‘Desejo Obsessivo’ na Netflix é um thriller erótico com 25% no Rotten Tomatoes — mas o fracasso espetacular é o que o torna viciante. Analisamos por que a dissonância entre ambição e resultado cria o prazer culpado perfeito.
Existe uma categoria específica de entretenimento que a crítica especializada adora odiar e o público secretamente adora: aquele tipo de conteúdo tão desastradamente ruim que se torna irresistível. Desejo Obsessivo Netflix é exatamente isso — um thriller erótico de 2023 que foi massacrado pela crítica com apenas 25% no Rotten Tomatoes, mas que permanece na plataforma como um daqueles prazeres culpados que você assiste numa noite e, contra toda lógica, não consegue parar.
Não vou mentir: quando li as críticas na época do lançamento, achei que seria apenas mais um thriller genérico descartável. Mas há algo de fascinante no modo como essa série falha — e é exatamente esse fascínio que torna ‘Desejo Obsessivo’ um estudo de caso perfeito sobre como o erro pode gerar entretenimento legítimo.
Por que ‘Desejo Obsessivo’ é o ‘ruim de dar gosto’ definitivo
Vamos ser honestos sobre o que estamos lidando aqui. A premissa é um clássico do thriller erótico: William Farrow (Richard Armitage, o Thorin de ‘O Hobbit’) é um cirurgião respeitado e casado que desenvolve uma obsessão doentia por Anna Barton (Charlie Murphy, de ‘Peaky Blinders’) — que acontece de ser a noiva de seu filho. Escândalo, traição, tensão sexual: todos os ingredientes estão lá.
O problema é que a execução tropeça em quase todos os degraus. A química entre os protagonistas é tão inexistente que algumas cenas de intimidade beiram o constrangimento alheio. O roteiro se atrapalha tentando construir tensão psicológica e acaba entregando diálogos que soam como se tivessem sido traduzidos por um algoritmo sem noção de subtexto. Há momentos em que a câmera demora em closes dramáticos que deveriam transmitir angústia, mas só comunicam o desconforto do ator preso numa cena que não funciona.
Foi assim que a série encontrou seu propósito acidental. Porque quando tudo dá errado desse jeito específico — não de forma chata, mas de forma espetacularmente desastrada —, o resultado se torna involuntariamente hilário. Você começa a assistir esperando um thriller sério e, trinta minutos depois, está rindo de uma cena que deveria ser dramática. A série se transforma num exercício de humor não-intencional que nenhuma comédia conseguiria replicar de propósito.
O que torna o fracasso tão divertido de assistir
Parte do charme de ‘Desejo Obsessivo’ está na dissonância entre ambição e resultado. A produção claramente tentou fazer algo sofisticado — há uma cinematografia que a Rolling Stone descreveu como ‘mais cinematográfica do que precisava ser’, com atenção a composição de quadro e iluminação Moody. Mas quando você combina essa ambição visual com um roteiro que não sabe desenvolver personagens e um elenco que parece estar em páginas diferentes do mesmo livro, o resultado é uma espécie de ópera falhada: grandiosa em sua tentativa, bizarra em sua execução.
A Common Sense Media deu 2 de 5 estrelas e reclamou que a série é ‘anticlimática em todos os sentidos’. O Entertainment.ie disse que ela ‘se enrosca tentando ser interessante’. O Decider resumiu: ‘Desejo Obsessivo’ quer dar aos espectadores todo o sexy sem história nenhuma. Todas essas críticas são tecnicamente corretas — mas elas perdem um ponto crucial: às vezes, assistir algo se enroscar é exatamente o que você quer.
Pense nisso como o equivalente streaming de assistir um filme B de terror com amigos. Você não está lá pela qualidade técnica — está lá pelo espetáculo do absurdo, pelos momentos que fazem você perguntar ‘como isso foi aprovado?’, pela experiência compartilhada de testemunhar algo gloriosamente errado.
