‘Deadwood’ supera ‘Yellowstone’ como o melhor faroeste do século 21

Defendemos por que ‘Deadwood’ (HBO, 2004) permanece a melhor série faroeste do século 21, superando ‘Yellowstone’ em complexidade narrativa e profundidade de personagens. Analisamos como a série de David Milch provou que o gênero encontrou na TV seu formato ideal.

Tenho uma confissão: quando ‘Yellowstone’ explodiu e todo mundo começou a chamar Taylor Sheridan de salvador do faroeste moderno, eu revirei os olhos. Não pela qualidade da série — ela tem seus méritos — mas pela amnésia coletiva. Em 2004, a HBO lançou uma série que fez pelo gênero o que ‘The Sopranos’ fez pelo drama criminal: elevou o patamar para sempre. Estou falando de ‘Deadwood’, e vou defender aqui por que ela continua sendo a melhor série faroeste do século 21, apesar do hype atual em torno do rancho dos Dutton.

A comparação pode parecer injusta à primeira vista. ‘Yellowstone’ tem produção cinematográfica, Kevin Costner no comando, e um orçamento que permite paisagens grandiosas de Montana. ‘Deadwood’ é uma série de quase duas décadas atrás, gravada em cenários mais contidos, com um elenco que — exceto por alguns nomes conhecidos — não tinha o apelo star power de um vencedor de Oscar. Mas aqui está o ponto: cinema não se faz só com paisagem e orçamento. Se fizesse, ‘Horizon’ teria sido um sucesso — e não o fracasso de bilheteria que teve sua sequência cancelada antes mesmo de estrear.

Por que ‘Deadwood’ estabeleceu o padrão que ‘Yellowstone’ apenas segue

Por que 'Deadwood' estabeleceu o padrão que 'Yellowstone' apenas segue

David Milch, criador de ‘Deadwood’, não queria fazer um faroeste tradicional. Ele queria fazer um estudo sobre civilização — como sociedades se formam a partir do caos, como a lei emerge da ausência de lei, como pessoas moralmente cinzentas constroem (ou destroem) comunidades. O cenário é Deadwood, Dakota do Sul, 1876. Uma cidade de garimpo sem lei, onde figuras históricas como Wild Bill Hickok e Al Swearengen convivem com personagens fictícios em uma teia de intrigas políticas, romances improváveis e violência brutal.

A complexidade de ‘Deadwood’ é o que a coloca em outro patamar. Ela funciona simultaneamente como thriller político, drama de personagem, romance, ação e até comédia negra. Os diálogos de Milch são um fenômeno à parte — uma mistura de Shakespeare com língua de rua, onde xingamentos se tornam poesia e ameaças são proferidas com eloquência perturbadora. Ian McShane, como o cafetino Al Swearengen, entrega um dos grandes personagens da história da TV: um homem monstruoso que, contra toda expectativa, se torna o centro moral ambíguo da série.

Timothy Olyphant, como o xerife Seth Bullock, cria um arquétipo de ‘homem da lei’ que subverte o clichê do herói faroeste. Bullock não é o xerife incorruptível de ‘Gunsmoke’ — ele é um homem lutando contra sua própria natureza violenta, tentando impor ordem em um lugar onde ordem é um conceito alienígena. A tensão entre sua postura rígida e o caos de Deadwood gera momentos elétricos — como na sequência em que ele perde o controle e espanca um homem até a morte diante de testemunhas horrorizadas, revelando que sua ‘civilidade’ é uma máscara frágil.

A comparação que ninguém quer fazer: ‘Yellowstone’ como soap opera disfarçada

Vou ser direto: reassisti ‘Deadwood’ inteira no ano passado, e tentei fazer o mesmo com ‘Yellowstone’. Desisti na terceira temporada. Não é que ‘Yellowstone’ seja ruim — ela entretém, tem momentos de tensão genuína, e Costner sabe exatamente o que está fazendo como o patriarca John Dutton. O problema é que, comparada a ‘Deadwood’, ela parece uma novela com orçamento de blockbuster.

A dinâmica familiar dos Dutton — segredos, traições, alianças que mudam a cada episódio — é envolvente, mas raramente surpreendente. Os personagens são definidos por suas lealdades ao clã, e as reviravoltas seguem uma lógica previsível de ‘quem está com os Dutton versus quem está contra’. Em ‘Deadwood’, as alianças mudam não por capricho narrativo, mas porque cada personagem tem motivações complexas que entram em conflito de formas orgânicas. A prostituta Trixie não é apenas uma coadjuvante — ela tem arcos de desenvolvimento que desafiam sua posição na hierarquia. O médico Doc Cochran luta com questões de fé e moralidade que transcendem sua função na trama.

O texto de Sheridan é funcional. O de Milch é literário. Isso não é esnobismo — é reconhecimento de que a escrita de ‘Deadwood’ opera em um nível que poucas séries ousam tentar. Quando Al Swearengen discute política com o corrupto senador ou quando a viúva Alma Garret luta contra o vício em ópio enquanto administra seu salão, cada linha de diálogo carrega camadas de significado. Em ‘Yellowstone’, os diálogos servem para mover a trama. Em ‘Deadwood’, a trama emerge dos diálogos.

