Em ‘Superstore’, as piadas de varejo escondem uma das sátiras mais afiadas ao capitalismo da TV recente. Analisamos como a série supera o rótulo de ‘cópia de The Office’ ao transformar o chão de fábrica em arena de luta de classe, provando que o verdadeiro vilão não tem rosto.
Chamar Superstore de ‘a nova The Office’ é um elogio com preguiça. É óbvio que o DNA da série criada por Justin Spitzer — que, não por acaso, foi roteirista do escritório de Scranton — está lá: o chefe excêntrico que quer ser pai dos funcionários, o casal de ficante-ficante, o assistente que leva o cargo longe demais. Mas parar na superfície das semelhanças é perder o maior truque da série. Enquanto ‘The Office’ ria do absurdo da burocracia corporativa, ‘Superstore: Uma Loja de Inconveniências’ morde a mão que a alimenta. A série usa o varejo não como pano de fundo para piadas de quem-trabalha-junto-fica-junto, mas como uma arma afiada contra o capitalismo.
O DNA de ‘The Office’ e a mutação de classe
A linhagem é direta. Depois que a versão americana de ‘The Office’ provou que o mockumentário de escritório funcionava, Hollywood tentou replicar a fórmula à exaustão. ‘Confusões de Leslie’ levou a câmera na cara para o serviço público, ‘Família Moderna’ roubou o formato para a sala de estar, e ‘Brooklyn Nine-Nine: Lei e Desordem’ vestiu os personagens com farda de polícia. Todos shows excelentes, mas todos essencialmente familiares. A ‘família no trabalho’ — conceito lapidado por ‘The Office’ a partir de ‘Mary Tyler Moore’ — era o fim em si.
Spitzer sabia disso. Quando montou a Cloud 9, a loja de departamentos monolítica de ‘Superstore’, ele pegou os tropos familiares e os inseriu em um ecossistema onde o capital não dorme. O paralelo entre Amy Sosa (America Ferrera) e Jonah Simms (Ben Feldman) com Pam e Jim é claro: ela, cínica e presa; ele, otimista e privilegiado. A química ácida entre os dois funciona porque o roteiro entende que a tensão não vem apenas do ‘será que não será?’, mas do choque de classe. Jonah é o garoto de colher de prata fazendo trabalho braçal pela primeira vez; Amy é a latina que abandonou a faculdade e vê a loja não como um palco para piadas, mas como uma armadilha de aluguel. Isso eleva a banalidade do flerte para algo mais urgente.
Como a Cloud 9 transforma o varejo em sátira anticapitalista
É aqui que a série deixa de ser uma cópia e se torna um statement. Em ‘The Office’, o chefe Michael Scott é o vilão cômico, mas a Dunder Mifflin, no fundo, é só uma empresa de papel mal administrada. O sistema não é o problema; o cara incompetente no comando é. Em ‘Superstore’, o gerente Glenn é um Michael Scott com uma dose extra de bondade cristã do Ned Flanders, mas ele não é o vilão. O vilão não tem rosto. O vilão é a Corporação.
A Cloud 9 é descrita como um palácio de comércio sem alma, iluminado por lâmpadas fluorescentes. A série constrói um contraste genial entre a fachada de ‘lugar mais feliz da Terra’ — com seus sorrisos crachá e políticas de atendimento — e a realidade brutal dos bastidores. A corporação rouba a privacidade dos funcionários com câmeras, cronometra intervalos a segundo e, num arco brilhante da primeira temporada, obriga Glenn a demitir alguém para poder dar licença-maternidade não remunerada a Cheyenne. A sátira é tão afiada que, muitas vezes, as piadas físicas histéricas — como a selvageria dos clientes em busca de ofertas de Black Friday — funcionam como um espelho do comportamento humano quando o consumo é tratado como religião.
Solidariedade de classe: quando a família é o sindicato
Enquanto ‘The Office’ nos pedia para torcer pela família disfuncional de Scranton, ‘Superstore’ percebe que a família no varejo só existe à margem do sistema. Os funcionários da Cloud 9 não se unem porque amam o trabalho; eles se unem porque são os únicos que entendem o desespero de depender de um emprego que não te dá folga remunerada. A série atinge o ápice dessa crítica quando Amy tenta sindicalizar a loja — um arco que ‘The Office’ jamais ousaria tocar por medo de perder o apelo universal.
O destaque do elenco vai para Lauren Ash como Dina. Ela é a versão da série do Dwight Schrute, a gerente assistente que segue as regras com rigor policial. Mas onde Dwight era um fazendeiro alienado do mundo moderno, Dina é uma mulher tentando sobreviver em um sistema patriarcal e corporativo que exige que ela seja uma máquina. A atriz consegue a mágica de ser exagerada na comédia física, enquanto revela camadas de vulnerabilidade que fazem de Dina uma pessoa de verdade, e não apenas uma cartoon de terno.
O final imperfeito e a vitória íntima
Não vamos romantizar tudo. A sexta e última temporada de ‘Superstore’ tropeçou feio. A pandemia de COVID-19 interrompeu os planos de roteiro de forma brutal — um episódio em duas partes é literalmente cortado pelo surto — e a energia da série sentiu o baque. A ausência temporária de America Ferrera no começo da temporada também deixou um buraco emocional difícil de preencher. Foi um pouso turbulento.
Mas o episódio final resgata a alma do show. Quando as luzes da Cloud 9 se apagam pela última vez, o fechamento é amargo e doce na medida certa. Ele entende que, no varejo, não há vitórias épicas contra o sistema. Há apenas a dignidade de sobreviver mais um dia ao lado de pessoas que você aprendeu a amar enquanto a esteira rolava. O final não entrega uma redenção corporativa barata; ele entrega a vitória pequena e íntima de quem recupera a própria humanidade.
Se você está na sua 800ª rewatch de ‘The Office’ procurando pelo mesmo conforto, ‘Superstore’ tem o humor e o coração para suprir essa falta. Mas ao trocar o escritório de papel pelo chão de cimento do varejo, a série faz algo que seu antecessor nunca tentou: ela olha para a classe trabalhadora e diz, sem rodeios, que o sistema é o problema. E que, às vezes, a única forma de resistência é rir do absurdo enquanto você passa o código de barras.
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Perguntas Frequentes sobre Superstore
Onde assistir Superstore?
No Brasil, ‘Superstore’ está disponível na Netflix. A plataforma concentra todas as seis temporadas da série.
Superstore é uma cópia de The Office?
Não. Embora compartilhem o formato mockumentário e o criador Justin Spitzer tenha trabalhado em ‘The Office’, ‘Superstore’ evolve a fórmula. Enquanto a série de Scranton foca na burocracia e no chefe incompetente, ‘Superstore’ usa o varejo para fazer uma crítica direta ao capitalismo e à exploração de trabalhadores.
Quantas temporadas tem Superstore?
A série tem 6 temporadas, totalizando 113 episódios. O último episódio foi exibido em março de 2021 nos EUA.
Por que America Ferrera saiu de Superstore?
America Ferrera deixou a série na sexta temporada para focar em projetos como diretora e produtora, além de assuntos familiares. No entanto, ela retornou para o episódio final para encerrar o arco de Amy Sosa.

