A série ‘Magnatas do Crime’ expande o filme de Guy Ritchie com 400 minutos que permitem desenvolvimento de personagens impossível no cinema. Analisamos por que o formato série eleva o estilo do diretor, onde o filme ainda vence, e para quem cada versão serve melhor.
Guy Ritchie sempre pareceu um diretor que pertencia exclusivamente ao cinema. Seus filmes são construídos com a urgência de quem tem duas horas para prender sua atenção — cortes rápidos, diálogos afiados, tramas que se fecham antes que você perceba os furos. Mas ‘Magnatas do Crime’ série chega na Netflix com uma proposta diferente: e se o estilo Ritchie funcionasse melhor quando tem espaço para respirar?
Depois de assistir aos oito episódios da primeira temporada — e rever o filme de 2019 para comparação — a resposta me surpreendeu. A série não é apenas uma expansão competente do universo criado no cinema. É uma evolução que expõe as limitações do formato original.
Por que o formato série serve melhor ao estilo Ritchie
O filme de 2019 é competente, mas sofre de um problema recorrente na filmografia recente de Ritchie: compressão excessiva. Com 113 minutos, a produção precisa estabelecer o universo do submundo britânico, apresentar múltiplos personagens coloridos, construir tensão e entregar um final satisfatório. O resultado funciona, mas às custas de profundidade.
A Magnatas do Crime série resolve isso com elegância. Com aproximadamente 400 minutos distribuídos em oito episódios, Ritchie e sua equipe de roteiristas podem fazer algo que o cinema raramente permite: pausar. Há cenas inteiras dedicadas a conversas que não avançam a trama, mas constroem textura. Personagens secundários recebem arcos que justificam suas existências. O humor, que no filme muitas vezes soa como alívio forçado, aqui emerge organicamente das dinâmicas entre os personagens.
Ritchie dirigiu os dois primeiros episódios pessoalmente — e a diferença é visível. A câmera tem mais mobilidade, os enquadramentos são mais ousados, há aquele virtuosismo visual que marca filmes como ‘Snatch’ e ‘Lock, Stock’. Quando outros diretores assumem, a energia visual diminui, mas ganhamos em consistência narrativa. É uma troca honesta: perdemos um pouco da assinatura visual, ganhamos personagens que respiram.
Desenvolvimento de personagens que o filme não conseguia entregar
O maior pecado do filme de 2019 era seu protagonista. Matthew McConaughey fazia o que podia com um personagem que servia mais como fio condutor do que como presença viva. A série corrige isso com uma escolha de casting que parece óbvia em retrospecto: Theo James como Eddie Horniman, um aristocrata relutante que herda um império de maconha sem querer.
James, que demonstrou alcance dramático em ‘The White Lotus’, constrói um protagonista que funciona porque é passivo por escolha, não por falha do roteiro. A série entende que a jornada de um homem que não quer o poder — mas é forçado a exercê-lo — precisa de tempo para respirar. No filme, essa relutância seria reduzida a montagem rápida e voiceover. Aqui, vemos Eddie testar limites, errar, aprender e errar novamente.
Há uma sequência no terceiro episódio que exemplifica essa diferença: Eddie precisa interrogar um informante, e a cena dura quase sete minutos. No filme de Ritchie, isso seria condensado em 90 segundos de diálogos afiados e um golpe de violência. Na série, a conversa meandrica, cria desconforto, e quando a violência finalmente acontece, tem peso real. Não é estilo — é consequência.
Mas o verdadeiro triunfo está em como a série aprimora um personagem do filme. Bobby Glass, interpretado com alegria contida por Ray Winstone, é o tipo de figura que o cinema de Ritchie adora: o gângster sábio que serve como mentor e ameaça simultânea. No filme, esse arquétipo era funcional mas esquecível. Na série, Glass recebe um arco que subverte expectativas — incluindo um final de temporada que transforma o que parecia ser uma história de aposentadoria em algo mais sinistro.
