‘O Testamento de Ann Lee’ estreia na Hulu após aclamação e ‘snub’ no Oscar

‘O Testamento de Ann Lee’ chega à Hulu após arrecadar menos de US$ 4 milhões em cartazes, apesar de 86% de aprovação crítica e indicação de Amanda Seyfried ao Globo de Ouro. Analisamos por que este drama musical sobre a fundadora dos Shakers foi ignorado no Oscar e merece ser descoberto no streaming.

Filmes que a crítica adora e o público ignora têm algo de fascinante — como peças de teatro para plateias minúsculas, onde a intimidade cria uma conexão que blockbusters lotados jamais conseguiriam. ‘O Testamento de Ann Lee’ é exatamente esse tipo de obra: arrecadou menos de US$ 4 milhões nas bilheterias, alcançou 86% no Rotten Tomatoes, e agora ganha uma segunda chance na Hulu a partir de 31 de março.

Não é um fracasso comercial comum. É o tipo de desempenho que revela algo sobre o momento do cinema — e sobre como certos filmes simplesmente não nascem para o modelo de multiplex. Drama histórico sobre uma seita religiosa do século XVIII, com números musicais incorporados organicamente à narrativa? Em 2025, isso nunca seria receita para sucesso de bilheteria. Mas pode ser exatamente o tipo de experiência que encontra seu público ideal no streaming.

A aclamação que não virou bilheteria — nem indicação ao Oscar

A aclamação que não virou bilheteria — nem indicação ao Oscar

Os números contam uma história irônica. Amanda Seyfried recebeu indicação ao Globo de Ouro por sua atuação como Ann Lee, a fundadora dos Shakers. A canção ‘Clothed By the Sun’ concorreu ao Critics’ Choice Awards. Críticos descreveram o filme como ‘hipnótico’, ‘não convencional’ e ‘prazeroso’ — elogios que qualquer estúdio adoraria estampar em pôsteres. A aprovação de 86% no Rotten Tomatoes com selo ‘Certified Fresh’ não é algo comum.

Quando os indicados ao Oscar foram anunciados em 22 de janeiro, porém, o filme foi completamente ignorado. Nenhuma menção a Seyfried, nada para a diretora Mona Fastvold, nem reconhecimento técnico para música ou fotografia. Foi um ‘snub’ coletivo que diz menos sobre a Academia do que sobre o filme — ou talvez sobre como obras experimentais não se encaixam no modelo de campanha de premiação.

O contraste é gritante: como um filme pode ser bom o suficiente para indicações ao Globo de Ouro, Critics’ Choice, Astra e Gotham, mas não merecer nem uma menção honrosa da Academia? A resposta provavelmente envolve visibilidade. Sem campanha agressiva de estúdio, sem lançamento expansivo, filmes como este simplesmente não existem para os votantes.

O que torna o filme digno de atenção

Primeiro, o contexto: Mona Fastvold já foi indicada ao Oscar como roteirista, então sabe o que está fazendo. Ela co-escreveu este filme com Brady Corbet, seu parceiro na vida real, e os dois também produziram juntos. Não é um projeto de encomenda de estúdio — é algo pessoal, com visão autoral clara.

A premissa soa seca no papel: Ann Lee, mulher do século XVIII que fundou uma seita religiosa Shaker, tenta criar uma comunidade utópica enquanto carrega traumas do passado. Mas o que eleva o material é como música e narrativa se entrelaçam. Não é um musical tradicional com números que interrompem a história — a música emerge organicamente, como expressão de fé e comunidade. Os números musicais funcionam como extensão da espiritualidade Shaker, onde dança e canto eram formas de adoração.

Seyfried, claro, não é novata em musicais. Depois de ‘Mamma Mia!’ e sua sequência, e de ter cantado em ‘Os Miseráveis’, ela sabe usar a voz como ferramenta dramática. O diferencial aqui é que Ann Lee não é uma heroína romântica — é uma figura complexa, marcada por trauma, cuja visão de utopia carrega algo perturbador por baixo da superfície. Críticos apontaram esta atuação como um novo ponto alto na carreira dela. Considerando que ela já foi indicada ao Oscar por ‘Mank’, isso não é elogio pequeno.

