No centenário de ‘Faust’ (1926), resgatamos a obra de Murnau das sombras de ‘Nosferatu’. Analisamos como o diretor trocou o horror claustrofóbico por uma escala épica e efeitos práticos de dupla exposição que definiram a gramática visual da fantasia no cinema.
Se você perguntar a qualquer cinéfilo qual é a obra-prima de F.W. Murnau, a resposta será automática: ‘Nosferatu’. A silhueta do Conde Orlok subindo as escadas definiu a gramática visual do horror. Mas a reverência exclusiva a um único filme tem um preço: nos impede de enxergar a evolução artística do diretor. Em 2026, um dos filmes mais ousados da era silenciosa completa um século, e é hora de ajustar essa lente. Faust Murnau não é apenas um complemento de seu vampiro; é a prova de que o cineasta havia evoluído de um mestre do terror contido para um arquiteto do épico fantástico.
De infecção a apocalipse: a escala cósmica de ‘Faust Murnau’
Lançado em 1926, quatro anos após ‘Nosferatu’, ‘Faust’ chega num momento de transição na carreira de Murnau — logo antes de sua migração para Hollywood. Se no filme de vampiro o horror era uma questão de infecção, de uma ameaça que se infiltra no lar e na luz lentamente, aqui a aposta é cósmica. Baseado na lenda alemã, o enredo acompanha um erudito envelhecido que faz um pacto demoníaco em troca de juventude e prazer. A escala, no entanto, é o que importa. Murnau deixa o claustrofóbico para trás e abraça uma tragédia de proporções bísmicas, misturando horror sobrenatural com romance e mitologia.
Onde Orlok era uma sombra rastejante num castelo da Transilvânia, Mefistófeles em ‘Faust’ é uma força da natureza que engole cidades inteiras com a peste. A ameaça não está na escuridão do quarto, mas na queda de um mundo inteiro. É Murnau usando a lenda folclórica para operar numa dimensão que o cinema de 1926 simplesmente não estava acostumado a ver.
Dupla exposição e efeitos práticos: a engenharia visual de 1926
O que realmente separa ‘Faust’ de qualquer outro filme de sua época é a obsessão técnica de Murnau. Sem computação gráfica, ele construiu um mundo de teatralidade sobrenatural usando efeitos práticos, miniaturas e uma dose generosa de dupla exposição. O resultado, um século depois, continua assustadoramente eficaz.
A sequência de abertura é o cartão de visitas: o Demônio se curva sobre uma vila, com suas asas negras e gigantescas cobrindo a cidade inteira como um manto de peste. É uma imagem que grava na retina. Murnau alcançou isso usando miniaturas e exposições múltiplas de forma tão precisa que a textura esfumaçada do inferno ganha peso físico. Há uma qualidade tátil nos efeitos de ‘Faust’ que o CGI moderno, com sua perfeição asséptica, frequentemente falha em replicar. A transformação do velho Faust em um jovem galã não é um truque de espelho barato; é uma metamorfose que flui diante dos nossos olhos, usando dissolves controlados quadro a quadro e sobreposição de negativos que exigiam um domínio de luz que poucos diretores de fotografia dominavam na época.
O delírio teatral e o camp de Emil Jannings
Quem espera o pessimismo lúgubre e ininterrupto de ‘Nosferatu’ pode se surpreender com o tom de ‘Faust’. O filme tem um humor estranho, uma energia quase lúdica que beira o camp em determinados momentos. O gestual é exagerado, os floreios dramáticos levados ao extremo, e o próprio Mefistófeles (interpretado por Emil Jannings) alterna entre o aterrorizante e o caricato com uma facilidade fascinante.
Mas essa teatralidade não é defeito, é estratégia. Murnau entende que, para contar uma fábula sobre o divino e o infernal, o realismo não serve. O tom exagerado funciona como contraponto necessário para os momentos de escuridão genuína. Quando o horror decide aparecer — como na sequência devastadora da praga varrendo a cidade ou no cleno da cruz no clímax trágico —, o impacto é brutal justamente porque o filme nos acostumou com um espetáculo mais leve. É um equilíbrio de tons que diretores de fantasia ainda hoje lutam para acertar.
Assistir a ‘Faust’ hoje é testemunhar um diretor no auge absoluto de seus poderes, testando os limites físicos do que uma câmera podia capturar. Se ‘Nosferatu’ provou que o cinema podia assustar com a sugestão, ‘Faust’ provou que podia assombrar com a grandiosidade. O centenário do filme é o pretexto perfeito para tirá-lo da sombra do vampiro e colocá-lo onde sempre pertenceu: sob os holofotes. Se você tem paciência para o ritmo do cinema mudo e quer entender o nascimento da linguagem dos épicos de fantasia sem depender de pixels, esta é uma experiência essencial.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Faust’ (1926)
Onde assistir ‘Faust’ de F.W. Murnau?
As versões restauradas de ‘Faust’ estão disponíveis no YouTube (canal oficial de domínio público) e em plataformas de cinema clássico como a Criterion Channel. Para a melhor experiência visual, busque a restauração da Friedrich-Wilhelm-Murnau-Stiftung.
Qual a principal diferença entre ‘Faust’ e ‘Nosferatu’?
A escala e o tom. Enquanto ‘Nosferatu’ é um filme de horror psicológico e infecção doméstica, ‘Faust’ opera numa escala cósmica e apocalíptica, com um tom que mistura tragédia, romance e até humor teatral (camp).
Como Murnau fez os efeitos especiais de ‘Faust’ sem computação gráfica?
Murnau usou extensivamente a dupla exposição (sobreposição de negativos), miniaturas de grande precisão e efeitos de maquetes. A famosa cena do Demônio sobre a cidade combinou filmagem de miniaturas com atuação em estúdio usando controle rigoroso de iluminação.
Quem interpreta Mefistófeles em ‘Faust’ (1926)?
O demônio Mefistófeles é interpretado por Emil Jannings, um dos atores mais famosos do cinema expressionista alemão, que também estrelou ‘A Última Gargalhada’ e foi o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Ator.
‘Faust’ de Murnau é baseado na obra de Goethe?
Sim, mas com liberdades. O filme se inspira na peça clássica de Johann Wolfgang von Goethe, mas Murnau simplifica a narrativa filosófica para focar no espetáculo visual e na tragédia romântica, mesclando elementos do folclore medieval alemão.

