O sucesso de ‘Devoradores de Estrelas’ reacende o debate sobre o corte perdido de Lord & Miller para ‘Solo’. Analisamos como o domínio da dupla em equilibrar humor, emoção e visual ambicioso sugere que a versão demitida seria muito mais do que a ‘comédia’ que executivos temiam.
Há uma ironia deliciosa no fato de Phil Lord e Christopher Miller terem entregue um dos filmes mais visualmente ambiciosos de ficção científica dos últimos anos justamente quando o debate sobre seu corte de Lord e Miller Solo voltou à tona. ‘Devoradores de Estrelas’ não é apenas um sucesso de crítica e bilheteria — é um argumento visual de que a visão demitida da dupla para o filme do Han Solo merecia mais crédito do que recebeu.
A história é conhecida: em 2017, após filmar cerca de 80% de ‘Han Solo: Uma História Star Wars’, Lord e Miller foram removidos do projeto por ‘diferenças criativas’ com a Lucasfilm. O que sobrou foi refeito por Ron Howard, resultando em um filme competente mas estranhamente contido — uma aventura space opera que funciona sem jamais arriscar. Mas depois de ver o que a dupla fez com ‘Devoradores de Estrelas’, a pergunta que não quer calar é: o que exatamente perdemos naquele corte abandonado?
Como ‘Devoradores de Estrelas’ valida a abordagem de Lord & Miller
O novo filme da dupla é um case study perfeito do que eles fazem melhor: equilibrar humor inteligente com emoção genuína, sem nunca sacrificar um pelo outro. Grace (Ryan Gosling) e Rocky — este último um alienígena trazido à vida via puppetry em vez de CGI — têm uma química que não deveria funcionar. Um ator humano interagindo com uma marionete operada por múltiplas pessoas soa como receita para desastre. Funciona como o coração emocional do filme.
Isso não é acidente. Lord e Miller construíram carreiras inteiras provando que ‘engraçado’ e ‘profundo’ não são mutuamente exclusivos. Em ‘Homem-Aranha: No Aranhaverso’, a dupla transformou um conceito que poderia ser mera novidade — multiplos Homens-Aranha — em uma meditação sobre identidade e legado. A sequência ‘Através do Aranhaverso’ elevou essa ambição com uma narrativa visual que misturava estilos de animação conforme o universo de cada personagem. O humor deles nunca é ornamental — ele emerge do caráter, da situação, da humanidade dos personagens.
Visualmente, ‘Devoradores de Estrelas’ é um tratado sobre como fazer sci-fi com alma. A dupla priorizou efeitos práticos sempre que possível, construindo a nave de Grace como um set real e respirável. O resultado salta aos olhos — literalmente. O terceiro ato banha a tela em tons de vermelho, verde e roxo que raramente vemos em produções desse orçamento. É um filme que entende que ciência ficção deve ser espetáculo visual, não apenas narrativa em cenários futurísticos.
Aqui está o contraste doloroso com ‘Solo’: o filme de Howard é competentemente fotografado, mas visualmente esquecível. Uma paleta de cinzas e marrons que jamais ousa o que Lord e Miller fazem parecer natural. E isso nos diz algo sobre o que foi perdido.
O que reportagens revelam sobre o corte abandonado
Reportagens da época, incluindo peças detalhadas da Variety e do Hollywood Reporter, indicam que a versão de Lord e Miller divergia radicalmente daquela que chegou aos cinemas em termos de tom e abordagem de performance. A dupla encorajava improvisação extensiva dos atores — algo que, segundo Kathleen Kennedy e Lawrence Kasdan, desviava demais do roteiro original. O resultado, segundo executivos, era um filme que se parecia mais com uma comédia do que com Star Wars.
O ponto que ‘Devoradores de Estrelas’ ilumina é outro: Lord e Miller não fazem ‘comédia’ no sentido reducionista que executivos temem. Eles fazem filmes com humor orgânico — piadas que nascem de quem os personagens são, não de um roteiro forçado. Quando a dupla afirmou que não queria um Solo ‘recheado de fan service’, querendo que o filme funcionasse por si só, isso soa exatamente como a filosofia que torna ‘Devoradores de Estrelas’ tão eficaz.
