‘O Pinguim’ série venceu 9 Emmys não por ser spin-off de Batman, mas por ser um drama criminal que rivaliza com ‘Família Soprano’. Analisamos como Colin Farrell e a showrunner Lauren LeFranc criaram uma obra que funciona sem precisar do Homem-Morcego.
Se você abrir ‘O Pinguim’ série esperando capas coloridas, vilões extravagantes e batalhas épicas com o Homem-Morcego, vai se surpreender. A produção da HBO — vencedora de 9 Emmys em 2024 — não é um produto de super-herói disfarçado de drama. É um estudo de personagem sobre ascensão criminal que poderia existir sem Batman nenhum no universo. E é exatamente isso que a torna singular: uma obra que usa o material de origem como pretexto, não como promessa.
O paralelo com ‘Família Soprano’ não é marketing — é estrutural. A showrunner Lauren LeFranc constrói a narrativa com a mesma obsessão pelos bastidores do poder que David Chase tinha em 1999. O foco está na mecânica interna das organizações criminosas: alianças frágeis, negociações implícitas, a família como instituição ao mesmo tempo protetora e sufocante. Colin Farrell constrói Oswald ‘Oz’ Cobb não como um vilão de quadrinhos, mas como um homem que aprendeu a transformar sua desvantagem física em vantagem estratégica — um sobrevivente que rasteja até o topo enquanto os poderosos se destroem entre si.
Por que ‘O Pinguim’ série funciona como sucessora de ‘Família Soprano’ e ‘A Escuta’
A comparação com ‘A Escuta’ (The Wire) pode parecer ousada, mas é fundamentada. Ambas entendem que o crime organizado não é caos — é burocracia paralela. Há hierarquias, territórios, negociações, acordos informais que pesam mais que contratos escritos. Em ‘O Pinguim’, quando um dos chefões do crime de Gotham é derrubado, o vácuo de poder não gera anarquia — gera uma corrida política calculada. Oz não toma o trono à força bruta. Ele o ocupa porque entende melhor que ninguém como o sistema funciona.
A fotografia de David Rosenblat reforça essa aproximação com o realismo social de ‘A Escuta’: tons de cinza e amarelo doente dominam a paleta, e Gotham parece menos uma cidade de fantasia e mais uma metrópole americana em declínio econômico. A cena em que Oz caminha pelos corredores do asilo onde Sofia esteve internada, com a câmera fixa o obrigando a atravessar o espaço em vez de cortar para facilitar, é herança direta do naturalismo de David Simon — o plano nos força a conviver com o desconforto.
Colin Farrell desaparece, e isso é o maior elogio possível
Farrell já havia impressionado em ‘Batman’ (2022) sob a maquiagem de Mike Marino. Mas em uma série inteira, o risco era maior: seria possível sustentar o interesse em um personagem repulsivo por oito horas? A resposta é sim, e não apenas pelo trabalho físico — Farrell constrói um homem cuja brutalidade coexiste com uma fragilidade palpável. Oz não é simpático, mas é compreensível. Você entende por que ele faz o que faz, mesmo quando quer desviar o olhar.
Contracenando com ele, Cristin Milioti entrega uma Sofia Falcone que funciona como espelho invertido: alguém que também quer poder, mas por motivos diferentes, com métodos diferentes. Milioti — conhecida por ‘Black Mirror’ e ‘Palm Springs’ — prova que pode carregar peso dramático na mesma medida que comédia. A dinâmica entre os dois é o tipo de confronto que faz você esquecer que está assistindo a algo derivado de histórias em quadrinhos.
O centro emocional inesperado: uma relação mãe-filho
Ao posicionar a relação entre Oz e sua mãe Francis (Deirdre O’Connell) como eixo emocional, a série faz algo que ‘Família Soprano’ também fazia: mostrar que os monstros não nascem do nada. A mãe de Oz não é uma vítima passiva nem uma vilã manipuladora — é uma mulher cujo amor distorcido ajudou a moldar o homem que ele se tornou. A série não absolve Oz de suas escolhas, mas contextualiza suas feridas.
