‘Magnatas do Crime’: por que a série de Guy Ritchie funciona melhor que o filme

A série ‘Magnatas do Crime’ repete o universo do filme de 2020, mas pelo ponto de vista oposto: quem herda o império em vez de quem vende. Analisamos como essa escolha criativa enriquece a obra original e por que funciona melhor no formato série.

Guy Ritchie refazendo a própria história soava como uma daquelas ideias que nascem em reuniões de executivos desesperados por marcas familiares. Um filme de 2020 que foi bem, mas não explodiu. Uma série derivada. Mais do mesmo, certo? Errado. ‘Magnatas do Crime’ é um dos raros casos em que a expansão de um universo cinematográfico para a televisão não dilui a obra original — a enriquece.

A decisão central que justifica a existência da série é simples na teoria, mas brilhante na execução: recontar a história pelo ponto de vista oposto. O filme de 2020 acompanhava Mickey Pearson, o magnata do tráfico que tenta vender seu império. A série segue Eddie Horniman, o aristocrata que, sem querer, herda o negócio. Mesmo universo, mesmas regras, mas perspectivas radicalmente diferentes.

Por que mudar de protagonista muda tudo

Por que mudar de protagonista muda tudo

Para entender por que isso funciona, precisamos voltar ao filme. Matthew McConaughey vive Mickey como alguém que já dominou o jogo. Ele sabe onde cada corpo está enterrado — literalmente. A tensão vem da negociação de saída, da tentativa de se aposentar em paz. É a história de um rei olhando para o pôr do sol.

A série inverte a equação. Theo James interpreta Eddie como um homem que não faz ideia do que está fazendo. Ele herda uma propriedade rural e descobre, horrorizado, que a família mantém o padrão de vida graças a uma plantação de maconha no porão. A expressão dele quando percebe o que aqueles tubos e luzes roxas significam? Pura goldfish fora d’água.

Essa mudança de perspectiva transforma completamente o tom. O filme era sobre poder consolidado. A série é sobre o aprendizado brutal — e frequentemente hilário — de como o poder funciona. Pense na diferença entre ‘Breaking Bad’ e ‘Better Call Saul’. Não são a mesma história com personagens diferentes; são gêneros que conversam entre si. Aqui, a relação é ainda mais direta.

O risco criativo que pagou: Guy Ritchie revisitando Guy Ritchie

Ritchie tem uma assinatura tão marcante que virou paródia de si mesmo. Diálogos rápidos, violência cartunesca, humor britânico afiado, montagens criativas. Em ‘Magnatas do Crime’ — filme e série — ele usa todas essas ferramentas, mas com uma diferença crucial: há controle.

Assisti aos dois projetos em sequência, e o que mais impressiona é como a série não tenta ser ‘um filme de três horas cortado em oito pedaços’. Ritchie entende que televisão exige outro ritmo. Há espaço para desenvolver personagens secundários que o filme deixou na superfície. Há tempo para piadas que vão longe demais — no melhor sentido possível.

Os números do Rotten Tomatoes contam parte da história: filme com 78% da crítica e 84% do público, série com 75% e 84%. Estatisticamente idênticos. Mas a qualidade que importa não aparece em porcentagens. Aparece na sensação de que você está vendo um diretor finalmente domar seus próprios excessos.

A ausência de crossover como escolha inteligente

A ausência de crossover como escolha inteligente

Aqui está onde a maioria dos spin-offs erra: a necessidade desesperada de justificar sua existência através de referências. ‘Lembra daquele personagem do filme? Pois é, ele aparece por trinta segundos!’ Isso não expande nada. Só serve como tapinha nas costas para quem assistiu ao original.

‘Magnatas do Crime’ resiste a essa tentação. Não há aparições de Mickey Pearson ou de seus capangas. Há menções esparsas, nomes que quem viu o filme reconhecerá com um sorriso, mas nada que obrigue o espectador a ter assistido à obra anterior. É um ato de confiança criativa raro em uma indústria obcecada por ‘universos compartilhados’.

O resultado é que você pode assistir em qualquer ordem. Começar pela série faz do filme uma espécie de prequela que explica o sistema. Começar pelo filme faz da série uma continuação temática que mostra o que acontece quando o sistema muda de mãos. Em ambos os casos, há valor agregado.

Eddie Horniman vs. Walter White: uma herança (in)voluntária

A referência a ‘Breaking Bad’ no material de divulgação da série não é exagero promocional. Há um paralelo claro: homem comum levado ao submundo do crime por circunstâncias, descobrindo aptidões que não sabia ter. Mas onde Walter White tinha o câncer como catalisador, Eddie tem a herança.

