Muito além da nostalgia, os melhores episódios de ‘Cheers’ são uma aula de roteiro que definiu e refinou tais tropos antes de ‘Friends’ ou ‘HIMYM’. Analisamos 10 capítulos que provam por que a série ainda supera as sitcoms atuais em maturidade e coragem narrativa.
Se você acredita que ‘Friends’ inventou a dinâmica de ‘família encontrada’ ou que ‘Como Eu Conheci Sua Mãe’ revolucionou o tropo do ‘will-they-won’t-they’, é hora de sentar no banco do bar e rever seus conceitos. A gramática desses elementos foi não apenas estabelecida, mas refinada com precisão cirúrgica anos antes, num bar de Boston. Reduzir ‘Cheers’ a um exercício de nostalgia é ignorar que a série funciona como uma aula magna de roteiro. Ao revisitar os melhores episódios Cheers, fica óbvio que eles não sobrevivem por saudosismo, mas porque resolvem conflitos e arcos de personagens com uma maturidade que as sitcoms atuais ainda tentam alcançar.
O programa da NBC fez mais do que popularizar dinâmicas que se tornaram clichês nas décadas seguintes: deu profundidade psicológica a elas. Um local de trabalho como substituto do núcleo familiar? ‘Cheers’. Uma tensão romântica estendida que mantinha a audiência viciada? ‘Cheers’. E quando os roteiristas decidiam pegar esses tropos e virá-los de cabeça para baixo, entregavam televisão que, até hoje, deixa o produto atual no chinelo.
10. ‘Give Me a Ring Sometime’ — O piloto perfeito que ‘Community’ tentou emular
A primeira temporada de ‘Cheers’ foi um fracasso de audiência. A série quase foi cancelada antes de encontrar seu público. Mas olhar para o episódio piloto hoje é testemunhar um raro momento de perfeição estrutural. Em vez de apresentar os personagens com exposição constrangedora, a câmera simplesmente entra no bar e deixa a dinâmica fluir. A piada do telefone em que Diane acha que Sam está flertando com ela, mas ele está apenas anotando um pedido, constrói toda a dinâmica de poder do casal em segundos. É o oposto da mão pesada dos pilotos modernos, que sentem necessidade de explicar suas piadas e premissas nos primeiros dez minutos.
9. ‘What Is…Cliff Clavin?’ — High-concept que funciona (e zomba de si mesmo)
Episódios de alto conceito em sitcoms frequentemente naufragam na própria pretensão. Mas ‘Cheers’ acertou a mão com a participação de Cliff no Jeopardy!. O carteiro acumula uma fortuna de 22 mil dólares, apenas para perder tudo na rodada final ao entregar uma resposta pedante e absurdamente errada — provando que seu conhecimento é apenas fachada. A genialidade está no tom: o diálogo é abertamente ridículo, abraçando o ‘cheesiness’ que definia o humor da série. A trama B, onde Sam recebe o troco por ser um mulherengo inveterado com todas as mulheres de sua agenda se voltando contra ele, é uma justiça poética que rola organicamente, sem o moralismo forçado de produções contemporâneas.
8. ‘Dinner at Eight-ish’ — A bottle episode que domina o caos
Frasier e Lilith se mudam juntos e convidam Sam e Diane para um jantar. O que poderia ser um cenário simples explode em uma avalanche de conflitos onde, toda vez que uma crise é resolvida, outra emerge imediatamente. É a execução impecável de uma ‘bottle episode’, um desafio técnico que exige timing cômico afiado para não sufocar o espectador. A piada recorrente do casaco que ninguém consegue guardar direito espelha o descontrole emocional dos quatro. Bebe Neuwirth, Kelsey Grammer, Ted Danson e Shelley Long devolvem a bola com uma velocidade que sitcoms de câmera única de hoje morreriam para ter.
7. ‘One For the Road’ — O final que ‘Como Eu Conheci Sua Mãe’ não teve coragem de fazer
Se há algo que a era moderna nos ensinou é que até as maiores sitcoms tropeçam feio na hora de fechar a cortina. Finais apressados, desvios de personagem bizarros ou uma necessidade doce de agradar fãs estragam o legado de séries inteiras. ‘One For the Road’ desafia isso entregando um desfecho que entende exatamente o que fez de ‘Cheers’ especial. Os roteiristas acessam a emoção do fim sem transformar o episódio em um choro coletivo artificial. A cena final, com Sam sozinho no bar atendendo a um cliente que entra pela porta, é um fechamento perfeito: a vida continua, o bar permanece, mas a era daquele grupo específico acabou. Honra ao arco de cada pessoa, deixando a porta entreaberta por respeito à vida que segue, não por covardia.
6. ‘Bar Wars II: The Woodman Strikes Back’ — O modelo definitivo do running gag
A rivalidade entre o Cheers e o Gary’s Olde Towne Tavern deveria ser o manual de bolso para qualquer série de comédia que tente sustentar uma piada recorrente ao longo de múltiplas temporadas. A competição pelas melhores Bloody Marys neste episódio da sétima temporada é caótica, hilária e repleta de reviravoltas imprevisíveis. A graça está na escalação: as tropelias e os golpes de baixo nível vão escalando a cada minuto, tornando o episódio cada vez mais insano. A sequência consegue superar o já excelente primeiro confronto das barracas, provando que uma sequência pode, sim, superar o original quando o roteiro entende que o exagero precisa ter lógica interna.
