Como ‘WandaVision’ reinventou o MCU e o formato das séries de heróis

Analisamos a dupla revolução de ‘WandaVision’: como a série acabou com o gueto dos spin-offs no MCU ao tornar a TV canônica e usou o formato de sitcom como sintoma de luto, trocando a ação por um estudo de personagem devastador.

Imagine pedir a um estúdio que fatura bilhões com explosões para fazer um show onde a heroína passa a maior parte do tempo cozinhando um jantar de Ação de Graças em preto e branco, com risadas gravadas ao fundo. Parece absurdo, mas é exatamente a aposta que mudou a história da Marvel na TV. Quando estreou, WandaVision não era apenas um risco criativo; era um manifesto. Ao trocar os socos por um estudo clínico sobre o luto e ao usar a estrutura da sitcom como armadilha narrativa, a série operou uma dupla revolução: provou que a TV do Universo Cinematográfico Marvel poderia ser canônica de verdade e subverteu o próprio gênero de heróis de dentro para fora.

Como WandaVision acabou com o gueto dos spin-offs no MCU

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Antes de 2021, existia uma divisão de classes clara na Marvel. O cinema era a grande aristocracia, e a televisão, o gueto. Produções como ‘Agents of S.H.I.E.L.D.’ e ‘Agent Carter’ até conseguiam arrancar uma participação coadjuvante aqui ou ali, mas viviam à margem da trama principal — eram complementos caros, nunca essenciais. Os shows da Netflix, como ‘Daredevil’, então, habitavam um universo paralelo que o cinema fazia questão de ignorar. A conexão era uma via de mão única e frustrante.

WandaVision destruiu essa hierarquia. Foi a primeira produção feita sob a batuta direta de Kevin Feige para o Disney+, inaugurando a Fase Quatro, e não à toa: a série pegou atores de peso do cinema (Elizabeth Olsen e Paul Bettany) e colocou-os para continuar uma trama que o longa-metragem deixou no gancho. A showrunner Jac Schaeffer não expandia o universo; ela escrevia o universo. A morte de Vision em ‘Vingadores: Guerra Infinita’ e o trauma do Blip não foram apenas citados — foram o motor psicológico da história. E o impacto reverberou: a série explicou, de forma visceral e trágica, por que Wanda se tornaria a vilã em ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’. Depois dela, séries como ‘Loki’ e ‘Falcão e o Soldado Invernal’ tiveram que carregar o peso canônico que ela impôs. Até gerou seu próprio desdobramento em ‘Agatha Desde Sempre’. A TV deixou de ser o quintal dos heróis de segunda.

O luto como formato de TV: por que as risadas gravadas são o mecanismo perfeito

A revolução hierárquica do MCU é metade da história. A outra metade é a revolução estética. A série poderia facilmente ter sido um thriller de espionagem mística ou um procedural de caça às bruxas. Em vez disso, escolheu a sitcom. E não por ‘quirkiness’ gratuita — o formato de comédia de situação é o mecanismo perfeito para contar uma história sobre negação.

Ao obrigar o espectador a acompanhar homenagens a ‘The Dick Van Dyke Show’ e ‘I Love Lucy’ nos primeiros episódios, o show nos coloca exatamente na mesma posição que os moradores de Westview: nós somos o público da ficção de Wanda. Nós rimos das piadas ensaiadas, nós ignoramos as gafes estranhas, nós aceitamos a artificialidade porque é mais confortável do que encarar a verdade. Quando a paleta de cores muda e a série evolui para estruturas de sitcoms mais modernas, estamos assistindo à falha da negação de Wanda em tempo real. É um conceito brilhante: o veículo de entretenimento não é o disfarce do problema, ele é o sintoma.

Repare num detalhe técnico que a direção de Matt Shakman (que veio do mundo das comédias em ‘It’s Always Sunny in Philadelphia’) executa com precisão cirúrgica: a câmera. Nos primeiros episódios, a fotografia é iluminada e estática, típica do formato de múltiplas câmeras de TV ao vivo. Conforme a realidade começa a rachar e o luto de Wanda vaza para a tela, a direção adota um contraste mais duro e a câmera se move com a inquietação do cinema moderno. O médium é a mensagem.

Trocando socos por psicologia: o estudo de personagem que o MCU temia fazer

Se você tirar a batalha final entre Wanda e Agatha Harkness — que, convenhamos, é o momento mais genérico de toda a série, onde o MCU puxa Wanda de volta para o seu conforto de feitiços e luzes —, o que sobra? Sobram conversas de cozinha, terapias forçadas, vizinhos suspeitos e uma dor dilacerante que se recusa a sair de cena. WandaVision redefiniu o que um show de super-herói pode ser ao perceber algo que os filmes de cinema frequentemente esquecem: o poder de um personagem importa menos do que o que ele faria com esse poder após perder tudo.

A série é, no fundo, um estudo sobre mecanismos de enfrentamento doentios. Wanda escraviza uma cidade inteira não por maldade supervilanesca, mas porque é mais fácil refazer o mundo como um cenário de TV feliz do que processar o luto. É uma tragédia grega vestida de humor de auditório. O momento em que ela diza aos seus filhos ilusórios ‘Eu deixei vocês ficarem’ e os vê desaparecerem tem um peso emocional que nenhuma batalha cósmica em ‘Ultimato’ consegue bater. É íntimo. É devastador.

No fim das contas, a série permanece como um ponto alto isolado na Fase Quatro, justamente porque teve a coragem de ser duas coisas que o MCU costuma evitar: formalmente ousada e emocionalmente específica. Ela provou que heróis não precisam salvar o universo para serem interessantes; às vezes, eles só precisam aprender a chorar. Fica a pergunta que a própria Marvel parece não saber responder desde então: quantas séries terão a mesma coragem de trocar o soco pela palavra?

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Perguntas Frequentes sobre ‘WandaVision’

Preciso assistir ‘WandaVision’ antes de ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’?

Sim, é altamente recomendado. A série explica a transformação de Wanda na Feita Escarlate e o motivo de ela estar buscando seus filhos, o que é o motor da trama do filme. Sem ‘WandaVision’, o arco da personagem no cinema perde o impacto emocional.

Por que o formato de ‘WandaVision’ muda a cada episódio?

Cada episódio homenageia uma década diferente de sitcoms americanas (dos anos 50 aos 2000). A mudança de formato reflete a psique de Wanda: conforme a negação dela falha e a realidade invade, o formato da TV fica mais moderno e instável, espelhando seu luto.

‘WandaVision’ tem cena pós-créditos?

Sim, o último episódio tem duas cenas pós-créditos. Uma resolve a trama de Monica Rambeau com a S.W.O.R.D., e a outra mostra Wanda isolada ouvindo os filhos, conectando a série ao futuro do MCU.

Onde assistir ‘WandaVision’?

‘WandaVision’ está disponível exclusivamente no Disney+, sendo uma produção original da plataforma.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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