A diferença é fundamental. Walter escolhe entrar no negócio de metanfetamina. Eddie, dentro daquilo que as circunstâncias permitem, tenta sair. A primeira temporada é essencialmente uma série de tentativas dele de se livrar do império criminoso que caiu no seu colo — e de como cada tentativa o afunda mais fundo.

Giancarlo Esposito, que vive Stanley Johnston na série, traz um peso específico para essa dinâmica. Quem o conhece como Gus Fring em ‘Breaking Bad’ sabe que ele tem um talento particular para personagens que misturam elegância e ameaça. Aqui, ele não decepciona.

O formato de oito episódios como vantagem competitiva

O formato de oito episódios como vantagem competitiva

Há algo a ser dito sobre a economia narrativa da série. Oito episódios de cinquenta minutos cada. Isso é uma temporada inteira de ‘Magnatas do Crime’ — menos de sete horas de conteúdo. Comparado com as dezesseis horas que algumas séries da Netflix exigem por temporada, parece quase conciso.

Essa decisão de formato força a série a não desperdiçar tempo. Cada episódio avança a trama de forma significativa. Não há ‘episódio de transição’ ou filler. O ritmo é o de uma narrativa que sabe exatamente onde quer chegar — e quanto tempo tem para isso.

Para o espectador que reclama de séries que se arrastam indefinidamente, ‘Magnatas do Crime’ é um alívio. Você pode assistir a temporada inteira em um fim de semana e sair satisfeito, não exausto.

A promessa de uma segunda temporada mais sombria

A série foi renovada para uma segunda temporada, com estreia prevista para o outono de 2026. Theo James já adiantou que o tom será mais escuro. ‘Ainda é divertido, mas é mais sombrio. Fica um pouco maluco’, disse em entrevista.

Essa progressão faz sentido narrativo. A primeira temporada é sobre descoberta — Eddie aprendendo que tipo de pessoa ele precisa ser para sobreviver nesse mundo. A segunda, naturalmente, seria sobre consolidação. O que acontece quando o peixe-fora-d’água aprende a nadar?

Se Ritchie mantiver o controle que demonstrou na primeira temporada, temos motivos para otimismo. A série já provou que entende a diferença entre expandir um universo e apenas explorá-lo comercialmente.

Veredito: para quem vale a pena

Se você assistiu ao filme e gostou, a série é obrigatória. Não porque completa algo deixado em aberto, mas porque oferece uma perspectiva que o filme não poderia ter. É como ver o mesmo quadro de outro ângulo — e descobrir que havia detalhes escondidos o tempo todo.

Se você não viu o filme, pode começar pela série sem perder nada essencial. A experiência será diferente, mas não inferior. Depois, se quiser entender o sistema pelo ponto de vista de quem o construiu, o filme está lá esperando.

Para fãs de crime drama com humor britânico, ‘Magnatas do Crime’ é uma das apostas mais sólidas da Netflix recentemente. Em uma plataforma que cancela séries promissoras com frequência perturbadora, esta merece ser acompanhada. A segunda temporada pode consolidar algo que já parece claro: às vezes, refazer a própria obra não é falta de ideia — é evolução.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Magnatas do Crime’

Preciso assistir ao filme de 2020 para entender a série ‘Magnatas do Crime’?

Não. A série funciona de forma independente. Você pode assistir em qualquer ordem: começar pela série faz do filme uma prequela; começar pelo filme faz da série uma continuação temática.

Onde assistir ‘Magnatas do Crime’?

A série está disponível exclusivamente na Netflix. O filme original de 2020, intitulado ‘The Gentlemen’ no original, também está na plataforma.

Quantos episódios tem a primeira temporada de ‘Magnatas do Crime’?

A primeira temporada tem oito episódios de aproximadamente 50 minutos cada — cerca de 6h40 no total. Um formato enxuto que evita filler.

‘Magnatas do Crime’ tem segunda temporada confirmada?

Sim. A Netflix renovou a série para uma segunda temporada, com estreia prevista para o outono de 2026. Theo James confirmou que o tom será mais sombrio.

Matthew McConaughey aparece na série ‘Magnatas do Crime’?

Não. A série não traz crossover de personagens do filme. Há menções esparsas ao universo, mas Mickey Pearson e seus capangas não aparecem.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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