Elenco afiado e referências que funcionam
A série também se beneficia de um elenco que entende exatamente o tom Ritchie sem cair em caricatura. Giancarlo Esposito, trazendo o peso de ‘Breaking Bad’, interpreta Stanley Johnston — um bilionário americano com olhos no império de maconha. O ator afirmou que Stanley é ‘mais leve’ que Gus Fring, e a diferença é perceptível: há uma diversão no vilão que Fring nunca permitiu.
Kaya Scodelario, de ‘Skins’, traz uma intensidade que equilibra o tom mais leve da série. Seu personagem, Susan ‘Susie’ Glass, funciona como contraponto cínico ao idealismo ingênuo de Eddie — uma dinâmica que o filme nunca teria tempo de desenvolver.
E Vinnie Jones, colaborador histórico de Ritchie, serve como ponte entre o universo estabelecido e esta nova iteração. Sua presença é breve mas significativa: conecta a série ao filme sem criar dependência narrativa.
O que impressiona é como a série usa referências sem se tornar derivativa. Os nomes de personagens do filme são mencionados, criando continuidade para fãs, mas nunca de forma que novos espectadores se sintam excluídos. É um equilíbrio difícil — muitas adaptações falham ao tentar agradar ambos os públicos. ‘Magnates do Crime’ consegue.
Comparação honesta: onde o filme ainda vence
Não seria justo dizer que a série é superior em todos os aspectos. O filme mantém uma coesão visual que a série, com diferentes diretores por episódio, não alcança consistentemente. Há momentos em que a energia Ritchie diminui — algo que nunca acontece no filme.
Além disso, o filme é mais ‘gritty’ — mais sujo, mais imediato, mais violento desde o primeiro minuto. A série constrói mais lentamente, o que serve ao desenvolvimento de personagens, mas pode frustrar quem busca a adrenalina pura do cinema de Ritchie.
A questão é: o que você valoriza mais? Se a resposta for ritmo implacável, o filme ainda é a melhor opção. Se for personagens que você realmente entende e pelos quais se importa, a série vence com folga.
Veredito: quando mais é realmente mais
A série ‘Magnatas do Crime’ representa algo raro: uma adaptação que justifica sua existência não por expandir uma propriedade intelectual, mas por melhorá-la. O formato longo permite que Ritchie explore nuances que o cinema comprava, e o resultado é uma obra que mantém o estilo reconhecível do diretor enquanto o eleva.
Com 84% de aprovação do público no Rotten Tomatoes — mesma pontuação do filme — a série prova que qualidade técnica não precisa ser sacrificada em nome de extensão. E com a segunda temporada confirmada para 2026, há espaço para que essa evolução continue.
Para quem curte o universo Ritchie, a série é obrigatória. Para quem achou o filme competente mas esquecível — como eu — esta versão pode ser a que finalmente faz você entender por que o estilo do diretor tem tantos devotos.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Magnatas do Crime’ série
Onde assistir ‘Magnatas do Crime’ série?
‘Magnatas do Crime’ está disponível exclusivamente na Netflix. A primeira temporada completa foi lançada em março de 2024.
Precisa ter visto o filme para entender a série?
Não. A série funciona como história independente, com novos personagens principais. Há referências ao filme de 2019, mas elas enriquecem a experiência sem serem necessárias para entender a trama.
Quantos episódios tem a primeira temporada?
A primeira temporada tem 8 episódios, com duração entre 45 e 60 minutos cada. O total é de aproximadamente 400 minutos — quase 4 vezes a duração do filme.
Guy Ritchie dirigiu a série?
Sim, Ritchie dirigiu os dois primeiros episódios e é criador e produtor executivo da série. Os episódios seguintes foram dirigidos por outros diretores, o que cria uma variação de energia visual ao longo da temporada.
‘Magnatas do Crime’ tem segunda temporada?
Sim. A Netflix confirmou a segunda temporada para 2026. Theo James e Kaya Scodelario devem retornar como protagonistas.