A versão de Ron Howard, embora subestimada e injustiçada na época de lançamento, é inegavelmente segura. Há momentos em que o filme parece prestes a se tornar algo mais imprevisível — para então recuar rapidamente para o território Star Wars tradicional. Não é ruim. É apenas contido de uma forma que parece desperdiçar o potencial de uma história de origem de um dos personagens mais carismáticos da saga.
O ‘e se’ que o tempo só fortalece
O corte de Lord e Miller existe. Pelo menos em forma de footage suficiente para ser montado, complementado com sequências de VFX já prontas da versão teatral. A questão nunca foi técnica — é política. A Lucasfilm demonstrou zero interesse em revisitar ‘Solo’, quanto mais em lançar uma versão alternativa de diretores que eles mesmos demitiram.
Mas ‘Devoradores de Estrelas’ torna o ‘e se’ mais difícil de ignorar. Vemos a dupla entregar exatamente o tipo de equilíbrio que Kathleen Kennedy temia que eles não conseguissem: humor que não diminui a seriedade da missão, emoção que não se torna melodrama, visual que serve à história em vez de apenas impressionar. Tudo o que um filme de Han Solo deveria ser — o contrabandista mais charmoso da galáxia merecia essa energia.
Não estou dizendo que o corte de Lord e Miller seria uma obra-prima. Impossível saber sem ver. Mas depois de testemunhar o que eles fizeram com material original em ‘Devoradores de Estrelas’, a carga da prova mudou. A questão não é mais ‘será que funcionaria?’ — é ‘quanto perdemos por não tentar?’.
‘Han Solo: Uma História Star Wars’ permanece como um filme que envelheceu melhor do que críticos previram, mas carrega uma cicatriz invisível: a memória do que poderia ter sido. Lord e Miller provaram com seu novo filme que sua visão merecia mais do que uma demissão sumária. Resta saber se um dia teremos a chance de confirmar essa suspeita — ou se o corte perdido permanecerá como um dos maiores ‘what if’ da história do cinema pop.
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Perguntas Frequentes sobre o Corte de Lord & Miller em Solo
Por que Lord e Miller foram demitidos de ‘Solo’?
Segundo reportagens da época, a dupla foi removida por ‘diferenças criativas’ com a Lucasfilm. O principal ponto de conflito era a abordagem de performance: Lord e Miller encorajavam improvisação extensiva, enquanto Kathleen Kennedy e Lawrence Kasdan queriam maior adesão ao roteiro original. Executivos temiam que o resultado fosse uma ‘comédia’ em vez de um filme Star Wars tradicional.
Quanto do filme de Solo foi filmado por Lord e Miller?
Aproximadamente 80% do filme foi filmado pela dupla antes de sua demissão em junho de 2017. Ron Howard refez grande parte desse material, mas alguns elementos de VFX e cenas específicas podem ter sido aproveitados da filmagem original.
Existe chance do corte de Lord e Miller ser lançado?
Tecnicamente, o footage existe. Politicamente, é improvável. A Lucasfilm nunca demonstrou interesse em revisitar ‘Solo’, e lançar uma versão de diretores demitidos seria um reconhecimento implícito de erro. Movimentos de fãs como ‘#ReleaseTheLordMillerCut’ existem, mas não tiveram o mesmo impacto que campanhas similares para outros filmes.
Onde assistir ‘Devoradores de Estrelas’?
‘Devoradores de Estrelas’ está em cartaz nos cinemas desde março de 2026. Ainda não há data confirmada para lançamento em streaming ou plataformas digitais.
‘Solo’ de Ron Howard é um filme ruim?
Não. ‘Han Solo: Uma História Star Wars’ é um filme competente que envelheceu melhor do que críticos previram na época. O problema não é qualidade técnica, mas falta de ambição: é uma aventura space opera segura que nunca arriscou o que a versão de Lord e Miller aparentemente tentaria.

