‘Euphoria’: por que o episódio 4 é o verdadeiro ponto de virada da série

O episódio 4 de ‘Euphoria’ resolveu o maior problema da série ao prender todo o elenco num único local. Analisamos como o carnaval criou um ecossistema narrativo e por que ‘Shook Ones Pt. II’ transformou promessa em fenômeno.

Tem algo que poucas séries conseguem fazer: transformar um episódio isolado em declaração de princípios. ‘Euphoria’ já nascia ambiciosa desde o piloto, com Rue nascendo nos escombros do 11 de Setembro e Jules ameaçando Nate com uma faca numa festa. Mas foi no episódio 4, ‘Shook Ones Pt. II’, que a série de Sam Levinson parou de prometer e começou a entregar — e o segredo está na estrutura, não no choque.

Ao prender todo o elenco num único local — o carnaval da cidade — Levinson resolveu o maior problema de qualquer série com ensemble grande: como fazer essas pessoas existirem no mesmo universo sem parecerem personagens de shows diferentes. A resposta foi geometricamente simples e narrativamente genial.

O carnaval como laboratório de caos controlado

O carnaval como laboratório de caos controlado

Os três primeiros episódios de ‘Euphoria’ funcionavam como introduções isoladas. Conhecemos Rue e sua história com Fezco. Vimos a toxicidade avassaladora de Nate e Maddy. Entendemos as inseguranças de Kat. Cada personagem habitava seu próprio quadrante narrativo, com conexões pontuais — Lexi sendo irmã de Cassie, Jules tendo transado com o pai de Nate — mas sem realmente colidir.

O episódio 4 mudou isso ao colocar todos no mesmo espaço físico. Não é apenas uma questão de economia narrativa; é sobre criar um ecossistema onde cada ação reverbera. Quando Cassie e Maddy compram pílulas de Ashtray, não é uma cena isolada — está acontecendo enquanto Rue e Jules descobrem a conexão entre ela e o pai de Nate. O carnaval funciona como centrífuga: acelera tudo, mistura tudo, e deixa impossível ignorar que esses personagens compartilham o mesmo mundo.

Revi esse episódio três vezes, e em cada revisão notei algo novo na forma como Levinson constrói a geografia do caos. A câmera nunca está parada — flutua entre os personagens como se fosse um morador daquela cidade, sabendo exatamente onde cada drama está prestes a explodir. Não é coincidência que a sequência do carrossel, provavelmente o momento mais icônico da primeira temporada, aconteça aqui: é o ápice visual de uma série que finalmente descobriu como ser muitas coisas ao mesmo tempo.

Quando beleza visual encontra melodrama lixo

Há uma comparação que pode parecer absurda à primeira vista, mas que define ‘Euphoria’ com precisão cirúrgica: essa série é tão filmada quanto ‘In the Mood for Love’, de Wong Kar-wai, e tão bagunçada quanto ‘Real Housewives’. O episódio 4 cristaliza essa dualidade.

Pegue a cena de Cassie no carrossel. Visualmente, é pura poesia: luzes rodopiando, o rosto dela em êxtase performático, a câmera capturando algo entre o onírico e o grotesco. Mas o que está acontecendo narrativamente? Uma garota montando um show erótico para uma cidade inteira. É lindo e patético ao mesmo tempo. É prestígio e lixo. É ‘Euphoria’ em sua forma mais pura.

Essa capacidade de equilibrar alto e baixo não é fácil. A maioria das séries escolhe um lado: ou são sérias e bem-feitas, ou são trash e assumidamente vulgares. Levinson criou algo que recusa essa escolha. O resultado divide o público — há quem ache a série sensacionalista e rasa, há quem a considere um retrato brutal da adolescência contemporânea. Mas ninguém fica indiferente, e isso é mérito do episódio 4.

O chili, o C-word e a arte da humilhação pública

O chili, o C-word e a arte da humilhação pública

Maddy marchando até os pais de Nate no meio do concurso de chili, chamando a mãe dele de ‘c-word’ e derramando a comida no chão não é apenas drama de adolescente. É uma declaração de guerra narrativa — o tipo de momento que define o tom de uma série inteira.

O que torna essa cena brilhante não é o choque, mas a construção. Maddy sentiu o julgamento de Marsha e Cal antes mesmo de eles falarem. A câmera mostra isso: os olhares, o desconforto, a classe social sendo usada como arma silenciosa. A resposta de Maddy é desproporcional, sim, mas é também a única forma que ela conhece de recuperar poder. É trágico e eletrizante ao mesmo tempo.

