‘The Madison’ e o paralelo inesperado com a origem de ‘Yellowstone’

Analisamos como ‘The Madison’ funciona como ‘origem espiritual’ do universo Yellowstone, espelhando a jornada de 1883 com uma nova família em Montana. Por que a série é melhor sem conexões explícitas — e o que os Clyburn emprestam dos Dutton.

Quando Taylor Sheridan anunciou The Madison, a publicidade vendia spinoff de Yellowstone. Depois de maratonar a primeira temporada, posso afirmar: não é. E, paradoxalmente, isso é o melhor que poderia ter acontecido. O que Sheridan construiu é algo mais interessante — uma espécie de ‘origem espiritual’ moderna que espelha a jornada dos Dutton em 1883, mas com uma família completamente diferente. Os Clyburn nunca ouviram falar dos Dutton, mas carregam o mesmo DNA narrativo: a morte como catalisador, Montana como destino, e a terra como personagem central.

Como ‘The Madison’ espelha a estrutura de ‘1883’ sem ser cópia

Como 'The Madison' espelha a estrutura de '1883' sem ser cópia

Em 1883, James Dutton (Tim McGraw) promete à filha moribunda que a família se estabelecerá onde ela for enterrada. Essa promessa funda o Império Dutton. Em The Madison, Stacy Clyburn (Michelle Pfeiffer) faz uma escolha espelhada: após a morte do marido Preston (Kurt Russell) em um acidente de avião, ela decide que o futuro da família está atrelado a Montana — onde a alma de Preston reside. Sheridan está trabalhando com o mesmo molde, mas invertendo os papéis. Não é mais uma filha morrendo que sela o pacto com a terra; é um marido. Não é o século XIX; é hoje. A estrutura arquetípica permanece, mas o contexto muda completamente.

O paralelo se intensifica com Paul Clyburn (Matthew Fox), cunhado de Stacy. Ele já havia se estabelecido em Montana após a morte da própria esposa — repetindo o padrão de perda que atrai os homens dessa família para o Oeste. Assim como os Dutton, os Clyburn encontram em Montana tanto a cura quanto a condenação. A natureza que Preston amava foi a mesma que o matou. É a ambivalência que Sheridan explora desde o primeiro episódio de Yellowstone: a terra dá e toma.

Os arquétipos familiares que Sheridan transfere para os Clyburn

Aqui fica evidente o jogo de espelhos que Sheridan domina. A rivalidade entre Beth e Jamie Dutton — um dos motores dramáticos de Yellowstone — ganha uma versão atenuada mas reconhecível nas irmãs Abigail (Beau Garrett) e Paige (Elle Chapman). Não existe o ódio visceral que Beth nutre por Jamie, mas a briga física que explode ‘do nada’ entre as irmãs Clyburn demonstra que Sheridan está trabalhando com a mesma premissa: famílias que se amam e se destroem simultaneamente.

Há também o romance que ecoa Beth e Rip. Abigail, a irmã mais velha, formada e bem-sucedida, começa um caso com o deputy Van Davis — um cowboy moderno. A dinâmica é familiar: a mulher educada que se apaixona pelo homem da terra. A diferença é que Abigail não é Beth. Ela não tem a crueldade calculista, nem o histórico traumático. Sheridan está reescrevendo o arquétipo com mais suavidade, talvez reconhecendo que nem toda família precisa ser um campo de batalha existencial.

Até a violência latente aparece marca registrada do universo Sheridan. Paige soca uma colega de trabalho em Nova York e perde o emprego — um surto repentino que parece sair do nada, mas que qualquer fã de Yellowstone reconhece como herança genética. A capacidade de violência explosiva mora nessas famílias, esperando o gatilho certo.

