‘Star Trek: Enterprise’: twist rejeitado faria de Phlox um veterinário

O produtor Andre Bormanis revelou que Dr. Phlox quase foi escrito como veterinário em ‘Star Trek: Enterprise’ — ideia rejeitada que explicaria seus métodos excêntricos. Analisamos por que o twist faria sentido e por que sua rejeição foi a decisão correta.

Existem revelações que mudam completamente como você enxerga um personagem. E existem revelações que, mesmo rejeitadas, fazem tanto sentido que você passa a questionar como nunca percebeu antes. A informação que o produtor Andre Bormanis revelou recentemente sobre Star Trek Enterprise Phlox cai exatamente nesta segunda categoria — e é daquelas ideias que, uma vez ouvidas, ficam grudadas na sua cabeça.

O twist que explicaria tudo sobre o médico mais excêntrico da frota

O twist que explicaria tudo sobre o médico mais excêntrico da frota

Em entrevista ao podcast The D-Con Chamber, Bormanis contou uma ideia que tentou vender aos executivos Rick Berman e Brannon Braga mais de uma vez: em Denobula, planeta natal do Dr. Phlox, ele não seria um médico de humanoides — seria um veterinário. A lógica era simples e devastadora: Phlox não tinha licença para tratar outros denobulanos, então procurou alienígenas. Nós, humanos, para ele, estávamos no mesmo nível que cavalos.

A resposta dos showrunners foi um veto imediato. ‘Talvez seja exagerado demais’, teriam dito. Do ponto de vista de preservar a dignidade do Chief Medical Officer da Enterprise, a decisão faz sentido. Mas olhando em retrospecto para quatro temporadas completas, a ideia de Bormanis explica comportamentos que sempre pareceram… peculiares.

A enfermaria que sempre foi um zoológico disfarçado

Quem assistiu a ‘Jornada nas Estrelas: Enterprise’ com atenção notou algo estranho desde o piloto ‘Broken Bow’: a enfermaria do NX-01 parecia mais um consultório veterinário do que uma ala médica tradicional. Phlox mantinha uma coleção de criaturas que incluiria qualquer veterinário intergaláctico: larvas do deserto de Lysarria, camaleões de Calrissian, enguias osmóticas. E aquele morcego de Pyrithia que nunca parava quieto?

Eu me lembro de assistir o piloto e pensar: ‘Por que este médico trata pessoas com animais?’ A resposta sempre pareceu ser ‘ele é denobulano, eles são diferentes’. Mas diferente é uma coisa. Tratar humanos com enguias que sugam toxinas é outra completamente diferente. Se Phlox fosse, de fato, um veterinário acostumado com espécies exóticas, seu método de cura deixaria de ser excêntrico para se tornar… consistente.

John Billingsley construiu Phlox como um personagem alegremente estranho — aquele sorriso largo, a curiosidade quase infantil por biologia alienígena, a forma como ele abordava tratamentos como quem está testando algo novo em um paciente pela primeira vez. A interpretação funciona perfeitamente se você adiciona a camada: ‘ele está aprendendo na prática porque sua formação é com outra categoria de seres’.

Por que a rejeição do twist foi correta — e por que dói admitir

Por que a rejeição do twist foi correta — e por que dói admitir

Aqui entra o dilema criativo que Bormanis enfrentou. Revelar que o médico-chefe de uma nave da Frota Estelar é, tecnicamente, um veterinário sem licença para tratar humanoides seria hilário no curto prazo. Mas no longo prazo? Minaria a autoridade do personagem em momentos críticos.

Pense nos episódios de alta tensão médica como ‘Dear Doctor’, onde Phlox precisa lidar com um dilema ético sobre uma espécie em extinção, ou em ‘The Catwalk’, quando a tripulação se refugia na enfermaria durante uma tempestade de radiação. Quando Phlox precisa encontrar uma cura ou realizar um procedimento complexo, a audiência precisa acreditar que ele é competente. A revelação do ‘veterinário’ transformaria cada procedimento em uma piada subtextual. ‘Será que ele aprendeu isso com cavalos?’ não é a pergunta que você quer que o público faça enquanto o capitão Archer está morrendo.