Essa cena encapsula algo que ‘Euphoria’ faria repetidamente: tomar melodrama e tratá-lo com seriedade visual e emocional. Não há ironia na direção — Levinson filma Maddy como se fosse uma heroína de tragédia grega. E de certa forma, é.

A estrutura de espelhos de Jules

O cold open do episódio 4 merece atenção separada. ‘Euphoria’ estabeleceu um formato nos primeiros episódios: cada abertura mergulhava no backstory de um personagem diferente. Rue, Nate, Kat — cada um com seu trauma revelado em sequências que funcionavam quase como curtas independentes.

O backstory de Jules é o mais sombrio de todos, e isso é dizer algo numa série que aborda vício em drogas e relacionamentos abusivos. Aos 11 anos, ela é levada pela mãe a um hospital psiquiátrico sob pretexto de uma visita. Só percebe que foi internada quando já é tarde demais. A mãe some. Ela não pode sair.

A estrutura do episódio cria um espelho cruel: começa com Jules sendo traída pela mãe, termina com ela sendo traída por ‘Tyler’. Nate revelando que era ele o tempo todo não é apenas um twist — é a confirmação de um padrão. Toda vez que Jules confia em alguém, o chão se abre. A série nunca permitiu que ela tivesse uma relação saudável, e o episódio 4 explica o porquê sem precisar de exposição direta. É roteiro econômico e devastador.

Por que esse episódio mudou tudo

Antes do episódio 4, ‘Euphoria’ era uma promessa. Depois dele, era um fenômeno. Não por acidente, mas porque Levinson finalmente resolveu o problema estrutural que mata muitas séries de ensemble: como fazer um elenco grande parecer orgânico.

A segunda temporada exploraria consequências desse modelo — Lexi e Fez desenvolvendo um romance adorável, Cassie e Nate mergulhando em um caso tóxico, Cal encontrando a espingarda de Ash. Tudo isso só foi possível porque o episódio 4 estabeleceu que esses personagens podem compartilhar tela. Pode parecer óbvio, mas não é. Quantas séries com elencos grandes nunca conseguem fazer seus personagens se cruzarem de forma significativa?

O carnaval foi o dispositivo perfeito. Um espaço público onde todos estão presentes, mas onde a privacidade é impossível. Onde segredos colidem e dramas paralelos se tornam um único caos. Foi ali que ‘Euphoria’ deixou de ser uma coleção de histórias sobre adolescentes e se tornou algo maior: um retrato de uma geração inteira tentando sobreviver a si mesma.

Se a terceira temporada for tão bagunçada quanto a segunda, ainda assim será televisão compulsiva. O padrão foi estabelecido aqui, neste episódio específico. De Cassie no carrossel a Maddy derramando chili, de Jules descobrindo a verdade sobre Tyler ao horror de sua própria origem, ‘Shook Ones Pt. II’ não é apenas o ponto de virada de ‘Euphoria’ — é sua declaração de identidade. Caos controlado, beleza vulgar, tragédia filmada como poesia. Isso é a série em sua forma mais pura.

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Perguntas Frequentes sobre Euphoria episódio 4

Qual é o título do episódio 4 de Euphoria?

O episódio 4 da primeira temporada de ‘Euphoria’ se chama ‘Shook Ones Pt. II’, referência à música do duo de hip hop Mobb Deep, lançada em 1995.

Onde assistir Euphoria no Brasil?

‘Euphoria’ está disponível no Brasil através do HBO Max (agora Max). A série é uma produção original HBO, então permanece exclusiva da plataforma.

Quantos episódios tem a primeira temporada de Euphoria?

A primeira temporada de ‘Euphoria’ tem 8 episódios, exibidos entre junho e agosto de 2019. Cada episódio tem aproximadamente 55 minutos de duração.

Qual é a classificação indicativa de Euphoria?

No Brasil, ‘Euphoria’ recebeu classificação 18 anos. A série contém cenas de uso de drogas, nudez, violência e temas sensíveis como abuso e automutilação.

Por que o episódio 4 é considerado o ponto de virada de Euphoria?

O episódio 4 concentra todo o elenco no carnaval, criando um espaço único onde todas as tramas colidem. Isso resolveu o problema de integrar o ensemble grande e estabeleceu o tom visual e narrativo que definiria a série.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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