Por que ‘The Madison’ funciona como origem espiritual de Yellowstone

Por que 'The Madison' funciona como origem espiritual de Yellowstone

O termo ‘spinoff’ foi um erro de marketing que prejudicou a recepção inicial. Expectativas eram por conexões explícitas — uma referência ao Yellowstone Ranch, talvez um Dutton caminhando pelo fundo de uma cena. Não há nada disso. The Madison existe em seu próprio universo. Mas ao final da primeira temporada, quando Stacy Clyburn retorna a Montana e dorme ao lado do túmulo de Preston, a cena ecoa de forma quase reverencial o final de 1923: Spencer Dutton morrendo ao lado do túmulo de sua amada Alexandra. Sheridan está fechando um círculo temático, não narrativo.

1883 nunca mostrou os Dutton realmente se estabelecendo em Montana. A série termina com a morte de Elsa. Yellowstone pula uma década nos flashbacks da quarta temporada. 1923 assume o rancho já consolidado. Existe uma lacuna narrativa: como é o processo de uma família se transformar em ‘gente de Montana’? The Madison preenche essa lacuna espiritualmente. Stacy e suas filhas estão no início dessa jornada — descontentes com suas vidas urbanas, sendo gradualmente puxadas para a terra que consumiu Preston.

Isso explica por que a série funciona melhor sem conexões explícitas. Se Sheridan tivesse forçado um elo genealógico, The Madison seria apenas mais uma extensão de franquia. Ao isolá-la narrativamente mas conectá-la tematicamente, ele cria algo que pode respirar por conta própria — uma história sobre luto, reinvenção e a capacidade de lugares específicos curarem e destruírem famílias.

O veredito: uma origem que justifica sua existência

Fãs de Yellowstone que buscam o spinoff prometido vão se frustrar. Não há Easter eggs, não há árvore genealógica compartilhada. Mas quem assistir com a lente certa vai encontrar algo mais valioso: uma variação sobre os temas que Sheridan domina há anos, executada com elenco de peso e sem o peso de servir a uma mitologia existente. Michelle Pfeiffer carrega a série com uma performance que mistura fragilidade e determinação — especialmente na cena em que Stacy confronta o túmulo de Preston, onde Pfeiffer comunica décadas de um casamento em silêncio. É uma matriarca que não precisa ser a rainha guerreira que Margaret Dutton foi, mas que está descobrindo que pode ser.

A segunda temporada promete aprofundar a integração da família com Montana. Se Sheridan mantiver o foco na jornada emocional em vez de tentar forçar conexões com o universo Dutton, The Madison pode se tornar a melhor companheira temática de 1883 — duas histórias de famílias que encontraram na morte o motivo para se prenderem a uma terra que nunca vai deixá-las ir embora.

Para quem gosta de Yellowstone pelo drama familiar e pela Montana como personagem, vale o investimento. Para quem busca o universo expandido com referências cruzadas, melhor ajustar expectativas. Os Clyburn não são Dutton — e isso é exatamente o ponto.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Madison’

‘The Madison’ é spinoff de Yellowstone?

Não é spinoff no sentido tradicional. Não há conexões narrativas ou genealógicas com os Dutton. A série funciona como uma ‘origem espiritual’ — espelha temas e arquétipos de 1883, mas com uma família diferente e independente.

Onde assistir ‘The Madison’?

‘The Madison’ está disponível no Paramount+ desde sua estreia em 2025. É uma produção original da plataforma.

Precisa ver Yellowstone para entender ‘The Madison’?

Não. A série funciona completamente sozinha. Quem conhece o universo Yellowstone vai reconhecer paralelos temáticos, mas não há conhecimento prévio necessário.

Quem está no elenco de ‘The Madison’?

O elenco é liderado por Michelle Pfeiffer como Stacy Clyburn, com Kurt Russell como Preston Clyburn e Matthew Fox como Paul Clyburn. Beau Garrett e Elle Chapman interpretam as filhas Abigail e Paige.

‘The Madison’ tem conexão com os Dutton?

Nenhuma conexão direta. Os Clyburn nunca cruzam com os Dutton. As semelhanças são temáticas: morte como catalisador para a mudança, Montana como destino, e dinâmicas familiares semelhantes.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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