Lewis Pullman, que audiences reconhecerão de ‘Top Gun: Maverick’, interpreta William Lee, irmão de Ann. O elenco ainda inclui Thomasin McKenzie (‘Last Night in Soho’), Christopher Abbott e uma série de rostos menos conhecidos que se fundem em um verdadeiro ensemble — algo essencial para um filme sobre construção de comunidade.

O destino que streaming reserva para joias escondidas

O destino que streaming reserva para joias escondidas

Há algo de justiça poética em ‘O Testamento de Ann Lee’ chegar à Hulu (e ao Hulu no Disney+) agora. O mesmo público que não compareceu em massa ao cinema talvez descubra, navegando pelo catálogo, um filme que nunca ouviu falar — e se surpreenda.

É o efeito ‘recomendação de amigo’ em escala. Streaming permite descobertas casuais que o modelo de cinema não favorece. Você não precisa pagar ingresso, não precisa se deslocar, não precisa apostar em algo desconhecido. Só precisa clicar em ‘play’ — e se os primeiros 15 minutos te pegarem, você segue.

Para um filme que depende tanto de atmosfera e construção gradual, esse formato pode ser mais adequado do que a sala de cinema barulhenta com pipoca e celular vibrando. A intimidade do streaming casa com a intimidade da narrativa.

Para quem este filme foi feito

Se você procura entretenimento escapista puro, passe direto. Este não é o filme para uma noite de descompressão mental. Mas se você aprecia cinema que assume riscos formais, que mistura gêneros sem pedir desculpas, que trata o espectador como adulto capaz de lidar com ambiguidade — coloque na lista.

Fãs de Seyfried vão ver um lado diferente da atriz. Interessados em história religiosa americana vão encontrar algo raro no cinema mainstream. E quem curte musicais não convencionais — pense ‘Emilia Pérez’ ou certos experimentos de Lars von Trier — vai reconhecer um primo distante desse estilo de narrativa cantada.

‘O Testamento de Ann Lee’ prova que sucesso de bilheteria e qualidade cinematográfica raramente caminham juntas. Às vezes o melhor filme do ano é aquele que quase ninguém viu. E às vezes o streaming corrige essa injustiça — não com marketing bombástico, mas com a simples disponibilidade de estar lá quando você finalmente o procura.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Testamento de Ann Lee’

Onde assistir ‘O Testamento de Ann Lee’?

‘O Testamento de Ann Lee’ está disponível na Hulu a partir de 31 de março de 2026. No Brasil, o filme deve chegar ao Star+, que compartilha catálogo com a Hulu.

‘O Testamento de Ann Lee’ é baseado em história real?

Sim. O filme é baseado na história real de Ann Lee (1736-1784), fundadora da seita religiosa Shakers nos Estados Unidos. Os Shakers eram conhecidos por suas práticas comunitárias, celibato e danças rituais como forma de adoração.

Amanda Seyfried canta no filme?

Sim. Seyfried, que já demonstrou suas habilidades vocais em ‘Mamma Mia!’ e ‘Os Miseráveis’, canta no filme. A canção ‘Clothed By the Sun’, que ela interpreta, foi indicada ao Critics’ Choice Awards.

Por que ‘O Testamento de Ann Lee’ foi ignorado no Oscar?

O filme não recebeu indicações ao Oscar provavelmente por falta de visibilidade. Com bilheteria de apenas US$ 4 milhões e lançamento limitado, não teve campanha agressiva de estúdio para alcançar os votantes da Academia, apesar da aclamação crítica.

Quem dirigiu ‘O Testamento de Ann Lee’?

O filme é dirigido por Mona Fastvold, diretora norueguesa que já foi indicada ao Oscar por seu trabalho como roteirista. Ela co-escreveu o filme com Brady Corbet, seu parceiro e também diretor de cinema.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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