Berman e Braga acertaram em proteger a integridade do Chief Medical Officer. O custo narrativo seria alto demais para um gag que, por mais brilhante que seja, perderia o impacto depois de mencionado duas ou três vezes.

Quando a construção de alienígenas se torna vítima do pragmatismo

Mais interessante do que o twist em si é o que ele demonstra sobre o processo criativo de ‘Enterprise’. A série se propunha a mostrar humanóides alienígenas que não pensavam como humanos — e Phlox era o exemplo mais bem-sucedido disso. Sua ética médica, suas abordagens de tratamento, até sua poligamia culturalmente aceita: tudo indicava uma mente genuinamente estrangeira.

A proposta do veterinário surge desse mesmo impulso criativo: se denobulanos são tão diferentes, por que assumir que sua medicina seria idêntica à humana? Bormanis estava fazendo a pergunta certa. A resposta dos produtores também estava certa, mas por razões práticas, não criativas.

Fica a sensação de que ‘Jornada nas Estrelas: Enterprise’ perdeu uma oportunidade de desenvolver essa ideia de forma mais sutil. Não como uma revelação surpresa, mas como uma camada de worldbuilding: denobulanos poderiam ter uma tradição médica que trata humanoides e animais com os mesmos métodos. Phlox não precisaria ser ‘veterinário sem licença’ — ele poderia ser produto de uma cultura onde a distinção simplesmente não existe.

O legado de Phlox permanece intacto — e talvez melhor assim

Dr. Phlox se tornou um dos personagens mais amados de ‘Enterprise’ exatamente porque sua estranheza nunca foi explicada. A audiência aceitou que um denobulano age como denobulano, e Billingsley transformou cada ida à enfermaria em um momento de alívio cômico genuíno. O sorriso largo, os tratamentos bizarramente eficazes, os animais de estimação que ninguém pediu: tudo isso funcionou porque o personagem foi permitido ser simplesmente ele mesmo.

A revelação de Bormanis é um daqueles ‘e se’ que enriquece a experiência de rewatch. Você pode assistir os 98 episódios de ‘Enterprise’ agora sabendo que, em algum momento da sala de roteiro, alguém propôs que Phlox viajava a humanos como um veterinário viaja a cavalos. A ideia foi rejeitada, mas o rastro dela permanece visível em cada cena da enfermaria — e isso, ironicamente, pode ser melhor do que se tivesse sido canonizada.

Agora, cada vez que Phlox aplicar uma enguia em alguém, você vai saber: isso não é excentricidade aleatória. É o traço de um personagem que, nas entrelinhas, sempre foi exatamente o que Bormanis imaginou — mesmo que os chefes nunca tenham deixado ele dizer em voz alta.

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Perguntas Frequentes sobre Dr. Phlox e Star Trek: Enterprise

Onde assistir Star Trek: Enterprise?

‘Star Trek: Enterprise’ está disponível na Netflix no Brasil e no Paramount+ internacionalmente. A série completa de 4 temporadas pode ser assistida em ambas as plataformas.

Quem interpretou Dr. Phlox em Star Trek: Enterprise?

O ator John Billingsley interpretou Dr. Phlox em todos os 98 episódios da série. Sua performance se tornou uma das mais queridas entre os médicos da franquia Star Trek.

Qual é a espécie do Dr. Phlox?

Dr. Phlox é um denobulano — espécie conhecida pela longevidade, sorriso largo e cultura poligâmica. Seu planeta natal é Denobula, onde a população convive em harmonia com múltiplos parceiros.

Quantas temporadas tem Star Trek: Enterprise?

A série tem 4 temporadas, totalizando 98 episódios exibidos entre 2001 e 2005. Foi a última série Star Trek produzida até o lançamento de ‘Discovery’ em 2017.

Dr. Phlox aparece em outras séries de Star Trek?

Não. Dr. Phlox é um personagem exclusivo de ‘Star Trek: Enterprise’. John Billingsley, no entanto, fez uma participação diferente em ‘Star Trek: Discovery’ como o Dr. Attis, um personagem não relacionado a Phlox.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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