‘V de Vingança’ aos 20 anos: o legado cíclico que o diretor explica

Ao completar 20 anos, ‘V de Vingança’ permanece atual não por previsão, mas por entender ciclos históricos. James McTeigue explica como Thatcher, Bush e o presente repetem o mesmo padrão de crise — e por que o fascismo é retorno, não acidente.

Existem filmes que envelhecem bem e filmes que se tornam proféticos — duas coisas muito diferentes. ‘V de Vingança’ completa 20 anos em 2026 e cai na segunda categoria, mas não pelos motivos que a maioria imagina. James McTeigue, o diretor, tem uma tese que vale mais que qualquer análise técnica: a obra permanece relevante porque a história não é linear — é circular. E estamos, mais uma vez, no mesmo ponto da espiral.

O filme chegou aos cinemas em 2006 adaptando a graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, originalmente publicada em 10 edições entre 1982 e 1985. Moore, conhecido por sua aversão a adaptações hollywoodianas (pediu para ter seu nome removido dos créditos), criou uma história que já nascia datada — propositalmente. A obra refletia a Inglaterra sob Margaret Thatcher. Quando McTeigue e as Wachowskis a trouxeram para as telas, o contexto havia mudado: era o governo Bush, o pós-11 de setembro, o medo do ‘outro’ transformado em política de Estado. Agora, em 2026, a profecia se repete.

O ciclo que McTeigue identificou — e ninguém quis admitir

O ciclo que McTeigue identificou — e ninguém quis admitir

Em entrevista ao ScreenRant por ocasião do relançamento em 4K, McTeigue articulou algo que a maioria dos críticos ignorou na estreia: ‘Alan Moore e David Lloyd estavam no meio de um ciclo durante o período Thatcher quando escreveram a graphic novel. Quando fiz o filme durante o governo Bush, esses temas eram circulares e cíclicos. E talvez se tivermos outra discussão em 20 anos, podemos estar em outro desses ciclos como estamos agora.’ A frase carrega um peso incômodo. Não é autopromoção — é constatação de um padrão que ele, vindo de três décadas dentro da indústria, reconhece como estrutural.

O diretor não está dizendo que seu filme é genial. Está dizendo que o fascismo — ou melhor, a tentação fascista — não é um acidente histórico. É um retorno. Cada geração acredita que ‘dessa vez é diferente’, que a tecnologia, a globalização, a educação vão nos livrar do impulso de entregar liberdade em troca de segurança. ‘V de Vingança’ funciona como um espelho que aparece nos momentos certos, refletindo de volta o que a sociedade se recusa a ver.

Isso explica por que a obra não virou peça de museu. Diferentemente de outros filmes de protesto dos anos 2000 — ‘Syriana’ ou ‘O Jogo do Poder’, bem-intencionados mas datados em sua urgência — este mantém uma atualidade perturbadora. Não porque McTeigue e as Wachowskis previram o futuro. Mas porque entenderam o passado.

Quando a máscara de Guy Fawkes saiu da tela e foi para as ruas

Existe um fenômeno que nenhum estúdio poderia planejar: a máscara de Guy Fawkes deixou de ser adereço de cenário e se tornou símbolo político global. O grupo hacker Anonymous a adotou. Protestos contra a Cientologia no Brasil e nos EUA a usaram. O movimento Occupy. Manifestações no Egito em 2011. A imagem do rosto sorridente e pálido, bigodes finos e olhos negros atravessou a tela e ganhou as ruas — algo que nem ‘Matrix’, com toda sua influência cultural, conseguiu.

Isso não é mérito do filme sozinho. A graphic novel já carregava esse potencial anárquico. Mas a adaptação fez algo que Moore provavelmente detestou: romantizou V. No quadrinho, o personagem é mais ambíguo, mais perturbador, menos herói romântico. Hugo Weaving, sob aquela máscara imóvel, conseguiu injetar carisma suficiente para transformar um terrorista em ícone pop. A voz, a dicção teatral, os monólogos repletos de aliterações — ‘Voilà! In view, a humble vaudevillian veteran’ — criaram uma figura sedutora apesar de suas ações.

McTeigue reconhece o paradoxo. Nas suas palavras, V carrega ‘uma vingança assassina contra qualquer um que já lhe fez mal’, mas ainda assim coloca ‘a ideia política’ de que o público deve ‘mudar este governo em nível base’. O filme pede que o espectador simpatize com alguém que explodiu prédios e assassinou figuras de autoridade. Em 2006, isso já era provocativo. Em 2026, com a polarização política globalizada, é quase incendiário.

Das Wachowskis: despertar coletivo onde ‘Matrix’ ofereceu individual

Das Wachowskis: despertar coletivo onde 'Matrix' ofereceu individual

É impossível discutir ‘V de Vingança’ sem mencionar que o roteiro vem das Wachowskis — e que McTeigue foi assistente de direção na trilogia ‘Matrix’ antes de assumir este projeto. A assinatura está lá: a mistura de filosofia pop com imagens estilizadas, a crença de que um blockbuster pode ser entretenimento e manifesto político. Mas onde ‘Matrix’ falava de despertar individual, este filme fala de despertar coletivo.

