista recente, Cronin foi cirúrgico sobre a intenção de subverter o que o público espera do título. Segundo o diretor, a oportunidade de fazer algo novo nasce justamente da imagem que já temos na cabeça. ‘Quando você pensa em uma múmia, todo mundo tem uma referência do que isso é. E você sai para realmente mudar essa perspectiva’, explicou. Restrições de direitos autorais sobre a mitologia clássica da Universal obrigaram a dupla a limpar a lousa. Em vez de lamentar o que não podiam usar, eles ‘cataram as cerejas’ do passado para manter e descartaram o resto. O resultado é uma obra que se recusa a ser o enésimo filme de tumba amaldiçoada.
O sarcófago na sala de jantar e o horror da paternidade
A mudança de gênero não é apenas estilística; ela é estrutural. O filme acompanha a família Cannon: Charlie (Jack Reynor, de ‘O Casal Perfeito’), um jornalista americano, sua esposa Larissa (Laia Costa, de ‘A Roda do Tempo’) e seus três filhos. Em uma viagem de trabalho ao Egito, a filha do meio, Katie, desaparece. Oito anos depois, ela ressurge dentro de um sarcófago recém-descoberto, sem envelhecer um dia e sem explicar como sobreviveu.
É aqui que o filme troca o chicote e o revólver pela angústia paralisante da patência. O horror de ‘A Múmia’ não está no perigo de uma armadilha de dardos venenosos em uma pirâmide, mas na impossibilidade de abraçar sua própria filha sem medo. Quando Katie começa a exibir comportamentos sobrenaturais e grotescos, o medo se desloca do desconhecido para o íntimo. Cronin usa o confinamento da casa da família como a verdadeira tumba. A câmera se demora nos rostos dos pais tentando processar o luto interrompido e o terror subsequente, criando uma tensão que o CGI de escorpiões gigantes jamais conseguiria.
Por que Brendan Fraser realmente não pode aparecer
Quando o projeto foi anunciado, fãs imediatamente construíram a expectativa de um retorno afetivo. O boato de que Brendan Fraser faria uma participação especial se espalhou com velocidade, forçando a conta oficial da Blumhouse no Twitter a postar repetidas vezes, em letras garrafais: ‘BRENDAN FRASER IS NOT IN LEE CRONIN’S A MÚMIA’. A insistência do estúdio em negar soa quase como um desespero em proteger o tom do filme.
Wan e Cronin brincaram com a situação em entrevistas, comparando uma suposta aparição de Fraser à lenda urbana do fantasma em ‘Three Men and a Baby’. Mas, por trás da piada, há uma verdade crítica para o novo filme: enfiar o Rick O’Connell de 1999 em uma história de terror familiar e visceral seria o equivalente a colocar o Fred Astaire no meio de um documentário do Ari Aster. Quebraria o pacto de tom que o filme trava com a plateia. A presência de Fraser, por mais afetiva que seja para o público, seria um lembrete de que aquilo é um produto de estúdio, minando a atmosfera opressora que Cronin construiu com tanto cuidado.
A anatomia do susto: o DNA de ‘A Morte do Demônio’
Quem acompanhou ‘A Morte do Demônio: A Ascensão’ (Evil Dead Rise) sabe do que Cronin é capaz. O diretor tem um talento particular por pegar o horror sobrenatural e esmagá-lo dentro de espaços apertados e cotidianos. Naquele filme, ele tirou o mal do clássico chalé na floresta e o colocou no andar de cima de um prédio público. Em ‘A Múmia’, a lógica é a mesma. O deserto é o ponto de partida, mas o terreno do horror é o lar — e os efeitos práticos de corpo inteiro, marca registrada de Cronin, prometem uma fisicalidade no terror que o CGI não alcança.
Com a produção conjunta da Atomic Monster de Wan e a Blumhouse, o filme carrega o DNA de dois dos maiores construtores de tensão da atualidade. As reações da imprensa que já viu o filme destacam justamente os ‘sustos viscerais’, o que confirma a suspeita: a dupla não está interessada em fazer um filme classificação 14 anos para adolescentes em busca de diversão. Eles querem desconforto. O elenco coadjuvante sólido — incluindo May Calamawy (‘Cavaleiro da Lua’) — sustenta a gravidade da situação, recusando-se a piscar o olho para o tom de comédia que marcou os filmes de Fraser.
A nova versão de ‘A Múmia’ é um risco calculado e necessário. Ela assume que uma franquia de quase um século não pode sobreviver apenas de nostalgia. Se você busca a emoção leve dos anos 90 e aquele senso de aventura descompromissada, o streaming está cheio de opções clássicas. Mas se você quer ver como o mito pode ser desenterrado para assustar de verdade, dentro da sua própria casa, Cronin e Wan entregam exatamente o que prometem: um funeral para a aventura e um renascimento visceral.
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Perguntas Frequentes sobre ‘A Múmia’ (2026)
Brendan Fraser está no novo filme ‘A Múmia’ de Lee Cronin?
Não. A Blumhouse negou o boato veementemente em suas redes sociais. A presença do ator quebraria o tom de terror sério e visceral proposto pelos criadores.
O novo ‘A Múmia’ é de terror ou aventura?
É um filme de terror doméstico e sobrenatural. Diferente dos filmes de 1999 e 2001 estrelados por Fraser, não há aventura pulp ou alívio cômico. O foco é o horror dentro de uma família.
Preciso ver os filmes antigos para entender ‘A Múmia’ de 2026?
Não. O filme é um reboot independente. Devido a questões de direitos autorais, ele não usa a mitologia clássica da Universal e funciona como uma história original.
Quem dirige e produz ‘A Múmia’ (2026)?
O filme é dirigido por Lee Cronin (‘A Morte do Demônio: A Ascensão’) e produzido por James Wan (Atomic Monster) em parceria com a Blumhouse Productions.
Qual a classificação indicativa de ‘A Múmia’ de Lee Cronin?
Embora a classificação oficial ainda não tenha sido fixada, as prévias para a imprensa indicam um filme focado em sustos viscerais e horror corporal, esperando-se uma classificação restritiva (R/16 anos ou superior).