O faroeste migrou do cinema para a TV — e ‘Deadwood’ foi pioneira

O faroeste migrou do cinema para a TV — e 'Deadwood' foi pioneira

Existe um fenômeno maior acontecendo aqui, que vai além da comparação entre duas séries. O faroeste, como gênero cinematográfico, está em crise existencial há décadas. Os anos 70 trouxeram um revival com ‘O Poderoso Chefão’ influenciando westerns revisionistas, os anos 90 tiveram seu momento com ‘Os Imperdoáveis’. Mas no século 21? Os fracassos se acumulam. ‘Horizon’ de Costner é apenas o exemplo mais recente — uma aposta ambiciosa que o público ignorou.

As exceções, como ‘Django Livre’ de Tarantino, provam a regra: são filmes que funcionam porque subvertem o gênero, não porque o celebram tradicionalmente. Enquanto isso, a televisão se tornou o verdadeiro lar do faroeste contemporâneo. E ‘Deadwood’ foi a série que provou que o formato longo serve melhor ao gênero do que o filme de duas horas.

Pense sobre isso: faroeste é, em sua essência, um gênero sobre construção de comunidade, sobre a tensão entre indivíduo e sociedade, sobre a formação de identidades em um ambiente hostil. Isso exige tempo. Exige que você viva com os personagens, veja-os evoluir, entenda suas contradições. Um filme pode mostrar um momento decisivo. Uma série pode mostrar uma civilização nascendo.

O sucesso de ‘Deadwood’ abriu as portas para uma explosão de faroestes na TV que continua até hoje. ‘Justificado’ pegou o arquétipo do xerife moderno e o trouxe para o Kentucky rural. ‘Inferno Sobre Rodas’ explorou a construção das ferrovias com a mesma obsessão por detalhes históricos. ‘Longmire: O Xerife’ provou que o gênero funciona também no contexto contemporâneo. ‘Dark Winds’ e ‘Além da Margem’ mostram que há espaço para diversidade dentro do formato. Até faroestes sci-fi como ‘The Mandalorian’ e ‘Firefly’ devem algo à prova de que o gênero funciona no formato serializado.

O veredito: por que o hype não muda a história

‘Yellowstone’ merece crédito por trazer novos públicos para o gênero e por inspirar uma nova onda de produções. Taylor Sheridan construiu um império midiático, e suas séries derivadas — ‘1883’, ‘1923’ — mostram que ele entende a importância de expandir a mitologia. Mas influência não é sinônimo de qualidade superior.

‘Deadwood’ permanece a melhor série faroeste do século 21 porque faz algo que ‘Yellowstone’ nem tenta: ela usa o gênero como veículo para explorar as profundezas da condição humana. Cada personagem, do mais nobre ao mais depravado, carrega uma humanidade que transcende o arquétipo. A violência não é espetáculo — é consequência. A política não é pretexto para intrigas familiares — é o próprio tecido da sociedade sendo tecido em tempo real.

A série foi cancelada precocemente em 2006 após três temporadas, deixando fãs em luto por mais de uma década. O filme de conclusão ‘Deadwood: The Movie’ só chegou em 2019, dando o fechamento que a narrativa merecia. O reconhecimento crítico veio em forma de oito Emmys e um Globo de Ouro para Ian McShane — mas mais importante que estatuetas é o legado: ‘Deadwood’ provou que a TV poderia fazer o que o cinema já não conseguia.

Se você nunca viu ‘Deadwood’, está com sorte: pode assistir pela primeira vez. A série completa (36 episódios em três temporadas) está em streaming, e o filme de 2019 dá o fechamento que os fãs esperaram por mais de uma década. Se você é fã de ‘Yellowstone’, recomendo dar uma chance — mas venha sem expectativas de novela. ‘Deadwood’ exige atenção, paciência e disposição para conviver com personagens que desafiam categorização moral.

O faroeste encontrou na TV seu formato ideal. Mas foi ‘Deadwood’, não ‘Yellowstone’, que mostrou o caminho. O hype do momento eventualmente passa. A qualidade permanece.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Deadwood’ e Faroestes na TV

Onde assistir ‘Deadwood’ completa?

‘Deadwood’ está disponível na HBO Max (Brasil) e Max (internacional). A plataforma oferece as três temporadas completas (36 episódios) mais o filme de conclusão ‘Deadwood: The Movie’ (2019).

Quantas temporadas tem ‘Deadwood’?

‘Deadwood’ tem 3 temporadas, totalizando 36 episódios. A série foi cancelada em 2006, mas ganhou um filme conclusivo em 2019 que encerra a narrativa.

‘Deadwood’ é baseada em história real?

Parcialmente. A série se passa em Deadwood, Dakota do Sul, 1876 — uma cidade real. Personagens como Wild Bill Hickok, Al Swearengen e Calamity Jane existiram de fato. Mas os eventos e muitos personagens secundários são fictícios ou dramatizados.

Precisa assistir ‘Deadwood’ antes do filme de 2019?

Sim, absolutamente. O filme ‘Deadwood: The Movie’ foi feito para fãs que acompanharam a série e assume conhecimento prévio dos personagens e conflitos. Sem ver as três temporadas, o filme terá pouco impacto emocional.

Por que ‘Deadwood’ foi cancelada?

A HBO cancelou ‘Deadwood’ em 2006 apesar da aclamação crítica. Razões incluem custos de produção elevados e conflitos criativos com o criador David Milch. O cancelamento foi controverso e gerou campanha de fãs que durou mais de uma década até o filme de 2019.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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