‘Rings of Power’: a crítica de Sanderson e o erro do ‘grimdark’ na TV

A crítica de Brandon Sanderson a ‘Os Anéis do Poder’ expõe um problema maior: a obsessão da TV por tom sombrio que trai obras como Tolkien e Harry Potter. Entenda por que ‘grimdark’ automático é o maior erro da fantasia atual.

Quando um dos maiores autores de fantasia viva resolve criticar uma adaptação, vale prestar atenção. Não pelo peso do nome, mas pela precisão do diagnóstico. A Rings of Power crítica feita por Brandon Sanderson — autor que completou ‘A Roda do Tempo’ após a morte de Robert Jordan e criou sistemas mágicos com a precisão de um engenheiro — acerta um ponto que vai muito além da série da Amazon: a obsessão do entretenimento moderno pelo “grimdark”.

Sanderson não destruiu ‘O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder’. Pelo contrário, disse que gostou da série no geral. Mas seus apontamentos, feitos em seu podcast Intentionally Blank, expõem um vício que se repete em praticamente toda a fantasia live-action dos últimos anos. De ‘The Witcher’ a ‘A Casa do Dragão’, de ‘A Roda do Tempo’ ao reboot de ‘Harry Potter’ da HBO — todos sofrem do mesmo mal: a incapacidade de aceitar que fantasia pode ter esperança, wonder, leveza.

O erro dos “Hobbits grimdark” que Sanderson identificou

O ponto mais incisivo da análise de Sanderson foca nos Harfoots — os ancestrais nômades dos Hobbits. Na série, essa sociedade tem uma regra cruel: se alguém se perder na estrada, os outros seguem em frente. Não voltam. Não resgatam. Deixam para trás.

Para Sanderson, isso trai algo fundamental sobre quem são os Hobbits. “Não precisamos de Hobbits grimdark. Realmente não precisamos”, ele afirmou. E está certo — não porque Hobbits devam ser santos, mas porque seu encanto reside na bondade simples, na solidariedade sem grandiosidade. Transformá-los em uma sociedade que abandona os próprios por pragmatismo de sobrevivência é como fazer um filme sobre o Pica-Pau onde ele é um predador implacável. Tecnicamente possível, mas perde completamente o ponto do personagem.

A crítica se estende a outras escolhas: moradores de uma fortaleza abandonando posições defensivas para lutar em terreno aberto contra orcs; cavalaria de Númenor cavalgando do oceano até a batalha com soldados em armadura completa — cavalos que, na vida real, chegariam exaustos. Sanderson nota quando a lógica interna de um mundo desmorona.

Por que “grimdark” virou obrigação e não escolha

O que torna esses comentários tão relevantes é que eles não se aplicam apenas a ‘Os Anéis do Poder’. Descrevem um padrão. ‘The Witcher’ foi criticada por diluir o humor peculiar dos livros em favor de um tom uniformemente sombrio. ‘Game of Thrones’ construiu sua identidade no “gritty realism” — e quando ‘A Casa do Dragão’ chegou, duplicou a aposta. ‘A Roda do Tempo’, série que Sanderson conhece melhor que qualquer pessoa viva, ignorou suas anotações sobre o final da saga, gerando frustração pública do próprio autor.

O sintoma é claro: adaptadores parecem envergonhados do material que adaptam. Como se elfos, magos e criaturas mágicas fossem “infantis” demais para TV “séria”. A solução? Adicionar sangue, cinismo, moralidade cinzenta até onde não deveria existir. O resultado é uma homogeneização bizarra — como se cada chef decidisse que todos os pratos precisam de molho de soja porque “dá profundidade”.

O caso mais revelador é o trailer da série de ‘Harry Potter’ da HBO, lançado em março de 2026. A diferença é gritante: os tons quentes e vibrantes do filme de Chris Columbus foram substituídos por uma paleta sombria, quase opressiva. Os Dursleys são abusivos de forma mais explícita. Tudo parece… adulto. Sério. Importante. Mas ‘Harry Potter’ conquistou o mundo justamente pelo contrário: pela capacidade de equilibrar o whimsical com o sombrio. ‘O Prisioneiro de Azkaban’ é considerado o ponto de virada justamente porque manteve o encanto enquanto escurecia — não porque abandonou o encanto.

