‘The Ugly Stepsister’: o filme de terror que antecipa o spinoff da Disney

Enquanto a Disney prepara spinoff humanizando as irmãs da Cinderela, o terror norueguês ‘The Ugly Stepsister’ já fez isso com 96% no Rotten Tomatoes. Analisamos como o body horror de Emilie Blichfeldt transforma uma vilã em protagonista complexa — e o que a Disney pode aprender com isso.

Há uma ironia deliciosa no fato de a Disney estar desenvolvendo Stepsisters, um spinoff focado nas irmãs da Cinderela, enquanto um pequeno filme de terror norueguês já executou essa mesma premissa — e com 96% de aprovação no Rotten Tomatoes. The Ugly Stepsister chegou primeiro, e fez algo que a Casa do Rato hesitaria em tentar: transformar a ‘vilã’ feia em protagonista complexa, usando body horror para explorar a crueldade dos padrões de beleza.

Como ‘The Ugly Stepsister’ usa o grotesco para humanizar uma vilã esquecida

O conto da Cinderela nos ensinou a torcer contra as irmãs. Elas são cruéis, invejosas, ridículas — caricaturas de maldade criadas para justificar a virtude da protagonista. Mas e se você nascesse no lugar errado dessa história? Essa é a pergunta que a diretora Emilie Blichfeldt faz com uma precisão cirúrgica, literalmente.

O filme segue Elvira, a mais velha das irmãs, interpretada por Lea Myren com uma entrega física que mistura vulnerabilidade e desesperio. Quando Elvira se dispõe a qualquer coisa para competir pela atenção do príncipe, não é hipérbole: há uma sequência de cirurgia nasal feita sem anestesia que precisei pausar para respirar. Não é choque barato — cada momento de dor física carrega peso narrativo, conectando o horror do corpo à devastação psicológica de quem cresce acreditando que vale menos por não caber num molde.

Blichfeldt entende que body horror não é apenas um gênero de efeitos viscerais. É uma linguagem. Cronenberg usa para falar de tecnologia e identidade. Blichfeldt usa para falar de beleza como violência sistêmica. A cena em que Elvira engole um ovo contendo uma tênia para emagrecer não funciona apenas como grotesco visual — funciona como crítica afiada a uma sociedade que ensina mulheres a verem seus corpos como inimigos a serem domados.

A empatia que a Disney vai tentar replicar (sem o sangue)

Aqui está onde a comparação com o futuro Stepsisters se torna inevitável — e fascinante. O projeto da Disney, dirigido por Akiva Schaffer, promete humanizar Anastasia e Drizella. O problema? Humanização superficial é fácil. Dar profundidade a personagens originalmente criados como piada é outra coisa.

The Ugly Stepsister resolve isso não tentando convencer você de que Elvira é ‘boazinha’. Ela continua fazendo escolhas terríveis. O filme não pede desculpas por ela — pede compreensão. Mostra de onde vêm as cicatrizes emocionais que transformam pessoas em algo que elas mesmas não reconhecem.

Há uma diferença crucial entre ‘redimir’ um vilão e ‘compreender’ um vilão. O primeiro reescreve o passado. O segundo ilumina o que já estava lá, mas ninguém quis ver. Blichfeldt escolhe a segunda via, e é por isso que o filme funciona sem sentir necessidade de suavizar nada.

A Disney tem histórico complicado com essa distinção. Cruella (2021) tentou transformar uma vilã icônica em protagonista simpática, explicando sua maldade como fruto de trauma. Funcionou comercialmente, mas deixou uma pergunta no ar: precisamos realmente que todo vilão tenha um ‘lado bom’, ou podemos aceitar que pessoas complexas cometem atos imperdoáveis?

O que o spinoff da Disney pode aprender com o sucesso do terror norueguês

O que o spinoff da Disney pode aprender com o sucesso do terror norueguês

O maior desafio de Stepsisters não é técnico nem orçamentário. É conceitual: como fazer um filme sobre duas mulheres que humilharam uma órfã e ainda assim criar conexão genuína com a audiência?

The Ugly Stepsister oferece um mapa, mas a Disney vai precisar coragem para segui-lo. O filme norueguês não teme mostrar a feiura — física e moral — de sua protagonista. Elvira é manipuladora, cruel, desesperada. Mas entendemos por quê. E esse ‘por quê’ não vem de um monólogo explicativo, mas de uma construção paciente que mostra, cena a cena, como a pressão externa molda a destruição interna.

A versão da Disney provavelmente não terá cirurgias caseiras ou vermes intestinais. Justo. Mas pode aprender que empatia não exige sanear o personagem. Exige apenas honestidade sobre o que o moldou. Anastasia e Drizella podem continuar antipáticas — desde que entendamos o que as tornou assim, e reconheçamos pedaços dessa mesma pressão em nossas próprias vidas.

Há também uma oportunidade narrativa que o filme norueguês explora bem: a origem diferente para o apelido de ‘Cinderela’. Sem entrar em spoilers, a revelação ressignifica toda a dinâmica familiar de formas que o conto original nunca imaginou. É o tipo de reviravolta que só funciona quando você se importa genuinamente com quem está do outro lado da história.

Veredito: o terror que a Disney deveria assistir antes de filmar

The Ugly Stepsister não é um filme para todos os paladares. O body horror é gráfico, a tensão é constante, e não há alívio fácil. Mas para quem aguenta, oferece algo raro: uma releitura de conto de fadas que adiciona camadas em vez de subtrair, que complica em vez de simplificar.

Para o público da Disney acostumado com redenção limpa e finais reconfortantes, pode ser um choque. Mas talvez seja o choque necessário. Às vezes, a melhor forma de entender a ‘vilã’ é ver o mundo através dos olhos dela — sem filtros, sem embelezamento, sem a promessa de que tudo vai ficar bem no final.

Fica a pergunta que o filme deixa ecoando: quantas ‘irmãs más’ da vida real são apenas mulheres que cresceram sendo ditas que nunca seriam suficientes? E quantas ‘Cinderelas’ devem seu final feliz não apenas à virtude, mas ao acaso de nascerem no lado certo da história?

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Ugly Stepsister’

Onde assistir ‘The Ugly Stepsister’?

‘The Ugly Stepsister’ estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2025 e chegou aos cinemas europeus em fevereiro. No Brasil, ainda sem distribuidora confirmada, mas deve chegar às plataformas de streaming ao longo de 2025.

Qual a classificação indicativa de ‘The Ugly Stepsister’?

O filme contém body horror gráfico, incluindo cenas de cirurgia sem anestesia e mutilação. Na Europa, recebeu classificação para maiores de 16 anos. No Brasil, provavelmente será 16 ou 18 anos dependendo do distribuidor.

‘The Ugly Stepsister’ é baseado em história real?

Não. É uma releitura do conto da Cinderela, especificamente inspirado na versão dos Irmãos Grimm. A diretora Emilie Blichfeldt inverte a perspectiva para contar a história do ponto de vista da ‘irmã feia’.

Quem são a diretora e o elenco principal?

O filme é dirigido pela norueguesa Emilie Blichfeldt, em sua estreia em longa-metragem. A protagonista Elvira é interpretada por Lea Myren. O elenco também inclui Ane Dahl Torp e Isac Aspberg.

Qual a relação entre ‘The Ugly Stepsister’ e o spinoff da Disney?

Nenhuma relação oficial. Ambos abordam a mesma premissa — humanizar as irmãs da Cinderela — mas o filme norueguês chegou primeiro e usa terror gráfico, enquanto o projeto da Disney (Stepsisters, dirigido por Akiva Schaffer) será uma comédia familiar.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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