Ann Dowd revela como construiu a moralidade distorcida de Tia Lydia em ‘Os Testamentos’, explicando por que a nova ‘versão gentil’ da personagem não é redenção — é adaptação tática dentro de Gilead.
Existe um tipo de personagem que a gente ama odiar. Tia Lydia, de ‘O Conto da Aia’ e agora em ‘Os Testamentos’, é exatamente isso: a face de um regime brutal que usa violência como ferramenta de ‘salvação’. Mas quando Ann Dowd — a atriz por trás de uma das vilãs mais memoráveis da TV recente — fala sobre sua personagem, algo perturbador emerge: ela não vê Lydia como monstro. Vê-a como uma mulher que ama, de forma distorcida, as pessoas que tortura.
A entrevista que Dowd deu ao Deadline sobre o retorno da personagem na sequência direta de ‘O Conto da Aia’ revela não apenas detalhes sobre a nova série, mas uma perspectiva interna sobre moralidade que desafia qualquer leitura simplista de bem e mal. E é exatamente aí que a coisa fica interessante.
A ‘versão gentil’ que não abandona a brutalidade
Em ‘Os Testamentos’, Lydia chega diferente. Dowd descreve essa nova encarnação como ‘um eu mais gentil’, alguém em que ‘aquela ferocidade, aquele muro não está mais presente’. Mas — e aqui está o detalhe crucial — a atriz faz questão de acrescentar: ‘está lá em algum lugar dentro dela, não simplesmente desaparece’.
Isso não é uma redenção. É uma adaptação tática.
Lydia continua no mesmo sistema, treinando garotas para serem ‘anfitriãs, esposas, mães, donas de casa’. Continua impondo regras. Continua operando dentro de uma lógica onde ‘ler, escrever, matemática’ são proibidos. A gentileza é uma nova roupagem para o mesmo projeto de controle. E Dowd sabe disso — quando menciona que as regras ‘são aplicadas, pode ter certeza, e com a bênção de Deus’, há um reconhecimento implícito de que a crueldade estrutural permanece intacta.
Como Ann Dowd constrói uma vilã sem julgamento moral
O aspecto mais revelador da entrevista é o método de trabalho de Dowd. ‘Como ator, não julgue’, ela diz. Parece simples, mas as implicações são profundas: para interpretar Lydia de forma convincente, Dowd precisou encontrar a lógica interna da personagem — não a lógica do público, que vê tortura e opressão, mas a lógica de Lydia, que vê correção e salvação.
Dowd explica que Lydia ‘amava profundamente’ as aias e acreditava que elas ‘tinham se desviado em suas vidas’. Sem relacionamento com Deus. Vivendo com homens sem serem casadas. Para Lydia, a violência não é punição — é intervenção de emergência. ‘Se eu quero que algo mude, vou ter que usar a força e assustá-las, ou não vão ouvir uma palavra do que estou dizendo.’
Isso é o que torna a personagem genuinamente perturbadora. Ela não é sádica por sadismo. É uma verdadeira crente que internalizou tão completamente a ideologia de Gilead que consegue convencer a si mesma de que bater em mulheres é um ato de amor. Pense na cena icônica em que Lydia obriga June a segurar um ferro quente — há um sorriso de satisfação no rosto da Tia, mas também lágrimas. Dowd construiu uma mulher que genuinamente acredita estar salvando uma alma.
A complexidade moral que a série sempre explorou
‘O Conto da Aia’, desde o início, se recusou a pintar suas personagens em preto e branco. Serena Joy Waterford não é apenas uma cúmplice do regime — é uma mulher que perdeu sua autonomia dentro do sistema que ajudou a construir. A própria June comete atos de violência brutal ao longo da série. A moralidade em Gilead é inerentemente distorcida, e Lydia é o exemplo mais extremo dessa distorção.