A diferença é crucial. Neo precisa entender que o mundo é ilusão. Evey, interpretada por Natalie Portman em um papel que exigiu raspagem real de cabelo — não é maquiagem, ela cortou de verdade na cena — precisa entender que o mundo é real demais, e que a cumplicidade é uma forma de violência. A sequência em que ela é ‘presa’ por V, submetida a interrogatório, e emerge transformada, é o coração emocional do filme. Funciona porque Portman consegue vender uma jornada de vítima a cúmplice sem que pareça lavagem cerebral — ou talvez seja, e o filme está pedindo que questionemos isso.

McTeigue, em sua estreia em longa-metragem, demonstra controle surpreendente. A fotografia de Adrian Biddle (que morreria no ano seguinte) usa uma paleta de cores que separa mundos: o cinza-azulado do regime Norsefire versus o âmbar quase nostálgico do refúgio de V. Os planos-sequência durante as explosões não são exibicionismo — são declaração de que a violência tem consequências reais, não pode ser cortada em pedacinhos digeríveis.

A mensagem que o diretor deixa para 2026

Quando perguntado sobre o que públicos atuais deveriam levar do filme, McTeigue não citou a anarquia ou a violência: ‘O direito de uma sociedade livre ou uma democracia livre é ter uma voz. Acho que ser capaz de ter sua voz em um sistema político é realmente importante. Se você discorda de algo, faça uma arte, escreva algo, faça algo.’ É uma resposta quase moderada demais para um filme sobre explodir o Parlamento.

Mas há uma camada mais profunda. O diretor está dizendo que o filme foi, em si, um ato de expressão política. As Wachowskis usaram sua posição em Hollywood para financiar uma crítica ao autoritarismo. McTeigue usou sua oportunidade de estreia para fazer um manifesto disfarçado de blockbuster. Em uma indústria que prefere não alienar ninguém, isso tem valor.

O relançamento em 4K Ultra-HD chega em momento oportuno. Não é apenas celebração de aniversário — é recontextualização. Ver o filme hoje, com a nitidez que a tecnologia permite, faz os detalhes saltarem: os cartazes de propaganda do Norsefire, as telas de notícia manipuladas, o medo do ‘estranho’ instrumentalizado para controle. Você reconhece. Não porque o filme copiou a realidade, mas porque a realidade copiou padrões que o filme identificou.

Veredito: profecia que ninguém quis ouvir

‘V de Vingança’ não é perfeito. O ritmo desacelera no segundo ato, algumas linhas de diálogo soam pretensiosas, e a decisão de romantizar um terrorista permanece eticamente complicada. Mas esses defeitos importam menos que o que o filme acerta: ele entende que fascismo não surge do nada — surge do medo, da crise, da sensação de que ‘algo precisa mudar’. E oferece uma resposta perturbadora: talvez a mudança exija destruição.

O que McTeigue identifica como ‘ciclo’ é a parte que mais incomoda. Thatcher, Bush, agora — a cada 20 anos, aproximadamente, democracias enfrentam um momento em que a tentação autoritária se disfarça de solução. O filme funciona como alarme. Não um alarme sofisticado, com sirene graduada — um alarme que grita, que incomoda, que faz você querer desligar.

Para quem nunca viu, a experiência em 2026 será diferente de 2006. Você reconhecerá padrões. Para quem já conhece, a reprise em 4K vale pelo detalhe técnico — e pelo desconforto renovado. McTeigue e as Wachowskis fizeram algo que poucos blockbusters ousam: um filme que não quer ser amado, quer ser discutido. Vinte anos depois, ainda estamos discutindo. Talvez seja esse o maior elogio possível — e a maior crítica ao mundo que o tornou necessário.

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Perguntas Frequentes sobre ‘V de Vingança’

Onde assistir ‘V de Vingança’?

‘V de Vingança’ está disponível em várias plataformas de streaming, incluindo Netflix, Amazon Prime Video e HBO Max, dependendo da região. Em 2026, ganhou relançamento em 4K Ultra-HD para colecionadores.

‘V de Vingança’ é baseado em história real?

Não. É adaptação da graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, publicada entre 1982 e 1985. O nome V e a máscara de Guy Fawkes referenciam o conspirador católico que tentou explodir o Parlamento inglês em 1605, mas a trama é ficcional.

Por que Alan Moore não quer seu nome em ‘V de Vingança’?

Alan Moore tem aversão histórica a adaptaões hollywoodianas de seus quadrinhos. Ele pediu para ter seu nome removido dos créditos e não participou da produção, alegando que a graphic novel foi criada para o meio quadrinhos, não para cinema.

Qual a classificação indicativa de ‘V de Vingança’?

No Brasil, ‘V de Vingança’ tem classificação 14 anos. Contém violência, tortura, execuções e temas políticos densos. Nos EUA, é rated R (menores de 17 anos precisam de acompanhamento adulto).

Natalie Portman raspou o cabelo de verdade em ‘V de Vingança’?

Sim. Natalie Portman raspou a cabeça de verdade na cena em que Evey é presa e torturada. Não é efeito visual nem prótese — ela aceitou fazer isso para o papel.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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