Os contraexemplos que provam a regra

Os contraexemplos que provam a regra

A ironia é que o sucesso de abordagens mais equilibradas está bem ali. ‘Percy Jackson e os Olimpianos’ foi saudado como um sopro de ar fresco justamente por manter o tom leve dos primeiros livros. As animações ‘A Lenda de Vox Machina’ e ‘The Mighty Nein’ — ambas da Prime Video, mesma plataforma de ‘Os Anéis do Poder’ — equilibram humor absurdo com momentos genuinamente sombrios sem perder a alma.

No cinema, o Superman de 2025 foi amado por apostar em esperança inabalável — exatamente o oposto do fracassado Universo Estendido DC, que tentou fazer um Superman sombrio porque “é assim que se leva a sério”. O público está mandando uma mensagem clara: queremos fantasia que seja fantasia, não fantasia que tenta ser ‘The Dark Knight’ com elfos.

A segunda temporada de ‘Os Anéis do Poder’ já mostrou ajustes. A trama dos Harfoots foi reduzida ao núcleo que funcionava — Nori, Poppy e Gandalf — exatamente o que Sanderson elogiou na primeira. As cenas de batalha ganharam escala e lógica tática. A série parece ter ouvido as críticas. A pergunta é se outras produções farão o mesmo.

O que a indústria precisa aprender com Sanderson

O problema não é que existam obras sombrias. ‘Game of Thrones’ funcionou porque George R.R. Martin construiu um mundo onde a brutalidade tem consequências e significado. O problema é a aplicação automática desse filtro em qualquer propriedade intelectual que chega às mãos de um estúdio. É a transformação de escolha estética em obrigação comercial.

Fantasia, no seu melhor, oferece algo que o “grimdark” constante não consegue: a capacidade de acreditar que coisas boas podem acontecer. Que heróis podem ser bons sem serem bobos. Que esperança não é ingenuidade. Tolkien sabia disso — ele viveu as trincheiras da Primeira Guerra Mundial e ainda escreveu sobre Hobbits que fazem o segundo café da manhã. Não porque era ingênuo, mas porque entendia que o encanto é uma forma de resistência.

Se ‘Os Anéis do Poder’ e suas companheiras de gênero querem sobreviver à era da fragmentação de audiência, precisam aprender essa lição. O público está cansado de cinismo obrigatório. Querem mundos onde ainda faz sentido sonhar.

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Perguntas Frequentes sobre a crítica de Sanderson

O que é “grimdark” na fantasia?

“Grimdark” é um subgênero de fantasia caracterizado por tom sombrio, moralidade ambígua, violência gráfica e cinismo. O termo vem do slogan de ‘Warhammer 40K’: “No futuro, há apenas guerra”. O problema surge quando essa estética é aplicada automaticamente em obras que originalmente tinham esperança e encanto como elementos centrais.

Quem é Brandon Sanderson e por que sua opinião importa?

Brandon Sanderson é um dos autores de fantasia mais vendidos do mundo. Ele completou a série ‘A Roda do Tempo’ após a morte de Robert Jordan e criou o universo do Cosmere, incluindo séries como ‘Mistborn’ e ‘Arquivo das Tempestades’. Sua opinião importa por sua expertise em construção de mundos e sistemas mágicos, e por conhecer ‘A Roda do Tempo’ melhor que qualquer pessoa viva.

Onde assistir ‘Os Anéis do Poder’?

‘Os Anéis do Poder’ está disponível exclusivamente na Amazon Prime Video. A primeira temporada estreou em setembro de 2022 e a segunda em agosto de 2024. A série já foi renovada para uma terceira temporada.

A segunda temporada de ‘Os Anéis do Poder’ é melhor que a primeira?

A segunda temporada mostrou melhorias significativas. A trama dos Harfoots foi condensada para os personagens que funcionavam, as batalhas ganharam lógica tática, e a série pareceu responder a críticas como a de Sanderson. Muitos críticos consideram a segunda temporada mais focada e consistente.

Quando estreia a série de ‘Harry Potter’ da HBO?

A série de ‘Harry Potter’ da HBO está prevista para estrear no final de 2026 ou início de 2027. O trailer divulgado em março de 2026 gerou debate justamente pelo tom mais sombrio em comparação aos filmes originais.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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