O que Dowd acrescenta à conversa é a perspectiva de alguém que passou seis temporadas habitando essa mentalidade. ‘Ela fala comigo’, diz a atriz sobre Lydia. ‘Eu falo com ela. Cheguei a conhecê-la. Ela chegou a me conhecer, e eu a encontrei tremendamente útil de certas formas na minha vida.’
Confesso que li essa frase três vezes. Uma personagem que representa o patriarcado mais opressivo sendo descrita como ‘útil’ para a vida pessoal da atriz? Mas quanto mais penso, mais faz sentido: Dowd está falando sobre a prática de não julgar, sobre a capacidade de encontrar humanidade mesmo onde parece não haver nenhuma. Isso não é simpatia pelo regime — é uma técnica de atuação que exige empatia radical. E é essa empatia que rendeu a ela um Emmy em 2017.
Por que essa nuance importa para ‘Os Testamentos’
A sequência de ‘O Conto da Aia’ promete expandir o universo de Gilead além da perspectiva de June. Baseada no romance de Margaret Atwood de 2019 — que venceu o Booker Prize —, a série deve mostrar múltiplos ângulos do regime, incluindo, aparentemente, uma Lydia que evoluiu (ou regrediu, dependendo de como você olha) para uma versão ‘gentil’ de si mesma.
Se Dowd está certa sobre a motivação interna de sua personagem, isso sugere algo sobre a direção da nova série: ‘Os Testamentos’ pode estar interessado em explorar não apenas a resistência a Gilead, mas a psicologia de quem o sustenta. Não para absolver esses personagens, mas para entender como sistemas opressivos conseguem recrutar pessoas genuínas para sua causa.
Lydia não é um monstro unidimensional. É algo mais assustador: uma pessoa comum que internalizou uma ideologia cruel a ponto de convencer a si mesma de que está fazendo o bem.
O fato de Dowd conseguir ver isso — e articular com tanta clareza — diz muito sobre por que sua atuação funciona. A gente pode odiar Tia Lydia. Mas graças à construção da atriz, a gente também entende ela. E esse entendimento é o que torna a personagem verdadeiramente memorável.
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Perguntas Frequentes sobre Tia Lydia e ‘Os Testamentos’
Quando estreia ‘Os Testamentos’, sequência de ‘O Conto da Aia’?
‘Os Testamentos’ ainda não tem data de estreia confirmada. A produção foi anunciada como sequência direta de ‘O Conto da Aia’, mas informações sobre elenco completo e cronograma permanecem limitadas.
Quem é Tia Lydia em ‘O Conto da Aia’?
Tia Lydia é uma das vilãs principais da série, interpretada por Ann Dowd. Ela é responsável por ‘treinar’ e disciplinar as Aias no Centro Vermelho, usando violência física e psicológica como ferramentas de ‘salvação’ dentro da ideologia de Gilead. Ganhou um Emmy por essa atuação em 2017.
‘Os Testamentos’ é baseado no livro de Margaret Atwood?
Sim. ‘Os Testamentos’ é adaptação do romance de mesmo nome publicado por Margaret Atwood em 2019, vencedor do Booker Prize. O livro se passa 15 anos após o final de ‘O Conto da Aia’ e expande o universo de Gilead através de múltiplas narradoras.
Ann Dowd ganhou prêmio por interpretar Tia Lydia?
Sim. Ann Dowd venceu o Emmy de Melhor Atriz Coadjuvante em Série Dramática em 2017 pela interpretação de Tia Lydia. A crítica destacou especialmente sua capacidade de humanizar uma personagem que poderia ser puramente vilanesca.
Preciso assistir ‘O Conto da Aia’ para entender ‘Os Testamentos’?
Provavelmente sim. Embora o livro ‘Os Testamentos’ funcione como narrativa independente, a série deve manter continuidade com os eventos e personagens estabelecidos em ‘O Conto da Aia’. Conhecer o contexto de Gilead e personagens como Tia Lydia será essencial.

