O reboot de ‘Faces of Death’ troca o choque fácil do original por uma reflexão sobre moderadores de conteúdo e a banalização da violência nas redes sociais. Analisamos como o filme atualiza o ‘mondo film’ para a era do algoritmo — e por que é um dos horrores mais relevantes de 2026.
Em 1978, ‘Faces of Death’ chegou aos cinemas como um falso documentário sobre um patologista que investigava ‘a transição entre a vida e a morte’. O filme mesclava cenas reais de autópsias e acidentes com encenações grotescas, usando a estética de documentário para enganar o público. Funcionou: foi proibido em dezenas de países, virou ‘video nasty’ no Reino Unido e gerou uma franquia de seis sequências. Agora, quase 50 anos depois, o reboot chega à Shudder com uma proposta completamente diferente. Os diretores Daniel Goldhaber e Isa Mazzei transformaram o ‘mondo film’ em uma reflexão sobre como consumimos violência na era do algoritmo.
Eu assisti ao original pela primeira vez há uns 15 anos, numa VHS pirata que circulava entre amigos como se fosse um artefato proibido. A sensação era de estar vendo algo que não deveria ver — uma transgressão que, convenhamos, era boa parte da atração. Hoje, a ironia é que qualquer adolescente com um smartphone consegue acessar conteúdo infinitamente mais gráfico no Twitter ou Reddit sem nenhum tipo de restrição. É exatamente essa normalização bizarra que o novo filme coloca em xeque.
Do ‘mondo film’ para a tela do moderador de conteúdo
O novo ‘Faces of Death’ não é um remake e nem exatamente uma sequência. É um filme sobre o próprio fenômeno ‘Faces of Death’ — e sobre o que ele representava versus o que nos tornamos. A trama acompanha Margot (Barbie Ferreira), uma moderadora de conteúdo de uma rede social fictícia chamada Kino. O trabalho dela? Passar o dia inteiro assistindo a vídeos de violência real — acidentes, assassinatos, abusos — e decidir o que deve ser removido. É uma profissão real, exercida por milhares de pessoas no mundo todo, raramente discutida.
A protagonista se depara com uma série de vídeos de assassinatos que parecem recriar mortes do filme original de 1978. A partir daí, o filme se divide entre a investigação de Margot e a perspectiva de Arthur (Dacre Montgomery), o serial killer por trás das gravações. A escolha narrativa é precisa: enquanto o ‘Faces of Death’ original usava um narrador ‘neutro’ para apresentar a morte como curiosidade mórbida, a nova versão coloca a violência no contexto da nossa economia da atenção digital.
Barbie Ferreira mencionou em entrevista que, para se preparar para o papel, assistiu a vídeos do antigo site LiveLeak e ouviu podcasts sobre crimes reais. A atriz descreveu o processo de ficar dois meses nesse ‘estado de luta ou fuga’ — exatamente o que moderadores de conteúdo reais experimentam. Ela pesquisou depoimentos de trabalhadores da área que relatam pesadelos constantes e mudanças fundamentais de personalidade. Não é preparo de método por vaidade; é a compreensão de que existe um custo psíquico real em ser o filtro entre a violência e o público.
Quando o sensacionalismo vira rotina algorítmica
O original ‘Faces of Death’ causava escândalo porque apresentava morte como espetáculo. Era proibido, perigoso, contrabandeado. O novo filme reconhece algo perturbador: aquilo que chocava em 1978 agora é conteúdo banal de feed social. Como Ferreira apontou, o filme original pode ser encontrado no YouTube sem restrição de idade. Enquanto isso, vídeos reais de pessoas morrendo circulam livremente em plataformas mainstream.
A crítica é devastadora. O ‘mondo film’ — gênero de pseudodocumentário sensacionalista que misturava violência real e encenada — era considerado lixo cultural nos anos 70. Hoje, vivemos em um ‘inferno algorítmico de violência’, para usar a expressão da própria Ferreira, onde a mesma morbidez é monetizada por corporações bilionárias. A diferença é que agora não precisamos ir a um cinema suspeito ou alugar uma VHS em uma locadora de bairro. A violência vem até nós, curada por algoritmos que sabem exatamente o que nos mantém rolando a tela.
Daniel Goldhaber e Isa Mazzei já haviam demonstrado interesse em explorar os subterrâneos da internet em ‘Cam’ (2018), sobre uma trabalhadora do sexo que tem sua identidade roubada por uma inteligência artificial. Aqui, a dupla expande essa preocupação para um escopo maior. ‘Faces of Death’ não é sobre um assassino em série — é sobre um sistema que normaliza o consumo de tragédias alheias como entretenimento passatempo.