Há cenas entre os dois que seriam cortadas de qualquer produção Marvel por ‘desacelerar o ritmo’. Aqui, elas são o ritmo. O silêncio entre frases ditas e não ditas carrega mais peso que qualquer explosão de CGI.
Uma série que não precisa de Batman — e isso é sua maior conquista
O fato de ‘O Pinguim’ ser sequência direta de ‘Batman’ (2022), ambientada dias após os eventos do filme, é quase irrelevante para sua experiência. Você pode chegar sem ter visto o longa e acompanhar tudo perfeitamente. O universo serve como pano de fundo, não como exigência. Gotham aqui não é uma cidade de fantasmas e morcegos — é uma metrópole em decomposição onde o vácuo institucional permite que homens como Oz prosperem.
Isso não é adaptação de quadrinhos no sentido tradicional. É um drama criminal de prestígio que usa um universo conhecido como atalho para orçamento e reconhecimento, mas que se recusa a ser refém do material de origem. A série poderia se chamar ‘Ascensão’ e se passar em Chicago ou Nova Jersey — e funcionaria igualmente bem.
Veredito: vale a maratona, mas não pelo motivo que você imagina
Com 8 episódios entre 46 e 68 minutos, ‘O Pinguim’ é ideal para um fim de semana. Não porque é ‘fácil de assistir’ — há momentos de violência gráfica e desconforto emocional real. Mas porque a construção narrativa é tão precisa que você quer saber o que acontece na próxima hora, não no próximo ano.
Se você busca diversão escapista, talvez passe raiva. O ritmo deliberadamente lento dos primeiros episódios pode frustrar quem espera a adrenalina constante de produções Marvel. Mas se você aprecia dramas criminais que tratam seu público como adultos — que assumem que você aguenta ambiguidade moral, silêncios significativos e personagens que não são bons nem maus, apenas humanos em situações desumanas — esta é uma das melhores séries que a HBO produziu nos últimos anos.
O fato de ter 95% no Rotten Tomatoes não é coincidência. É o reconhecimento de que, em um momento em que o mercado está saturado de conteúdo derivado de super-heróis, alguém teve a coragem de priorizar personagem sobre propriedade intelectual. E isso, em 2024, é quase revolucionário.
Quanto ao futuro: não há segunda temporada confirmada, e talvez seja melhor assim. ‘O Pinguim’ funciona como história completa, sem alongamento artificial. Se a HBO decidir expandir o universo de Batman com outras séries de vilões — há rumores sobre um potencial foco no Coringa — que seja com o mesmo compromisso: usar o universo como pretexto para contar histórias humanas, não o contrário.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘O Pinguim’ série
Onde assistir ‘O Pinguim’ série?
‘O Pinguim’ está disponível exclusivamente na HBO Max (Max no Brasil). Todos os 8 episódios da primeira temporada já estão na plataforma desde novembro de 2024.
Quantos episódios tem ‘O Pinguim’?
A primeira temporada tem 8 episódios, com duração entre 46 e 68 minutos cada. A série foi concebida como história completa, sem cliffhangers que exijam continuação.
Precisa ver ‘Batman’ (2022) para entender ‘O Pinguim’?
Não. A série se passa dias após o filme, mas funciona de forma independente. Você consegue acompanhar toda a trama sem ter visto ‘Batman’ — as referências ao longa são contextuais, não essenciais.
‘O Pinguim’ tem segunda temporada?
Não há segunda temporada confirmada. A série foi concebida como minissérie de história fechada, e a HBO ainda não anunciou planos de continuação. Colin Farrell deve retornar como o personagem em ‘Batman 2’, previsto para 2026.
Quem interpreta o Pinguim na série da HBO?
Colin Farrell interpreta Oswald ‘Oz’ Cobb. O ator usa prótese e maquiagem criadas por Mike Marino, o mesmo responsável pela transformação em ‘Batman’ (2022). O processo de maquiagem leva cerca de 4 horas.

