Em ‘Algo Horrível Vai Acontecer’, Coldies parece um beco sem saída narrativo. Analisamos como a loja abandonada valida a intuição feminina ignorada e conecta mãe e filha através de uma herança de sensibilidade — o red herring mais significativo do terror recente.
Há um tipo específico de frustração que acomete quem assiste terror com atenção: ver um elemento narrativo aparentemente crucial… que não leva a lugar nenhum. Em ‘Algo Horrível Vai Acontecer’, a loja de frozen custard chamada Coldies parece exatamente isso — um beco sem saída. Mas aqui está o que a maioria dos espectadores perdeu: às vezes, o que parece ‘não levar a lugar nenhum’ é justamente o ponto.
A série de terror da Netflix constrói Coldies como um clássico red herring — aquele elemento narrativo criado para desviar a atenção do público. Descobrimos que Larry Poole, o dono da loja, assassinou três mulheres. Rachel, a protagonista, encontra um sapato de Barbie idêntico ao mencionado por uma sobrevivente no podcast sobre o caso. Descobrimos que a própria mãe de Rachel esteve lá em 1997. Tudo aponta para uma conexão sinistra. E então… nada. Poole não é o assassino de Ali. Não é o ‘Sorry Man’. Não resolve o mistério central.
Por que dedicar tanto tempo a um elemento ‘irrelevante’?
A resposta está no que Coldies revela sobre Rachel — e, por extensão, sobre todas as mulheres da série cuja intuição foi sistematicamente ignorada.
No primeiro episódio, Rachel desenha o logo de Coldies. Perfeitamente. Sem nunca ter visto. Nicky fica chocado, e a cena funciona como um sobressalto sobrenatural: de onde veio esse conhecimento? A série nunca explica. E essa é exatamente a questão. Rachel herdou de sua mãe algo que transcendia lógica — uma intuição visceral, quase premonitória, que os homens ao seu redor consistentemente confundem com neurose.
Veremos Ali, a mãe, em flashback: ela e Jay param em Coldies a caminho do próprio casamento. Jay acha o dono esquisito, mas engraçado. Ali sente algo errado imediatamente. Ela insiste em sair. Jay aceita, mas claramente como quem tolera uma eccentricidade da noiva, não como quem leva a sério um aviso real. O público sabe o que Ali não sabia: Larry Poole era um assassino serial. Ela estava certa. Ninguém a ouviu.
A validação silenciosa da ansiedade feminina
É aqui que o red herring de Coldies se transforma em algo mais profundo. A série poderia facilmente descartar Rachel e Ali como ‘mulheres ansiosas e paranoicas’ — afinal, Rachel estava errada sobre a família de Nicky querer sacrificá-la. Mas Coldies estabelece um contraponto crucial: essas mulheres não são ‘doidas’. Elas têm uma sensibilidade aguçada que o mundo ao redor se recusa a reconhecer.
Nicky chega a dizer, em determinado momento, que a ansiedade de Rachel a torna ‘difícil de amar’. É uma frase brutal, e a série quer que sintamos o peso dela. Os parceiros dessas mulheres — homens que afirmam amá-las, que se dizem suas ‘almas gêmeas’ — não conseguem distinguir entre intuição genuína e delírio. E essa falha de escuta tem consequências fatais.
Coldies funciona, então, como uma espécie de certificado de legitimidade. Quando Rachel sente que algo está errado, não é apenas ansiedade mal resolvida. É uma herança materna de alertas que foram ignorados uma vez — e cujas consequências foram devastadoras. A loja abandonada, com seu dono assassino e sua história enterrada, é o monumento a todas as vezes em que mulheres disseram ‘algo está errado’ e foram respondidas com ‘você está imaginando coisas’.
O simbolismo das raposas e a linhagem de sensibilidade
A série não é sutil com seus símbolos, e as raposas que aparecem ao longo da trama reforçam essa leitura. A primeira raposa — morta no vaso sanitário, sendo amamentada por filhotes recém-nascidos — representa Ali, que morreu grávida de Rachel. A segunda, capturada por Nicky mas que arranca o próprio pé para escapar, é a própria Rachel: ferida, mas viva. O paralelismo entre mãe e filha perpassa toda a narrativa, e Coldies é o ponto onde essa linhagem de intuição se manifesta mais claramente.
