‘What Happens at Night’: parceria de Scorsese e DiCaprio mira no Oscar com terror

Com o Oscar finalmente aberto ao horror, ‘What Happens at Night’ chega como chance de redenção para a parceria Scorsese-DiCaprio após o desprezo a ‘Ilha do Medo’. Analisamos como a mudança da Academia pode finalmente render estatuetas ao gênero.

Existe uma espécie de ‘dívida histórica’ da Academia com Martin Scorsese — e não é apenas sobre quantas vezes ele perdeu o Oscar de melhor diretor. A ferida mais específica é de 2010, quando ‘Ilha do Medo’ foi completamente ignorado nas indicações. Agora, ‘What Happens at Night’, novo projeto do diretor com Leonardo DiCaprio, surge no momento perfeito para uma correção tardia: o Oscar finalmente parou de torcer o nariz para o terror.

Não é coincidência. É uma convergência de timing, gênero e pedigree que coloca o filme em uma posição privilegiada para a próxima temporada de premiações. Vamos entender por quê.

Quando o horror deixou de ser ‘paria’ do Oscar

Quando o horror deixou de ser 'paria' do Oscar

Se você acompanha premiações há tempo suficiente, sabe que o horror sempre foi tratado como cidadão de segunda classe pela Academia. ‘O Exorcista’ (1973) foi uma exceção histórica — indicado a melhor filme e vencedor de roteiro adaptado — mas isso não abriu portas. Durante décadas, filmes de terror eram automaticamente relegados às categorias técnicas: maquiagem, efeitos visuais, som. Como se susto e gore fossem o único mérito do gênero.

Isso começou a mudar drasticamente nos últimos anos. ‘Corra!’ (2017) foi indicado a melhor filme. ‘O Farol’ (2019) conquistou a cinematografia. ‘Mank’ não é terror, mas sua estética expressionista mostrou que a Academia está mais aberta a linguagens visuais ‘difíceis’. Em 2026, filmes como ‘Trágica Obsessão’, de Curry Barker, já são apontados como potenciais concorrentes. O cenário é outro.

E é nesse cenário transformado que ‘What Happens at Night’ chega. Com Scorsese no comando e DiCaprio no elenco, o filme carrega o peso de uma parceria que historicamente rendeu indicações — exceto justamente quando mergulhou no terror psicológico.

A ‘injustiça’ de ‘Ilha do Medo’ que ainda arde

Vou ser direto: o tratamento que a Academia deu a ‘Ilha do Medo’ em 2010 foi um dos maiores erros de avaliação dos últimos 20 anos. Não estou dizendo que o filme é perfeito — longe disso. A narrativa é labiríntica demais em momentos, e a revelação final divide opiniões até hoje. Mas ignorar completamente um trabalho daquele calibre? Inaceitável.

Reassistindo agora, três elementos saltam aos olhos como dignos de indicação no mínimo. Primeiro: a atuação de DiCaprio como Teddy Daniels. O ator constrói um homem desmoronando psicologicamente sem nunca perder a fisicalidade — repare como ele segura o cigarro, como caminha, como seu olhar se desloca quando a realidade começa a ruir. É um trabalho de detalhe que a Academia costuma premiar em dramas ‘sérios’, mas ignorou porque o filme era ‘apenas terror’.

Segundo: a fotografia de Robert Richardson. A paleta de cores — aqueles amarelos doentes, os azuis gélidos do hospital, o vermelho sangue que aparece nos momentos-chave — não é estética vazia. Ela narrativiza a decadência mental do protagonista. Quando Teddy finalmente confronta a verdade, a luz muda completamente. É linguagem cinematográfica pura, do tipo que a Academia adora celebrar em filmes ‘artísticos’ — mas que foi ignorada aqui.

Terceiro: o roteiro de Laeta Kalogridis, adaptando Dennis Lehane, constrói um quebra-cabeça que funciona em múltiplas camadas. A primeira vez que você assiste, vê uma história de investigação. A segunda, percebe que cada linha de diálogo tem duplo sentido. É estruturalmente sofisticado — exatamente o tipo de coisa que rende indicação de roteiro adaptado.

O filme tem 69% no Rotten Tomatoes hoje, o que o coloca abaixo de outros trabalhos de Scorsese. Mas números não contam a história completa. ‘Ilha do Medo’ envelheceu bem. Muito bem. O que parecia confuso em 2010 hoje se revela deliberado. O que parecia excessivo agora se mostra calculado. É um filme que exigia tempo — e a Academia não teve paciência de dar.

Por que ‘What Happens at Night’ nasce favorito

Agora, a combinação de fatores é quase perfeita para Scorsese e DiCaprio acertarem onde erraram antes.

O projeto é baseado no romance de Peter Cameron, publicado em 2020, que acompanha um casal americano viajando a uma cidade europeia para adotar uma criança — empreendimento que se transforma em uma experiência de distorção da realidade. Já temos aqui elementos que a Academia adora: cenário europeu, dilemas morais, uma premissa que soa ‘literária’ o suficiente para não ser descartada como gênero puro.

O elenco pesa. DiCaprio vem de ‘Killers of the Flower Moon’, provando que sua parceria com Scorsese só se aprofunda com o tempo. Jennifer Lawrence retorna a um projeto com DiCaprio desde ‘Não Olhe para Cima’ (2021) — e sabemos que a Academia adora Lawrence, que já tem um Oscar e várias indicações. Mads Mikkelsen completa o time, trazendo credibilidade internacional e uma presença que combina perfeitamente com atmosferas perturbadoras.