5. ‘Where There’s a Will’ — A família disfuncional sem o filtro do politicamente correto
Um cliente terminal chamado Malcolm deixa 100 mil dólares para o pessoal do bar após eles ajudá-lo a realizar seu último desejo. O que poderia ser um episódio lacrimoso rapidamente se transforma em uma exposição crua e sem filtros das melhores e piores facetas daquele grupo. Eles se unem para apoiar alguém, mas logo estão calculando quanto cada um vai receber antes mesmo do homem falecer. Equilibrar generosidade e mesquinhade sem julgar os personagens é um truque que a TV atual raramente consegue, com medo de tornar seus protagonistas ‘desagradáveis’. ‘Cheers’ sabia que famílias de verdade — mesmo as escolhidas — são disfuncionais, gananciosas e pequenas. E não havia problema nenhum em mostrar isso.
4. ‘Pick A Con…Any Con’ — O absurdo com os pés no chão
Quando o Coach é enganado pelo amigo George, a equipe recorre ao vigarista Harry ‘The Hat’ Gittes para recuperar o dinheiro. O que se segue é um duelo de trambiqueiros que abraça a loucura do gênero sitcom sem deixar a trama descambar para o ridículo sem salvação. É o tipo de premissa que, nas mãos de roteiristas menos capacitados de hoje, soaria forçada ou excessivamente autoconsciente. Em ‘Cheers’, funciona porque o mundo do bar já havia sido estabelecido como um espaço onde a lógica da vida real faz curvaturas elegantes para acomodar a piada, sem quebrar as regras do próprio universo.
3. ‘I Do, Adieu’ — O fim do casal tóxico (e a coragem de deixar ir)
Uma realidade dura ao reassistir ‘Cheers’ hoje é perceber que a relação de Sam e Diane não é romântica; é tóxica. Eles trazem à tona o pior um do outro. No entanto, ‘I Do, Adieu’ justifica por que o público investiu tanto tempo neles. Diane finalmente escolhe a si mesma, decidindo ir terminar seu manuscrito, com a ressalva de que voltará. E o que Sam faz? Ele apoia a decisão, dizendo-lhe para ter uma boa vida. O episódio faz o que é melhor para os personagens, mesmo que a audiência odiasse ver o casal separado. É uma recusa radical em servir ao fan service barato que estragou relacionamentos ficcionais nas décadas seguintes.
2. ‘Veggie-Boyd’ — Comédia física e timing que superam o legado de Lucy
Woody Harrelson é um virtuose da comédia física nesta série, e ‘Veggie-Boyd’ é o ápice de suas habilidades. Woody consegue um comercial para uma bebida horrível, o Veggie Boy, e entra em crise moral por ter que dizer a única fala: ‘Eu gostei’. A solução, claro, é Frasier hipnotizá-lo para que fique obcecado pelo produto. O episódio opera como o sucessor espiritual direto do clássico comercial de Vitameatavegamin de ‘I Love Lucy’. Em vez de ficar bêbado, Woody despenca em uma obsessão perturbada, ficando arrasado quando descontinuam a bebida. De quebra, ainda ganhamos uma piada de psicologia incrivelmente à frente de seu tempo para 1990: Lilith desprezando Freud de forma hilária.
1. ‘Endless Slumper’ — A coragem de enfrentar o drama sem virar PSA
Este é, sem dúvida, o topo absoluto entre os melhores episódios Cheers porque faz algo que a TV moderna ainda insiste em errar: trata do alcoolismo de Sam Malone sem transformar o assunto em uma propaganda de utilidade pública constrangedora. Sam empresta sua tampinha de garrafa da sorte — um artefato de seu último gole antes da recuperação — a um arremessador de beisebol em crise. Sem seu amuleto psicológico, Sam mergulha em uma ansiedade palpável e na tentação real de recaída. A cena em que ele serve uma cerveja para um cliente e a câmera foca apenas em sua mão tremendo segurando o copo diz mais sobre recaída do que qualquer monólogo dramático. O episódio nunca faz piada da doença, mas também nunca perde o tom de comédia. É realismo puro embutido em um formato leve, um truque de equilibrismo que pouquíssimos ousam tentar hoje.
No fim das contas, o legado de ‘Cheers’ não se sustenta na graça de um cenário nostálgico, mas na engenharia invisível de seus roteiros. Enquanto as sitcoms atuais frequentemente confundem referências com humor e quebra de quarta parede com profundidade, o bar de Boston segue de pé como um lembrete de que o verdadeiro desafio da comédia não é fazer o espectador rir, mas fazer com que ele se importe com quem está rindo. Fica a pergunta: quantos showrunners de hoje têm a coragem de deixar seus personagens serem tão mesquinhos, falhos e humanos quanto a turma do Sam?
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Perguntas Frequentes sobre ‘Cheers’
Onde assistir a série ‘Cheers’?
No Brasil, ‘Cheers’ está disponível na íntegra (11 temporadas) no Amazon Prime Video e no Paramount+.
Quantas temporadas e episódios tem ‘Cheers’?
A série tem 11 temporadas, totalizando 275 episódios. Foi exibida originalmente entre 1982 e 1993 na NBC.
‘Cheers’ e ‘Frasier’ são conectados?
Sim. ‘Frasier’ é um spin-off direto de ‘Cheers’. O personagem Frasier Crane, interpretado por Kelsey Grammer, sai do bar de Boston no final da série e se muda para Seattle, dando início à sua própria série que durou 11 temporadas.
Por que Diane Chambers saiu de ‘Cheers’?
A atriz Shelley Long decidiu deixar a série no final da 5ª temporada (1987) para focar em sua carreira no cinema e passar mais tempo com a família. A personagem Diane foi escrita de forma definitiva, indo terminar seu livro, o que rendeu o excelente episódio ‘I Do, Adieu’.
Qual o episódio mais assistido de ‘Cheers’?
O episódio final, ‘One For the Road’ (8º na nossa lista), é o mais assistido da história da série e um dos finais mais vistos da TV americana, atraindo quase 93 milhões de telespectadores em sua exibição original em 1993.