A comparação inevitável com o filme de 1992
Aqui é onde minha nerdisse de cinema entra: ‘Desejo Obsessivo’ é adaptação do romance ‘Perdas e Danos’ de Josephine Hart, que já havia sido levado às telas em 1992 por ninguém menos que Louis Malle — o cineasta francês responsável por ‘Atlantic City’ (indicado a 4 Oscars) e ‘Au Revoir les Enfants’, um dos filmes mais devastadores sobre a Segunda Guerra. O filme original estreou Jeremy Irons no papel que Armitage tenta ocupar agora, e rendeu a Miranda Richardson uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante.
A diferença entre as duas versões é esclarecedora. Malle entendia que a história de um homem destruindo a si mesmo por uma obsessão patológica exigia abordagem clínica, quase cirúrgica — câmera observadora, distância emocional, espaço para o espectador processar a tragédia. A versão da Netflix quer ser sexy e profunda simultaneamente, e nessa tentativa de ser tudo, acaba não sendo nada coerente.
Isso não é dizer que a série seja completamente sem valor. Para quem nunca viu a versão de Malle ou leu o romance, a premissa continua intrigante. O problema é que a execução transforma o que deveria ser um mergulho na psicologia da obsessão num melodrama que se leva a sério demais para seu próprio bem.
O veredito: vale suas 2 horas e 35 minutos?
Com apenas 4 episódios totalizando menos de 3 horas, ‘Desejo Obsessivo’ é compromisso mínimo. E é exatamente esse formato compacto que o torna perfeito para uma noite de ‘não tenho nada melhor pra fazer’. Você não precisa investir semanas acompanhando arcos complexos. É um filme longo dividido em quatro partes — assiste, ri do que tem que rir, se surpreende com algum momento que funciona, e no final pergunta pra si mesmo: ‘espera, isso foi ruim ou eu curti?’.
A resposta provavelmente é: os dois. E não há nada de errado nisso. O cinema e a televisão têm espaço para obras-primas que mudam sua vida, mas também têm espaço para entretenimento que simplesmente te faz passar algumas horas. Se essas horas incluem rir de cenas que deveriam ser dramáticas e torcer por personagens que o roteiro não sabe desenvolver, bom, isso é entretenimento também.
Para quem gosta de analisar falhas narrativas, discutir escolhas estranhas de direção e celebrar o fenômeno cultural do ‘tão ruim que é bom’, ‘Desejo Obsessivo’ é material obrigatório. Para quem busca um thriller erótico genuinamente bem feito, melhor procurar outro título. Mas se você está disposto a abraçar o absurdo, pode descobrir que o prazer culpado tem seus méritos.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Desejo Obsessivo’
Onde assistir ‘Desejo Obsessivo’?
‘Desejo Obsessivo’ está disponível exclusivamente na Netflix desde fevereiro de 2023. É uma produção original da plataforma.
Quantos episódios tem ‘Desejo Obsessivo’?
A série tem 4 episódios, totalizando aproximadamente 2 horas e 35 minutos. É um formato minissérie compacto.
‘Desejo Obsessivo’ é baseado em livro?
Sim. A série é adaptação do romance ‘Perdas e Danos’ (Damage), de Josephine Hart, publicado em 1991. O livro já havia sido adaptado em filme em 1992, dirigido por Louis Malle.
Qual a classificação indicativa de ‘Desejo Obsessivo’?
A série é classificada como 16 anos no Brasil e TV-MA nos EUA, por conter cenas de nudez, sexualidade e linguagem inapropriada para menores.
Quem são os atores principais de ‘Desejo Obsessivo’?
Richard Armitage (‘O Hobbit’) interpreta William Farrow, o cirurgião obcecado. Charlie Murphy (‘Peaky Blinders’) é Anna Barton, objeto da obsessão. O elenco ainda tem Indira Varma e Rish Shah.