Ao fazer Rachel desenhar um logo que ela nunca viu, ‘Algo Horrível Vai Acontecer’ sugere algo próximo de uma memória genética — um conhecimento transmitido não por ensino, mas por sangue. Ali esteve naquele lugar. Ali sentiu o perigo. Ali escapou por pouco. Décadas depois, sua filha ‘sabe’ daquele lugar sem saber como. É uma conexão que a série propõe sem jamais explicar, e essa recusa em explicar é parte do ponto.
Quando o terror fala de casamento e desconfiança
Para uma produção que se vende como terror sobrenatural, ‘Algo Horrível Vai Acontecer’ é surpreendentemente interessada em dinâmicas de poder dentro de relacionamentos. Os presságios e símbolos — Coldies incluído — servem a um tema maior: a impossibilidade de ter certeza sobre o futuro, especialmente quando esse futuro envolve outra pessoa.
Rachel e Ali são mulheres que sentem o perigo antes de poder nomeá-lo. Seus parceiros, por sua vez, operam em um registro diferente — racional, tolerante, mas fundamentalmente surdo para frequências que não conseguem captar. A série não condena esses homens como vilões conscientes. Ela mostra algo mais perturbador: eles falham por incapacidade, não por maldade. E essa falha tem custos reais.
Coldies, nesse sentido, é o espelho invertido da trama principal. No arco central, Rachel suspeita da família de Nicky e está errada. Em Coldies, Ali suspeita de Larry Poole e está certa. A série equilibra essas duas verdades para fazer uma afirmação complexa: a intuição feminina não é infalível, mas também não é descartável. Às vezes ela erra o alvo. Às vezes ela salva vidas. O problema é que, em ambos os casos, ninguém parece disposto a levar essa intuição a sério até que seja tarde demais.
Um red herring com propósito
Reclamar que Coldies ‘não leva a nada’ é perder o que o elemento realmente faz. Ele não resolve o mistério central porque não foi desenhado para isso. Ele foi desenhado para nos lembrar de que Rachel e Ali carregam um fardo duplo: a ansiedade de sentir o perigo, e a solidão de ninguém acreditar nelas.
A loja abandonada, com seu assassino esquecido e suas vítimas sem nome, funciona como um memorial silencioso. É o testemunho de uma mulher que sentiu algo errado, agiu nessa intuição, e sobreviveu — sem jamais saber o quanto esteve perto da morte. É também o testemunho de uma filha que herda essa mesma sensibilidade, sem ter como explicá-la aos homens que afirma amar.
No final das contas, Coldies importa não pelo que acrescenta à trama, mas pelo que revela sobre as personagens. E talvez esse seja o melhor tipo de elemento narrativo: aquele que parece redundante até você perceber que estava olhando para o lugar errado o tempo todo.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Algo Horrível Vai Acontecer’
Onde assistir ‘Algo Horrível Vai Acontecer’?
‘Algo Horrível Vai Acontecer’ é uma série original da Netflix, disponível exclusivamente na plataforma desde outubro de 2024.
Quantos episódios tem ‘Algo Horrível Vai Acontecer’?
A primeira temporada tem 9 episódios, cada um com aproximadamente 45-55 minutos de duração.
‘Algo Horrível Vai Acontecer’ é baseado em livro?
Não. A série é uma criação original de Ian Brennan e Ryan Murphy, os mesmos criadores de ‘Dahmer: Um Assassino Americano’ e ‘American Horror Story’.
Quem é Larry Poole em ‘Algo Horrível Vai Acontecer’?
Larry Poole é o dono da loja Coldies, um assassino serial que matou três mulheres nos anos 1990. Ele funciona como um red herring na trama — não é o vilão principal, mas sua presença valida a intuição das personagens femininas.
Para quem é recomendado ‘Algo Horrível Vai Acontecer’?
A série é recomendada para quem aprecia terror psicológico com camadas temáticas densas. Envolve gravidez, ansiedade e dinâmicas de relacionamento. Não é indicada para quem busca apenas sustos ou violência gráfica — o foco está em atmosfera e simbolismo.