A construção de um ícone de terror para a era digital
Dacre Montgomery parece ter nascido para interpretar Arthur. O diretor revelou que já havia considerado o ator para um papel em ‘How to Blow Up a Pipeline’, mas não havia funcionado. Para ‘Faces of Death’, Montgomery mergulhou fundo na tentativa de encontrar o personagem dentro de si mesmo — o que soa assustador quando lembramos que ele interpreta um psicopata. Mas essa disposição de explorar os próprios impulsos sombrios é o que dá ao vilão uma qualidade perturbadora.
O design visual de Arthur merece menção: máscara e lentes de contato vermelhas criam uma iconografia que funciona tanto como referência ao slasher clássico quanto como comentário sobre a performação de identidade nas redes. O assassino não apenas mata — ele produz conteúdo. Cada morte é filmada para ser consumida, compartilhada, engajada. É a lógica do influenciador levada ao extremo do horror.
Isa Mazzei destacou a evolução de Margot ao longo do filme — uma jornada de despertar para a desilusão com um sistema que não a protege e não acredita nela. A roteirista descreveu o clímax emocional da personagem como uma explosão de raiva resultante de meses sendo gaslighted por uma estrutura que prefere ignorar o problema. É impossível não ver o paralelo com a experiência real de moderadores de conteúdo, trabalhadores invisíveis que processam traumas para que o resto de nós possa usar redes sociais ‘limpas’.
Um horror que devolve o espelho
O que Goldhaber e Mazzei entenderam é que a simples atualização de ‘Faces of Death’ seria redundante. Recriar o choque barato do original em 2026 seria impossível — e eticamente questionável. Em vez disso, fizeram um filme sobre a nossa relação com a violência mediada por telas. O resultado funciona tanto para fãs da franquia (que vão reconhecer as homenagens às mortes icônicas) quanto para quem nunca ouviu falar do original (que vai encontrar um thriller relevante sobre o momento presente).
A ironia final é que ‘Faces of Death’ foi filmado há três anos e só agora está sendo lançado. Segundo Ferreira, nesse intervalo o mundo se tornou ‘ainda mais um inferno algorítmico de violência’. O filme acompanhou a deterioração do discurso online — a normalização de assistir execuções em tempo real, a banalização do sofrimento alheio transformado em meme. O que poderia parecer exagero metafórico em 2023 agora parece documentário disfarçado de ficção.
Para quem busca apenas um slasher convencional, ‘Faces of Death’ pode frustrar. O filme tem ambições maiores que entregar mortes criativas — embora também entregue isso, com a aprovação do diretor para ‘honrar os aspectos mais nojentos do original’. Mas o verdadeiro horror não está no sangue derramado. Está na constatação de que nos tornamos os espectadores que o original de 1978 temia — só que com muito mais acesso e muito menos escrúpulos.
‘Faces of Death’ está em cartaz nos cinemas e chegará ao catálogo da Shudder ainda este ano. Para os fãs de horror que apreciam quando o gênero é usado como ferramenta de crítica social, é uma adição obrigatória. Para quem prefere não refletir sobre os próprios hábitos de consumo de conteúdo, talvez seja melhor deixar passar — o filme não tem interesse em fazer o público se sentir confortável.
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Perguntas Frequentes sobre o reboot de ‘Faces of Death’
Onde assistir o novo ‘Faces of Death’?
O filme está em cartaz nos cinemas e chegará ao catálogo da Shudder ainda em 2026. A Shudder é uma plataforma de streaming especializada em horror.
Preciso ter visto o ‘Faces of Death’ original de 1978?
Não. O novo filme funciona como uma história independente. Fãs do original vão reconhecer homenagens às mortes icônicas, mas o conhecimento préico não é necessário para entender ou aproveitar a trama.
O novo ‘Faces of Death’ tem cenas reais de violência?
Não. Diferente do original, que mesclava cenas reais com encenações, o reboot é inteiramente ficcional. A violência é simulada — o foco do filme está na crítica ao consumo de violência real nas redes sociais.
Qual é a classificação indicativa do filme?
Nos EUA, o filme recebeu classificação R (menores de 17 anos acompanhados de adulto). Contém violência gráfica, linguagem forte e temas perturbadores relacionados a assassinatos e trauma psicológico.
O filme é baseado em fatos reais?
Não é baseado em fatos reais, mas a profissão de moderador de conteúdo mostrada no filme existe de fato. Milhares de pessoas trabalham filtrando violência e conteúdo extremo em plataformas digitais — um tema central da trama.

