‘Duna: Profecia’ é o elo fraco da franquia, mas a 2ª temporada tem salvação

A série ‘Duna: Profecia’ da HBO ficou devendo em comparação aos filmes de Villeneuve — dados do Rotten Tomatoes revelam a discrepância crítica. Explicamos como a mudança para Arrakis e dois episódios extras na 2ª temporada podem resgatar a qualidade.

Admitir que uma produção HBO ambientada no universo de Duna: Profecia seja apenas competente dói. Denis Villeneuve provou que adaptar Frank Herbert não era apenas possível, mas resultava em duas das melhores obras de ficção científica do século. A série, criada por Alison Schapker, chega como um parente distinto mas claramente menos ambicioso: funcional, mas nunca transcendente.

Os números contam uma história de discrepância desconfortável. Enquanto ‘Duna: Parte Um’ conquistou 83% dos críticos e 90% do público no Rotten Tomatoes, e ‘Duna: Parte Dois’ subiu para 92% e 95%, a série estacionou em 65% entre críticos e 63% entre audiência. Não são números ruins — são números medianos. E ‘mediano’ é o adjetivo que nenhum projeto com o sobrenome ‘Duna’ deveria carregar.

O problema de ser prequel de obras-primas

O problema de ser prequel de obras-primas

A comparação é injusta? Parcialmente. Villeneuve trabalhou com orçamentos de blockbuster e a liberdade de adaptar o material mais reverenciado da ficção científica literária. A série, ambientada 10.000 anos antes, precisou construir do zero uma narrativa que apenas tangencialmente conecta-se aos eventos que conhecemos. Mas aqui está o ponto: HBO não é qualquer plataforma. Quando sua reputação inclui ‘A Escuta’, ‘Família Soprano’, ‘Game of Thrones’ e ‘The Last of Us’, a barra está estratosférica.

O pecado central de Duna: Profecia não é falhar em alcançar os filmes. É falhar em justificar sua própria existência além de ‘mais conteúdo de Duna’. As atuações de Emily Watson e Olivia Williams carregam uma trama que nunca encontra o fôlego épico que o universo pede. A fotografia de Pierre Gill é elegante — palácios gélidos, paletas frias, composições simétricas — mas carece da textura visceral que Greig Fraser imprimiu nos filmes. Há intriga política, há conspirações religiosas, há o embrião da Bene Gesserit sendo formado. Mas tudo acontece num ritmo que parece mais um tratamento de roteiro esticado do que uma narrativa plenamente realizada.

Como seis episódios sabotaram o potencial

Aqui entra um problema estrutural que afeta produções atuais: a maldição das temporadas enxutas demais. Seis episódios parecem generosos até você perceber que cada um precisa carregar múltiplas funções narrativas — estabelecer personagens, construir mundo, desenvolver conflitos, entregar clímax. O resultado é uma sensação de constante apressamento.

Curiosamente, essa mesma restrição gera o efeito oposto: há momentos em que a trama parece estirada artificialmente, como se uma história que caberia em duas horas de cinema tivesse sido diluída em quatro horas de televisão. Essa contradição — simultaneamente apressada e arrastada — é sintoma de uma falta de clareza sobre o que a série quer ser. Não é thriller político suficientemente denso, não é drama de personagem suficientemente profundo, não é épico suficientemente grandioso. É um pouco de cada coisa, mas nunca o suficiente de nenhuma.

Os dois trunfos que podem salvar a segunda temporada

Os dois trunfos que podem salvar a segunda temporada

E agora o motivo de manter esperanças cautelosas. A segunda temporada de Duna: Profecia tem duas variáveis que podem reverter o diagnóstico: oito episódios em vez de seis, e a mudança de cenário para Arrakis. Parece simples, mas essas alterações endereçam exatamente os problemas que sabotaram a estreia.

O planeta deserto não é apenas um cenário icônico — é o personagem central de toda a mitologia de Duna. A areia, o sol implacável, os vermes, a especiaria como moeda e veneno: Arrakis impõe uma textura narrativa que Caladan ou Salusa Secundus jamais poderiam oferecer. Ao trazer a trama para onde os filmes acontecem, a série ganha acesso imediato ao simbolismo visual e temático que Villeneuve explorou com maestria. A tensão entre as Irmãs tentando sobreviver num ambiente hostil enquanto manipulam as grandes casas tem potencial dramático que a primeira temporada, presa em palácios gélidos, jamais alcançou.

Os dois episódios extras oferecem algo que a primeira temporada desesperadamente precisava: espaço para respirar. Oito episódios permitem que arcos se desenvolvam organicamente, que conspirações se desenrolem com a complexidade que o material exige, que o mundo seja construído com a riqueza que a mitologia de Herbert merece. A diferença entre seis e oito episódios pode parecer pequena no papel, mas na prática significa aproximadamente 120 minutos a mais de tela — tempo suficiente para transformar personagens esboçados em figuras que realmente importam.

A chance de deixar de ser nota de rodapé

A primeira temporada de Duna: Profecia cometeu o erro de tentar ser muitas coisas sem se comprometer plenamente com nenhuma. A segunda tem a oportunidade de escolher uma identidade e abraçá-la. Se quiser ser um thriller político sobre a formação da Bene Gesserit, que seja com a profundidade que ‘Game of Thrones’ oferecia em seus melhores momentos. Se quiser ser um estudo de personagem sobre mulheres forjando poder num universo que as subestima, que tenha a coragem de desacelerar e investigar suas protagonistas.

O sucesso de ‘Duna: Parte Três’ inevitavelmente colocará os holofotes de volta sobre a franquia. Se a segunda temporada entregar qualidade comparável aos filmes, a série deixa de ser ‘aquele spin-off menor’ e se torna parte essencial do cânone. Se falhar, permanecerá como uma nota de rodapé bem produzida num legado quase impecável.

Há algo de apropriadamente herbertiano nessa situação: a série precisa provar seu valor num ambiente hostil, cercada por expectativas implacáveis, com a sombra de obras maiores pairando sobre ela. Não é exatamente o que as personagens enfrentam? Se os roteiristas entenderem essa metalinguagem e a transformarem em narrativa, Duna: Profecia pode finalmente justificar seu lugar ao lado dos filmes. Se não, permanecerá como uma curiosidade para completistas.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Duna: Profecia’

Onde assistir ‘Duna: Profecia’?

‘Duna: Profecia’ está disponível exclusivamente na HBO Max. Todos os seis episódios da primeira temporada podem ser assistidos na plataforma.

Quantos episódios tem a primeira temporada de ‘Duna: Profecia’?

A primeira temporada tem seis episódios. A segunda temporada já foi confirmada com oito episódios — dois a mais que a estreia.

‘Duna: Profecia’ é prequel dos filmes?

Sim. A série se passa aproximadamente 10.000 anos antes dos eventos dos filmes de Denis Villeneuve, mostrando a origem da Bene Gesserit e as Irmãs que deram início à ordem.

Precisa ver os filmes para entender a série?

Não necessariamente. A série funciona de forma independente, mas quem conhece os filmes reconhecerá referências e entenderá melhor a importância da Bene Gesserit no universo de Duna.

Quando estreia a segunda temporada de ‘Duna: Profecia’?

A HBO ainda não divulgou a data de estreia da segunda temporada. A produção foi confirmada e deve chegar à plataforma ainda em 2026.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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