Mas o fator decisivo é o contexto de gênero. A Academia que ignorou ‘Ilha do Medo’ em 2010 não é a mesma de 2026. Hoje, terror psicológico com ambição artística não é mais ‘filme de susto’ — é ‘cinema de autor explorando a condição humana através do medo’. A mudança de framing é crucial.

O que precisa funcionar para conquistar a Academia

Nada é garantido, especialmente com Scorsese. O diretor tem uma relação complicada com o Oscar: reverenciado, mas frequentemente preterido. ‘Taxi Driver’ perdeu para ‘Rocky’. ‘Touro Indomável’ perdeu para ‘O Homem Elefante’ (e, bem, ‘Gandhi’). ‘Goodfellas’ perdeu para ‘Dança com Lobos’. A lista de ‘injustiças’ é longa, e a Academia sabe disso — o que às vezes gera uma espécie de ‘voto de reparação’ tardio.

Para ‘What Happens at Night’ funcionar como candidato sério, três elementos precisam se alinhar.

Primeiro: o filme não pode confundir ‘complexidade’ com ‘hermetismo’. ‘Ilha do Medo’ sofreu com isso — parte da crítica e do público saiu frustrada, sentindo que o filme se fechava demais em sua própria mitologia. Se o novo projeto quiser evitar o mesmo destino, precisa encontrar o equilíbrio entre desafiar o espectador e oferecer pontos de ancoragem emocional.

Segundo: a performance de DiCaprio precisa ter um momento de ‘grito silencioso’ — aquela cena que se torna instantaneamente icônica e entra no imaginário coletivo. Pense no close-up final de ‘O Lobo de Wall Street’, ou na sequência da igreja em ‘Os Infiltrados’. A Academia vota com a memória afetiva. DiCaprio precisa dar a ela algo para lembrar.

Terceiro: a direção de Scorsese precisa ser visível sem ser ostensiva. O diretor já passou da fase de provar que é um mestre da linguagem cinematográfica. Agora, seus melhores trabalhos são aqueles em que a mão do autor se sente, mas não se impõe — como em ‘Silêncio’ (2016), onde cada escolha de enquadramento servia ao tema espiritual, e não ao ego do cineasta.

Correção tardia — ou nova injustiça?

Há algo de poético na possibilidade de ‘What Happens at Night’ finalmente render a Scorsese e DiCaprio o reconhecimento no gênero que ‘Ilha do Medo’ não conseguiu. Seria uma espécie de redenção dupla: do Oscar com o terror, e do Oscar com a parceria mais prolífica do cinema americano contemporâneo.

Mas cinema não funciona com justiça poética garantida. Scorsese sabe disso melhor que ninguém. O que temos é uma oportunidade — uma janela aberta que não existia há 15 anos. Se o filme for à altura do momento, teremos algo para celebrar. Se não, será mais um capítulo na longa história de desentendimentos entre a Academia e um de seus maiores cineastas vivos.

Eu, particularmente, estou otimista. A maturidade que Scorsese demonstrou em ‘Killers of the Flower Moon’ — aquele controle narrativo, aquela capacidade de sustentar três horas sem perder o fôlego — sugere que ele sabe exatamente o que está fazendo ao retornar ao terror psicológico. E DiCaprio, aos 51 anos (quando do lançamento previsto), está em um momento de carreira onde não precisa mais provar nada — apenas escolher projetos que o desafiem.

Fica a pergunta: se ‘What Happens at Night’ realmente conquistar o Oscar, isso reabrirá a discussão sobre ‘Ilha do Medo’? A Academia tem um histórico curioso de revisitar suas próprias decisões quando o contexto muda. Não seria a primeira vez que um filme ‘rejeitado’ é revalorizado anos depois. E se há um diretor que merece essa reavaliação, é Scorsese.

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Perguntas Frequentes sobre ‘What Happens at Night’

Quando estreia ‘What Happens at Night’ de Scorsese?

O filme ainda não tem data de estreia confirmada. Está em pré-produção com previsão de lançamento para 2026, mas cronogramas podem mudar dependendo do andamento das filmagens.

‘What Happens at Night’ é baseado em livro?

Sim. O filme adapta o romance homônimo de Peter Cameron, publicado em 2020. O livro acompanha um casal americano que viaja à Europa para adotar uma criança e enfrenta distorções da realidade.

Quem está no elenco de ‘What Happens at Night’?

O elenco confirmado inclui Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Mads Mikkelsen. A produção reúne DiCaprio e Lawrence, que trabalharam juntos em ‘Não Olhe para Cima’ (2021).

Onde assistir ‘What Happens at Night’?

A plataforma ainda não foi anunciada. Considerando o histórico recente de Scorsese com a Apple TV+ em ‘Killers of the Flower Moon’, é possível que o filme siga o mesmo caminho ou tenha distribuição cinematográfica tradicional antes do streaming.

Precisa ver ‘Ilha do Medo’ antes de ‘What Happens at Night’?

Não, os filmes não têm conexão narrativa. Porém, conhecer ‘Ilha do Medo’ (2010) ajuda a entender a relação de Scorsese com o terror psicológico e o contexto da ‘dívida’ da Academia com o diretor no gênero.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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